julho 31, 2004

PARTE DE UM DISCURSO NUM ESPECTÁCULO DE HOMENAGEM

E — depois dos maiores triunfos nas grandes cidades e cortes da Europa, de Lisboa a S. Petersburgo — morreu, segundo o desejo que manifestara, nos derradeiros dias, ao Padre Luís Rodrigues:
" Cheguei a suplicar a Deus que me desse vida e saúde, pois agora grandes coisas gostaria de fazer para Sua glória. Mas que merecimentos tenho eu, mulher como qualquer outra, para que o Senhor me distinguisse e em mim manifestasse o Seu poder? Não. Aceito a vida ou a morte, consoante Deus determinar".

E, pelas onze horas da noite de 30 de Julho, o Padre Luís Rodrigues, seu confessor, a quem a doente pedira que não a abandonasse na hora extrema, ajoelhado à beira da sua cama, rezava-lhe as orações dos moribundos que ela atentamente seguia, no supremo esforço de deixar a terra e entrar, purificada, na Eternidade.
No quarto, como testemunhas mudas da tragédia sublime da libertação daquela alma, apenas Mrs Melville, que chegara de Londres nesse mesmo dia, chamada por um telegrama da doente, e a enfermeira inglesa, de joelhos também, subjugada pela grandeza do quadro que tinha diante dos olhos. E mal o sacerdote acabou de recitar as orações, Guilhermina Suggia expirou serenamente, entregando a alma a Deus que a fizera nascer Artista e seguir no mundo da Música uma trajectória de luz.

Publicado por vm em julho 31, 2004 02:08 AM
Comentários

Clarinda estaria com toda a certeza também no quarto na hora em que Suggia morreu. Talvez por ser "a criada" o orador achasse ser insignificante referir. Mas para Suggia era também a amiga.

Afixado por: vm em julho 31, 2004 02:11 AM

Sim, a Clarinda estava também no quarto e era uma grande amiga, uma confidente e uma companheira para além de uma espécie de governante. Tenho tanta pena que já tivesse também morrido!
Nunca tinha lido nenhum relato tão minucioso da morte de Guilhermina. Ela esteve perfeitamente consciente mesmo até ao último momento, meu Deus, como sabia ela que ia morrer, chegando ao ponto de ordenar que lhe pintassem as unhas?
Dizem que essas coisas se sabem, e é verdade, todas as coisas importantes e grandiosas, coisas da Natureza são instintivas, e há uma certeza que nos diz: "é agora, isto vai acontecer".
Claro que ela sabia da existência de uma Vida Eterna. Pois se esteve sempre, através da música, em ligação com Deus.

Afixado por: isabel millet em agosto 1, 2004 04:07 AM