SOCIEDADE DE CONCERTOS DE LISBOA
Abrindo uma nova folha do seu já volumoso livro de ouro, a Sociedade de Concertos apresentou uma artista em começo de carreira, mas precedida de uma forma que longos anos de trabalho muitas vezes não logram atingir. A violoncelista Zara Nelsova tem para nós, portugueses, um significado muito especial, porque a divulgação do seu nome, em tão pouco tempo, se deveu em parte aquela extraordinária capacidade de admiração que caracterizava a nossa saudosa Guilhermina Suggia e não menos ao prestígio de que a insigne concertista gozava no estrangeiro. Foi nem jeito de homenagem à memória de Suggia que Zara Nelsova preferiu Portugal a outros países europeus, nesta primeira “tournée” pelo continente.
O interesse que as circunstâncias suscitavam aumentou quando soubemos o programa proposto.
O vulgar, num artista-virtuoso, é a limitação ao reportório que lhe dá maior evidência.
Zara Nelsova não quis negar ao público uma demonstração indiscutível das suas possibilidades técnicas e assim, começou pelo “Concerto” de Schumann, bem uma peça para solista e acompanhamento. Mas artista séria e inteligente, Zara Nelsona procurou um outro carácter para a sua segunda contribuição, salvando o equilíbrio do programa, tantas vezes comprometido pelo individualismo dos executantes. O “D.Quixote” é essencialmente um poema para orquestra, em que o violoncelo desempenha um papel apenas mais importante do que os outros instrumentos, nomeadamente a viola.
Tanto em Schumann como em Strauss Nelsova marcou uma forte personalidade artística, modularmente séria e, ao mesmo tempo generosa em rasgos de expressão nunca inconveniente à própria natureza da música.
A afinação é impecável nas passagens mais transcendentes como nas elementares. Uma qualidade que nos faz recordar a sua grande admiradora portuguesa, cujo entusiasmo comunicativo não pôde, infelizmente, manifestar-se ontem como em tantas noites de boa música no S. Carlos, é a perfeita incisão rítmica, que, só por si, torna a execução de Nelsova qualquer coisa de vivo e lhe dá a mais sólida base musical.
A assistência soube corresponder à categoria da concertista. Os aplausos e chamadas obrigaram Nelsova a vir inúmeras vezes ao proscénio.
À Orquestra Sinfónica Nacional e ao seu director, Pedro de Freitas Branco, são devidas palavras de elogio pelas realizações das aberturas “Carnaval Romano” e “Rienzi”, do “Adagietto” de Mahler, do acompanhamento do “Concerto” de Schumann, sobretudo pela felicidade com que venceram as mais incontáveis dificuldades da partitura de Strauss, sem esquecer os solos de viola por Albertina Freire.
Está de parabéns a Sociedade de Concertos de Lisboa pelo excelente início de temporada. J.F.B.
O Século, 23/11/1950
Pois é, a Guilhermina Suggia tinha morrido há quase quatro meses: mas estava lá, com toda a certeza, e deve ter aplaudido Zara Nelsova com todo aquele entusiasmo, como só ela sabia.
Afixado por: isabel millet em outubro 16, 2004 01:15 AMBelo comentário, cara Isabel Millet! Porque essa "capacidade de admiração" do talento alheio -também nisso a Suggia era grande - não é muito frequente na comunidade artística portuguesa.
Dirigindo-me agora ao Virgílio, a quem devemos esta admirável "janela", quero-me congratular por, de alguma forma, o meu insignificante contributo verbal o tenha animado. Ainda bem que gostou de Ass. para a divulgação do espólio, arte e memória de G. S.
Mais duas ou três sugestões:
Por que não escrever para o Palácio de Belém solicitando a aderência da Dr.ª Maria José Ritta, fazendo deste movimento uma questão simbolicamente nacional? Li em qualquer lado - e se for falso, corrijam-me - que a Suggia foi das primeiras, se não a primeira na Europa, a tocar violoncelo da forma "normal" e não "à amazona", como nessa altura era "próprio" para uma executante. Também nisto, ao desafiar os condicionalismos recessos, da sua época, Suggia É GRANDE!
Há ainda nomes a conquistar para a Associação. Por que não Miguel Veiga, Vasco Graça Moura, Agustina Bessa Luís?
Abraço
Inês
Naturalmente que todas as sugestões são bem recebidas. A Associação será uma associação onde todos os que pretendam dignificar a memória de Suggia têm cabimento. E todos aqueles que tenham admiração e respeito pela memória de Suggia podem trazer todas as pessoas que entenderem. Que venham Miguel Veiga, Vasco Graça Moura, Agustina Bessa Luís. Eu não tenho parado de contactar pessoas.Há a provável adesão (tudo depende do projecto de estatutos) de algumas pessoas que oportunamente divulgarei. Mas por muito que gostasse de fazer mais, pela grande admiração que tenho por Suggia, não posso. Teremos que ser mais a chamar outros. Espero bem que assim seja! Vamos em frente com a ASSOCIAÇÃO GUILHERMINA SUGGIA.
Afixado por: vm em outubro 17, 2004 11:45 PMTem toda a razão, Inês, a Suggia foi a primeira mulher a tocar violoncelo sem ser à amazona, como anteriormente tocavam, e isto é um factor que a torna ainda mais importante e mais fascinante.
Ela foi a mulher mais feminista de que me consigo lembrar! Isto faz com que seja verdadeiramente fundamental divulgar a sua vida e a sua obra.
A ideia de escrever para o Palácio de Belém é fantástica! Assim como de contactar o Dr. Miguel Veiga, o Vasco Graça Moura, a Agustina e aqui vai mais uma sugestão: e a Maria João Pires?