outubro 20, 2004

GUILHERMINA SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE- (2ª PARTE DE DISCURSO )

Restam-nos, além de um filme que não conheço, alguns discos gravados e o soberbo quadro da Tate Gallery, de Londres, em que o pincel de Augustus John imortalizou na tela a genial Artista numa das suas atitudes de sonho, beleza e domínio.

Fui-lhe apresentado pelo marido, o saudoso colega Dr. Carteado Mena, em 10 de Junho de 1934, no Palácio da Bolsa, no intervalo do concerto que ela generosamente ofereceu à Universidade (então dirigida pelo Prof. Adriano Rodrigues), para auxiliar os estudos de alunos mais necessitados. Depois desse recital no Salão Árabe, em homenagem a Camões, outras belas noites lhe ficou devendo a Universidade, nas quais ela própria ou algumas discípulas, trazidas por sua mão,— Miss Fleming, D. Maria Alice Ferreira e D. Pilar Torres — tocaram nas Salas Nobres das Faculdades de Medicina e Engenharia,
Quando, em Junho de 1948, nesta cidade reuniu o II Congresso Nacional de Engenharia e o Dr. Jayme de Souza e eu — acompanhei-o, a seu pedido, nessa missão delicada — quisemos ouvir o conselho de Guilhermina Suggia sobre a organização de um concerto a oferecer aos congressistas, sem que por nós passasse a sombra sequer da ideia de se obter a sua contribuição pessoal, foi ela que espontaneamente se ofereceu, insistindo até vencer o nosso acanhamento e receio em aceitar tão inesperado quanto honroso oferecimento. Pôs só uma condição: tocar dentro da Universidade, no Salão da Faculdade de Engenharia, e apenas para os congressistas e elemento oficial.

Se para o Engenheiro Jayme de Souza foi gratíssima a presença da Artista na sala da Faculdade que o diplomou, para mim seria igualmente grata a sua presença na sala da minha Faculdade, Escola onde seu marido havia também estudado.

A rara sensibilidade de Guilhermina Suggia surpreendeu o meu desejo. Nas vésperas de partir para Londres para tocar, sob a regência de Malcom Sargent, o Concerto de Elgar no grandioso festival patrocinado pela Rainha a favor do "Musicians’ Benevolent Fund", Suggia, nervosa o preocupada, dizia-me no final do ensaio de D. Maria Alice Ferreira: " Se quiser que eu venha tocar na sua Faculdade, não se esqueça de mim nas suas orações, pedindo a Deus que em Londres tudo me corra bem". Felizmente, o êxito foi completo. Releio a carta que o Eng.° Carlos Beires, então em Walton-on-Thames, a trinta quilómetros do centro londrino, me escreveu em 27 de Novembro de 1948:
"Recebi as suas palavras precisamente na manhã desse dia memorável em que fui ouvir a Senhora D. Guilhermina ao Albert Hall. Não podiam, pois, chegar em melhor altura.
" Foi uma noite que não esqueço. A grande sala cheia, com a presença da Rainha e da Princesa Margarida. Programa de música inglesa com um grande Coro, Orquestra Sinfónica de Londres e o M. Sargent. Muito entusiasmo. A grande Artista tocou com uma profundidade e emoção como poucas vezes tenho ouvido. E soube comunicar-no-las !
"Fui encontrá-la à saída do palco, durante os agradecimentos ao público, e senti então ainda melhor essa agitação dos grandes momentos. Recebeu-me com uma amizade que não posso esquecer...

"Transmiti-lhe as palavras de V...... e a incumbência que a sua carta me conferia. E pode estar certo de que, se é grande a sua admiração e gratidão por Guilhermina Suggia, nela não encontrará senão compreensão e boa vontade! Li-o na expressão com que ouviu as minhas palavras."

"E como gostaria (termina Carlos Beires) de estar presente nessa noite memorável em que a maior Artista portuguesa pisar o estrado dum dos salões nobres da nossa Universidade " !

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

Publicado por vm em outubro 20, 2004 12:00 AM
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