outubro 19, 2004

G.SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE- HOMENAGEM 25/11/1950- (1ªPARTE DE DISCURSO)

ILUSTRE REPRESENTANTE DE S. EXCELÊNCIA o MINISTRO DA EDUCAÇÃO NACIONAL E
SENHOR VICE-REITOR,
SENHORES PROFESSORES E ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE,
DIGNAS AUTORIDADES,
SENHORAS E SENHORES:

A primeira vez que ouvi Guilhermina Suggia — que eu, em criança, vira passear, já menina prodígio, na praia de Leça com sua irmã Virgínia, há três anos falecida em Paris onde vivia — foi em 9 de Junho de 1923, no Teatro de S. João, quando a grande concertista aqui veio "matar saudades" após uma larga ausência de Portugal. O seu génio artístico, dando-lhe fama, cobria de glória a nossa Pátria.

Se bem me lembro, tocou nessa memorável noite, acompanhada pela Orquestra Filarmónica de Lisboa, regida por Francisco de Lacerda, o célebre, e na opinião de Pablo Casals dificílimo Concerto de Haydn, cuja interpretação, sob a regência de John Barbirolli, ainda hoje podemos admirar na gravação de "His Master's Voice". A solo, tocou uma Suite de Bach, seu autor predilecto, e novamente com a orquestra o Concerto de Lalo.

Se a técnica de Guilhermina Suggia (salientou o "Times" ao noticiar o falecimento da Artista) era de pureza clássica, as suas interpretações animavam-se com um calor e uma paixão que lhe pertenciam pelo berço e pela nacionalidade. Com efeito, seu pai, o violoncelista Augusto Suggia, foi o seu primeiro mestre—só mais tarde Julius Klengel a leccionou em Leipzig; — sua irmã, um pouco mais velha, era uma pianista distinta; e tanto Guilhermina, portuense, como Casals, catalão, — de quem também recebeu lições — se criaram ao sol ardente e magnífico da Ibéria.
Quem poderá esquecer a perfeição da sua técnica que tudo vencia sem esforço aparente? Como esquecer o incomparável som, aveludado e quente, da sua arcada elegante e segura? O vigor do seu estilo inconfundível, misto de paixão, dignidade e firmeza, consoante justamente notou Richard Capell? E como esquecer, enfim, as atitudes da Artista, vivendo intensamente o drama dos poemas que interpretava? Porque ela, rindo ou chorando, tudo nos transmitia através do seu amado violoncelo.
Depois daquele concerto no Teatro de S. João — hora de Arte e de glorificação da Artista — creio que nunca Suggia tocou no Porto que eu não a ouvisse, exceptuando a noite de 25 de Maio de 1948, em que fechou, na Sala do Conservatório, as reuniões da Camarata desse ano.
Nessa noite foi particularmente feliz. Depois da nevrite que por alguns meses a obrigara a absoluto repouso da mão esquerda, tocava então pela primeira vez em público. A doença não a diminuira. Ela própria confessou ao Dr. Jayme de Souza e a mim que ficara plenamente satisfeita com a prova, pois fora uma das raras vezes em que tocara bem na sua já longa vida de concertista. E ao nosso sorriso respondeu, com seriedade e convicção: "facto, tSei o que estou a dizer-lhes. Os dedos das minhas mãos são de mais para contar as vezes em que, de tenho sido feliz ". Era a insatisfação dos grandes artistas.

Pela radiotelefonia, que me lembre, ouvi-a num dos seus concertos em Lisboa: com a Orquestra Nacional e uma noite — estava eu em Santiago de Compostela na acolhedora casa do cirurgião Puente Castro — quando ela, com a mesma orquestra, interpretou em Madrid o Concerto de Dvorak (28-IV-1945).

A última vez que a ouvi—já então o emagrecimento e a palidez impressionavam — foi no dia 31 de Maio deste ano, dois meses antes da morte. Aquele concerto em Aveiro foi o canto do cisne. As derradeiras músicas que tocou foram, extra-programa, a Peça em forma de Habanera de Ravel, e a alada e saltitante Abelha de Schubert, executada, assim como sucedera com o Rondó de Weber, com tal perfeição, nitidez, leveza, e mocidade, que a assistência, com seus aplausos, a levou a bisar o trecho.
Agora, tristemente repetimos as palavras trágicas do Poeta: Never more ! Nunca mais ouviremos vibrar, feridas pelo seu arco mágico, as cordas dos violoncelos predilectos — o Stradivarius e o Montagnana — que legou para prémios escolares. E para sempre nos faltam a alegria e o entusiasmo do seu convívio tão simples e afectuoso.

Sim. A morte da grande concertista emudeceu para sempre as cordas dos seus violoncelos preferidos, companheiros fiéis da sua gloriosa carreira. Lembram-me neste momento os versos emocionantes de Camilo Pessanha:

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.”

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

PARTE DE UM DISCURSO FEITO NUM CONCERTO DE HOMENAGEM(as partes restantes serão publicadas brevemente

Publicado por vm em outubro 19, 2004 12:09 AM
Comentários

Nem tenho palavras. Fiquei muito emocionada e amanhã escrevo qualquer coisa mais.

Afixado por: isabel Millet em outubro 21, 2004 12:49 AM