outubro 03, 2004

PARTE DE ENTREVISTA DE PROF HELENA SÁ E COSTA À REVISTA MACAU

VJ - Que tal se começássemos por falar de Guilhermina Suggia
HSC – Sim. Conheci-a aqui no Porto quando ela veio de Londres em 1924. Esteve lá cerca de 20 anos sem vir a Portugal tocar. Era muita falada aqui em casa, pois a minha mãe tinha sido muito amiga dela. Mas nós não a conhecíamos pessoalmente, víamos somente os retratos antigos e tínhamos uma pequena ideia através daquilo que nos contavam. A única coisa que sabíamos era que ela vivia em Londres. Um dia, os meus pais foram tocar a casa do escultor Teixeira Lopes e uma das pessoas que também se apresentou foi a Guilhermina Suggia que tinha acabado de chegar de Londres. Tinha vindo para juntar os pais que estavam separados e conseguir comprar uma casa para eles. Acabou por "encontrar" um marido, tendo casado com um médico português, Dr. Carteado Mena a quem admirava muito.

VJ – Como era a sua personalidade?
HSC – Exuberante. Dava muito nas vistas; não que fosse muito bonita, mas quando se arranjava bem nos concertos chegava a ser bonita. A tocar então, tinha expressões que a tornavam mesmo fascinante. Musicalmente era também muito exuberante. Aquilo que o Pablo Casals tem de interioridade, ela tinha de expressividade. Ela falava muito do Casals, pois tinha vivido sete anos com ele…
VJ - …fala-se muito do seu vibrato intenso…
HSC – …sim, é verdade. Ela tinha uma técnica muito refinada que transparecia, por exemplo, quando tocava as Suites, de Bach. Naturalmente tinha aprendido com o Casals pois tinha sido aluna dele. Como sabe, o Casals tocou muito aqui no Porto, num Café em Espinho. E foi daqui que o meu avô o convidou para fazer uma tournée pelo Brasil com o trio formado por ele próprio, Casals e o pianista inglês Harold Bauer. Só depois disso é que ele foi com a Suggia para Paris e, curiosamente, a mãe dela a acompanhou. Apesar de toda essa exuberância que há pouco referi, ela era um pouco desigual: havia dias que estava muito bem disposta e outros nem tanto. Era também muito notada na rua pois vestia-se sempre com muitas cores. Nos concertos, porém, vestia-se lindamente e com grande requinte. É curioso que ela foi uma das primeiras pessoas a guiar automóvel chegando mesmo a dizer que ia para os seus concertos a conduzir, pois era a maneira de se distrair, concentrando-se naquilo que estava a fazer e não tendo que pensar no concerto. Isso, porque era muito ansiosa. Por várias vezes tocou com Freitas Branco em Lisboa e chegou mesmo a desmaiar pois sentia uma grande aflição antes de entrar para o palco.
Depois de estar muito tempo afastada do nosso meio, tinha receio de que começassem a convidá-la indiscriminadamente para tocar. Por isso, tornou--se de muito difícil acesso: não aceitava os convites e quando aceitava, era um preço louco.

Extracto de entrevista dada a VEIGA JARDIM por Prof HELENA SÁ e COSTA para a Revista MACAU

Publicado por vm em outubro 3, 2004 10:29 AM
Comentários

Interessantíssimo!

Afixado por: isabel millet em outubro 3, 2004 08:58 PM

Virgilio, poderia dizer-me onde posso encontrar esta entrevista? É que é de facto muito interessante para o meu trabalho.

Afixado por: isabel millet em outubro 3, 2004 09:27 PM

Este excerto de entrevista foi tirada da Revista MACAU de Julho 2000. Esclareço, no entanto, que transcrevi tudo o que é dito sobre Guilhermina Suggia.

Afixado por: vm em outubro 4, 2004 08:43 AM

Obrigada, Virgilio. Realmente só me interessa o que é dito sobre a Guilhermina Suggia, por isso este excerto basta-me.

Afixado por: isabel millet em outubro 4, 2004 11:35 PM