outubro 21, 2004

GUILHERMINA SUGGIA- GRANDE NA VIDA E NA MORTE (3ª PARTE DE DISCURSO)

Pisava-o seis meses depois. Gentil e generosa, levou à Faculdade de Medicina, na noite de 21 de Maio de 1949,— há pouco mais de um ano! — o notável Trio de que Henri Mouton e François Broos também faziam parte e, a seguir, porque acedesse a tocar a solo, nós ouvimos encantados e agradecidos, os três artistas no Centro Universitário em novo e magnífico recital que terminou a altas horas.

E não se julgue que o oferecimento de Guilhermina Suggia para tocar não representava sacrifício. Talvez poucos saibam que a notável concertista, exigentíssima consigo própria, nunca subia serena para o estrado, donde seduzia e enfeitiçava as almas com a voz do seu violoncelo, "ora mystica e pura como um tabernáculo de Deus, ora desvairada, incoherente, como possessa d'um demónio louco!" para me servir de palavras de António Cândido a propósito da prosa de Eça de Queirós.

"Para tocarmos (confessava-me nessa noite) queimamos os nossos nervos.” Um concerto representava sempre para ela uma grave preocupação."
E foi certamente por isso que, embora houvesse cuidadosamente preparado com D. Ernestina da Silva Monteiro programas diferentes para treze concertos, nunca lhe ouvimos tocar a maior parte dessas músicas. Mas ninguém se admire. O grande Pablo Casals — de quem Suggia, como já o disse, recebeu lições e com quem mais tarde colaborou — "depois de milhares de concertos com o máximo êxito, ainda pode tremer em frente do público como na sua primeira apresentação", escreve um dos seus biógrafos. E passou mais de dez anos a estudar as Suites de Bach antes de as tocar publicamente. É que os artistas vivem insatisfeitos. O grande pintor Malhoa confessava ao Dr. Alberto Rego, em carta de 12 de Junho de 1932, a propósito do Retábulo para a Igreja de Chão de Couce, última obra que sua mão assinou: " Ah! meu amigo, vim ao mundo com olhos e coração de artista, o que quer dizer que tenho tido uma vida de torturas! Se a arte nos dá algumas horas de encanto, sucedem-se não horas mas dias e meses de lutas constantes procurando atingir o que tão difícil é: realizar o nosso sonho!"

Referi estes factos não só para mostrar os motivos da gratidão que a Universidade e o Centro Universitário devem à memória de Guilhermina Suggia, mas também por me parecer que eles pedem contribuir para melhor e mais justa compreensão de algumas atitudes da Artista, julgadas, porventura, estranhas por espíritos desprevenidos.

E, se me permitem, farei referência, ainda, a um episódio, bem eloquente na sua singeleza, contado pelo Prof. Egas Moniz em carta ao seu antigo condiscípulo, cujo nome ainda agora citei.
Passou-se há anos no Hotel do Buçaco. Uma tarde Suggia, ali. hospedada, apareceu inesperadamente, com o seu violoncelo, na pequena sala privativa onde os músicos do sexteto que tocava no Hotel principiavam a jantar: "Vocês tocam para nós (disse-lhes); eu venho hoje tocar para os meus amigos. E a lei das compensações." E sentou-se. De nada sabiam os hóspedes. A surpresa, e simultaneamente recompensa, fora apenas para os artistas. Para ninguém mais Suggia nessa tarde admiravelmente tocou.

Eram assim as suas reacções. Tinha dentro de si aquela aguda e fina sensibilidade, sem a qual não se é verdadeiramente grande artista. No convívio que o Dr. Jayme de Souza e eu tivemos com ela nos três últimos anos — em que nunca lhe ouvimos qualquer referência depreciativa ao valor ou ao carácter de colegas, mas sim, muitas vezes, palavras de elogio e apreço — sempre se mostrou extremamente simples e acolhedora, disposta a auxiliar as iniciativas culturais do Centro Universitário e a estimular a favor dele e da nossa Universidade o entusiasmo das jovens artistas, suas discípulas, às quais inteiramente se dava. Não quis partir para Londres e deixar-se ali operar sem ouvir a voz daquela que hoje é religiosa numa casa de Barcelos. À outra instituiu sua herdeira. Ensinar será obra apenas de inteligência; mas educar, afeiçoar almas, cercando-as de Beleza, é obra de amor.
A alma sensível e o espírito de compreensão de Guilhermina Suggia revelam-se nas duas cartas — uma de 18 de Agosto e outra de 13 de Setembro de 1945, portanto cinco anos antes da sua morte — dirigidas a D. Ernestina da Silva Monteiro, quando a discípula, a que me referi acima, resolveu abraçar a vida religiosa. Escreve na primeira: "Ela veio visitar-me na quarta-feira passada e fomos a Barreiros [onde Suggia tinha a sua casa de campo] e depois a Leça; uma tarde juntas, conversando muito, chorando muito, mas fiquei convencida que é Deus que a chama e que nada há a fazer para modificar as suas ideias". E acrescenta: "Se gostava d'ela até aqui, ainda me prendeu mais aquele ar de bondade, quási de santidade, que nos inspira admiração e respeito". E faz a confissão seguinte que merece ficar registada: "É curioso, mas sinto-me feliz agora por ela ir para esse mundo espiritual, cheio de mistério e de beleza. Não a perdemos, ganhámo-la e estará sempre mais perto de nós". Na carta seguinte volta a falar com a maior ternura da que fora sua discípula muito querida. Diz assim: "Tenho-a sempre no meu pensamento e apesar de me ter conformado e desejando por vezes estar no lugar d'ela, pois que o mundo para onde ela vai é bem melhor do que este em que vivemos, cheio de maldades, invejas, caprichos e ambições e mentiras, sinto uma grande saudade. Ao menos lá tudo é pureza, simplicidade, bondade, abnegação e o próprio sacrifício deixa de existir, porque reverte em prol da Humanidade''.

Não tive escrúpulo em citar aqui passos destas cartas íntimas nem sua dona o teve em consentir que eu o fizesse. O nosso desejo é prestar homenagem à memória da Artista, referindo um conjunto de factos reveladores da nobreza dos seus sentimentos.

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

Publicado por vm em outubro 21, 2004 12:00 AM
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