outubro 22, 2004

GUILHERMINA SUGGIA-GRANDE NA VIDA E NA MORTE ( 4ª e ÚLTIMA PARTE DO DISCURSO)

O interesse de Guilhermina Suggia pela obra cultural e artística da Universidade motivou que nos últimos anos mais de perto com ela convivêssemos. Grande prazer espiritual? Sem dúvida. Mas isso levou-nos a assistir, magoados, aos estragos de uma doença que em curtos meses a entregou à morte.

Havia um ano, talvez, que Suggia se vinha queixando e nos derradeiros meses intensificaram-se os sintomas: dores, fastio, emagrecimento. Em Londres consultou médicos e tirou radiografias. O diagnóstico certo a que chegaram — se a algum chegaram — ignoro. Sei que não lhe falaram em operação. E foi pena.
Desta sua estada em Londres conheço mais pormenores pela carta, de 25 de Outubro, do Dr. Bártolo do Vale Pereira que a visitou, a meu pedido, em casa de Mrs Melville, onde se hospedara. Tenho essa carta diante de mim. Primeiro, são as gratíssimas impressões que lhe ficaram da demorada visita a D. Guilhermina Suggia, com quem falava pela primeira vez e que o recebeu gentilmente. Em seguida, vêm as impressões do concerto em Bournemouth.

Depois de se referir à cidade, entra na descrição do festival que se realizou para comemorar o 57.° aniversário da criação da Orquestra Sinfónica, nessa noite regida por Rudolf Schwarz. À abertura do Egmont de Beethoven, seguiu-se a Suite n.° 3 de Gordon Iacob que estava na sala a assistir à execução da sua obra. Como terceiro número, figurava no programa o Concerto, Op. 20, de Eugène d' Albert. É então que sobe ao estrado a nossa grande Artista que ouviu uma extraordinária ovação. E Bártolo do Vale Pereira remata os seus comentários com esta frase: "Enfim, não há a menor dúvida que foi um grande triunfo para ela, e para mim uma noite memorável".
Foi essa a última vez que Suggia tocou na Inglaterra que a adorava. A penúltima fora, meses antes, nos grandiosos festivais de Edimburgo.

Uma vez em Portugal, aumentaram as preocupações com o seu estado. Assaltou-a uma suspeita terrível. Nas vésperas do último concerto, adiado já por motivo da sua doença, Guilhermina Suggia mostrou-me claramente as suas apreensões. Bem entendi que a Artista fizera o diagnóstico do mal.
Álvaro Rodrigues, que então a viu, a pedido do colega Castro Henriques que sempre tão dedicado lhe foi, aconselhou a intervenção urgente que seria a salvação ou a sentença sem apelo.

Que dias e, sobretudo, que noites de angústia passaria a doente, sozinha, sem qualquer pessoa de família que pudesse consolar-lhe o coração aflito perante o mistério do Além! Porque ela ouvia já, no silêncio do seu quarto, aproximarem-se os passos da Morte e queria preparar-se para se lhe entregar cristãmente.

Chamou na manhã de 17 de Junho, um sábado, o Padre Luís Rodrigues para que lhe indicasse o caminho do Céu. Quando ouviu da boca do sacerdote as palavras da absolvição, sentiu — afirmou depois — a maior felicidade da sua vida. Chamou também o advogado e o notário para melhor poder repartir quanto possuía na terra. E tudo deixou escrito por sua mão, com a meticulosidade, o método e a ordem que punha em todas as coisas. "Vou para Londres preparada para quanto me possa suceder", disse-nos ela, a Castro Henriques e a mim, três dias antes de seguir para Inglaterra.
Partiu, entrou na London Clinic, e na mesa operatória, no dia seguinte ao do seu aniversário (nascera em 27 de Junho de 1885), perante as lesões da parede da vesícula calculosa e já do próprio fígado, o cirurgião Maingot e Álvaro Rodrigues viram desaparecer a última esperança. No mesmo dia da operação, ao cair da tarde, o Dr. Castro Henriques e eu estávamos ao corrente da situação insolúvel.

Portugal ia perder um dos seus mais gloriosos concertistas e a Inglaterra um dos seus artistas predilectos. Assim se exprimiu o Embaixador inglês em Lisboa ao endereçar ao nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros as condolências oficiais da Grã-Bretanha: "Qualquer que fosse o seu auditório — na presença da rainha ou da rainha-mãe, ou de operários das minas chegando do trabalho — a resposta, ao ouvi-la tocar, era sempre a mesma: admiração pela sua arte consumada. Amaram-na por si-mesma e pela sua personalidade verdadeiramente admirável."

Dias depois da laparotomia exploradora, eu recebia a notícia, por carta do Dr. Bártolo do Vale Pereira, prestes a terminar o seu estágio em Inglaterra, de que: Guilhermina Suggia regressaria no avião português de sábado, -15 de Julho. Eu, a caminho do Congresso Internacional de Anatomia, a reunir na velha Oxónia, só chegaria a Londres na noite seguinte.
Por isso, julgando-a já em Portugal, surpreendido fiquei, quando na manhã de segunda-feira o. Dr. Miguel Pile, nosso muito ilustre Cônsul Geral na capital inglesa, me comunicava, em nome da doente, que ela, ainda em Londres, partiria nessa tarde. O avião atrasara o seu voo.
Liguei para a London Clinic. Falou-me com voz segura, a voz de sempre, em que ninguém descobriria sofrimento ou desânimo. Dali a pouco encontrava-me junto dela. Seriam - 11 horas. Estava ainda deitada, a tomar vários medicamentos com que a preparavam para a viagem aérea. Disse-me então: "Sei que tenho um mal sem cura". Quis animá-la, mas logo me interrompeu: " O Dr. Maingot contou-me ontem toda a verdade. A Medicina nada mais pode fazer. Tentou-se tudo. Receitou-me umas injecções. Levo-as comigo. Se não fizerem efeito, mais nenhuma terapêutica se conhece para este mal". A Artista já não podia iludir-se. Ouvira, a sua sentença de morte. E até lhe explicaram como seria o seu fim.

Mrs Melville, a grande amiga das horas boas e das horas más, havia entrado no quarto. E, de pé, junto da cama, olhava-me e olhava a doente, mantendo a custo a serenidade necessária. Era difícil responder. Todavia, precisava de animar a doente e atenuar os efeitos da confissão brutal da verdade. Calmo, procurando dar às minhas palavras a maior naturalidade, observei: "É possível que o seu médico tenha razão. Porém, o que a Medicina e os homens não conseguem, pode muito bem fazê-lo Deus, se assim o entender". Súbito, os olhos da doente iluminaram-se. Por eles passou um clarão de esperança.. E respondeu-me: "Tem razão. E olhe que eu tenho fé. Ainda há pouco esteve aqui um padre irlandês, a quem me confessei e que me deu o Senhor ". Confiava num milagre. Despedi-me e saí.
Duas horas depois entrava de novo na Casa de Saúde. O nosso Cônsul, solícito e carinhoso, não demorou a chegar. Suggia desceu até ao carro amparada por nós. (O edema enorme dos membros inferiores tornava-lhe o andar difícil e muito penoso. No entanto, cabeça erguida, voz forte e bem timbrada, muito cuidada a toilette. Pertencia ao número daqueles "que têm pudor de sofrer ou desfigurar-se em público". Nunca a vi chorar, nem mesmo quando se despediu de Mrs Melville, do Conselheiro da Embaixada, Caldeira Queiroz, do Dr. Miguel Pile e de mim, e a levaram num carrinho de rodas — caridosa atenção do pessoal do aeródromo, creio eu — da sala de espera, onde estávamos, para o avião que a trouxe a Portugal, onde queria morrer e ser sepultada.

Mas sei que chorou na intimidade, tanto na London Clinic como em sua casa, perto do fim. :

"'Lágrimas! A melhor tinta .
Com que se pode escrever".

"Não sei, nem agora me importa saber, se é monótona a descripção de uma dor humana, para os desconhecidos de quem a sofreu", disse Alberto de Oliveira na comunicação sobre a morte do poeta António Feijó, dirigida à Academia Brasileira. E logo acrescentou este comentário: "Monótona será, mas ai de quem lhe não sentir a grandeza e a beleza!" Ao longo dos corredores da London Clinic, Suggia foi-se despedindo do pessoal que a servira. Primeiro, partiu o automóvel com a doente recostada em almofadas, levando junto dela Mrs Melville e a enfermeira que a acompanhou ao Porto. O Dr. Miguel Pile quis passar ainda por uma casa de flores. Levou-lhe uma caixa de jasmins. Eu levei-lhe umas rosas. Pequenas atenções a que era tão sensível o coração da Artista. Nós sabíamos — e ela, desgraçadamente, também o sabia —que eram aquelas as últimas flores que em vida de nós receberia.

Era tão sensível ao bem que lhe faziam que chegava a sofrer. Poucos dias antes de partir para Inglaterra, estávamos junto da sua cama de doente os seus médicos e eu. Decidido que ela se operaria em Londres, o Dr. Álvaro Rodrigues, para a sossegar, prontificara-se a acompanhá-la. Tão grata notícia fora-lhe transmitida na véspera ou antevéspera. E era esse favor que desejava agradecer. "Esperava muito de si (dizia ela voltada para Álvaro Rodrigues), mas nunca podia supor que por mim tanto se sacrificasse. Quando o soube pelo Dr. Castro Henriques, fiquei muito comovida. Não consegui dormir toda a noite. Sofri muito"' E perante a nossa admiração, explicou: "É que eu sofro mais com o bem do que com o mal que me fazem". Por isso, ela era a grande Artista que foi! A sua personalidade — escreveu o violoncelista alemão Paulo Grummer a D. Madalena Moreira de Sá —"foi e permanece única".

Façamos por não esquecer a nobre lição que, sem o pretender, assim nos deu e apague-se qualquer nota discordante que possa vir perturbar a harmonia que em nós deve despertar a evocação da Artista excelsa.

E — depois dos maiores triunfos nas grandes cidades e cortes da Europa, de Lisboa a S. Petersburgo — morreu, segundo o desejo que manifestara, nos derradeiros dias, ao Padre Luís Rodrigues:
" Cheguei a suplicar a Deus que me desse vida e saúde, pois agora grandes coisas gostaria de fazer para Sua glória. Mas que merecimentos tenho eu, mulher como qualquer outra, para que o Senhor me distinguisse e em mim manifestasse o Seu poder? Não. Aceito a vida ou a morte, consoante Deus determinar". E, pelas onze horas da noite de 30 de Julho, o Padre Luís Rodrigues, seu confessor, a quem a doente pedira que não a abandonasse na hora extrema, ajoelhado à beira da sua cama, rezava-lhe as orações dos moribundos que ela atentamente seguia, no supremo esforço de deixar a terra e entrar, purificada, na Eternidade.
No quarto, como testemunhas mudas da tragédia sublime da libertação daquela alma, apenas Mrs Melville, que chegara de Londres nesse mesmo dia, chamada por um telegrama da doente, e a enfermeira inglesa, de joelhos também, subjugada pela grandeza do quadro que tinha diante dos olhos. E mal o sacerdote acabou de recitar as orações, Guilhermina Suggia expirou serenamente, entregando a alma a Deus que a fizera nascer Artista e seguir no mundo da Música uma trajectória de luz.

Prof Doutor Hernâni Monteiro – da Faculdade de Medicina do Porto
(Salão Nobre da Universidade- Homenagem à Memória de Guilhermina Suggia 25-11-1950)

Publicado por vm em outubro 22, 2004 12:00 AM
Comentários