outubro 25, 2004

CONCERTO DE APRESENTAÇÃO DA VIOLONCELISTA MARIA ALICE FERREIRA

Quem é esta Maria Alice Ferreira? – perguntava-se ontem, à noite, antes do concerto, nas salas, nos vestíbulos, nos corredores do Teatro Rivoli. E depois do Concerto, quando os quase 2 milhares que a tinham ouvido, deixavam os seus lugares, já não se perguntava: Quem é esta Maria Alice Ferreira? Já não se murmurava com ar de argumento que tudo justificava e explicava: “ Dizem que é filha do grande industrial Delfim Ferreira! Exclamava-se, assombrosamente, encantadoramente: “ É UMA GRANDE ARTISTA!”

Esta frase sintética, expressiva, lapidar, colhida em muitas centenas de bocas, em tantas bocas, por certo, quantas as pessoas que haviam assistido ao concerto, serve para aferir, grosso modo, a impressão do público.

Desconhecido, poucas horas antes (ou conhecido, apenas através das referências e dos anúncios nos jornais), o nome de Maria Alice Ferreira conquistara, efectuado o concerto, a celebridade a que todos os artistas, legitimamente aspiram e que só excepcionais circunstâncias lhes permitem, a maior parte das vezes, obter.

O grande e ilustre nome de Guilhermina Suggia, que havia naturalmente servido de reforço para a curiosidade dos musicólogos, saíra, na verdade, mais prestigiado ainda.
Da audição. A discípula em tudo e por tudo era digna da mestra. À coroa de glória desta somava-se, com o triunfo indiscutível daquela, mais um belíssimo florão. Note-se porém que esse triunfo indiscutível é principalmente, obra de Maria Alice Ferreira, da sua extraordinária personalidade artística, das suas qualidades assombrosas e concertista. A Mestra poliu, afeiçoou, integrou nos cânones da arte-ciência o temperamento de uma artista nata, que é, já, grande e será maior se porfiar, rumo ao futuro de glória que, desde ontem, ficou aberto diante dela. A mesma discípula metodizou, deu o inconfundível retoque a esse temperamento de excepção. E o resultado patenteou-se, ontem, de modo impressionante, a um público enorme e entusiasmado que, interrogando-se, duvidando talvez a princípio, encontrou a resposta mais rigorosa e se certificou, em absoluto, finda a audição, reconhecendo e proclamando, entre si, esse reconhecimento: “ Esta Maria Alice Ferreira, afinal, é uma grande artista!

Consola verificar, nestes tempos que não vão muito — diz-se e é, relativamente, certo — para as superiores manifestações do espírito, em geral. e da arte, em particular, que o público portuense sabe ainda, quando confia na qualidade dos artistas que vai ouvir ou ver, corresponder às iniciativas arrojadas.

O concerto de ontem e o de hoje podem ser considerados de muitos pontos de vista iniciativas arrojadas — e, também, meritórias. Trazer ao Porto pela segunda vez, nesta época, um conjunto instrumental da categoria da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional e apresentar uma instrumentista da categoria de Guilhermina Suggia não representam, decerto empreendimento fácil. Razão, pois, para que louvemos os organizadores destes dois concertos que se inserem no panorama musical da capital do Norte como eventos de importância excepcional.
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O Teatro Rivoli. já consagrado como recinto de concertos, que determinem afluência de grande público encheu-se. Da plateia à geral, toda a gente de algo da cidade — e de fora da cidade. As figuras mais categorizadas em todos os sectores da sociedade portuense. Dos meios artístico e cultural uma representação considerável. Toda a aristocracia da música. Numa frisa, acompanhando, com legítima ansiedade — mas também, com a segurança de quem confia em quem. sob a sua égide, se apresenta — Guilhermina Suggia. Todo o Porto do escol no “Rivoli” em suma. Ambiente de récita de gala. Muitas senhoras com vestidos sumptuosos e elegantíssimos. Casacas e smokings, dando ao vasto recinto aquele aspecto de bom gosto e de distinção que – diga-se a verdade – não é frequente nos nossos concertos e nos nossos espectáculos, mesmo quando são oficialmente de gala.

Às 22 horas, com todo o conjunto instrumental instalado, Pedro de Freitas Branco entra no palco. Afectuosamente, admirativamente, o público saúda-o com palmas. E o eminente Maestro, cujo triunfo, nos dois concertos recentes, foi tão notável, empunha a batuta. Faz-se absoluto silêncio. O concerto principia.

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A abertura de Rienzi, a cargo da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, provocou, como era de esperar, dadas as condições de agrado do empolgante trecho da obra perenal de Wagner, intensos aplausos. O concerto começara, auspiciosamente. Na sala. ampla, de linhas sóbrias e imponentes, ao mesmo tempo, a temperatura do interesse pela audição subia, a olhos vistos.
Um breve intervalo. E. gentilíssima, sorrindo, sem aquele enleio que perturba, muitas vezes, os concertistas — e, sobretudo os concertistas femininos — mais experimentados e mais atentos aos grandes auditórios, Maria Alice Ferreira, com o seu violoncelo, sobe ao estrado, um estrado que sugere um trono... Veste de branco. É como uma nuvem de arminho. As palmas crepitam, por todo o recinto. Uma entrada verdadeiramente triunfal.
Pressente-se a curiosidade geral. Volta o silêncio. E o braço ondulante da violoncelista desenha a primeira arcada.
O Concerto em ré menor de Lalo, obra de grande classe, é o primeiro número para violoncelo e orquestra. Quando as ultimas notas do Prelude vibraram, o auditório manifestou-se. entusiasticamente, aplaudindo a concertista, 15 anos que esplendem, precocemente, transformando em mulher quem é quase criança pela idade.
Depois, o Intermezzo e o final. E o alento da violoncelista, se não encontrara, ainda, o género em que pudesse expandir-se, manifesta-se, exuberantemente, nas três partes da obra admirável do mestre glorioso do Roi d'Ys. Ao findar o Concerto, os aplausos estrondearam, com maior intensidade. A juvenil Maria Alice recebia palmas de admiração pelo seu talento de executante e intérprete e de carinho peta sua figura encantadora.
Na segunda parte, consagrada, exclusivamente, a Maria Alice Ferreira, acompanhada por sua própria irmã, Maria de Lourdes Ferreira, pianista de muito merecimento, firme e expressiva na difícil missão de acompanhar, pudemos avaliar melhor, porventura, as qualidades da violoncelista estreante.
A formosa Ária do Orfeu, de Gluck. o conhecido Rondo, de Boccherini, o admirado Aprés un rêve, de Fauré. e esse graciosíssimo Spinnlied, de Popper, permitiram observar, em todas as suas facetas, as faculdades artísticas da concertista. O vigor dramático da página de Gluck e a elegância palaciana da página de Boccherini. o romantismo perturbador da peçazinha de Fauré e a graça descritiva, perfeito desenho de lindos arabescos que é a obrazinha requintadamente violoncelística de Popper foram expressos, por Maria Alice Ferreira, de modo a justificar o entusiasmo ruidoso do auditório. Se tudo, igualmente. nos agradou, queremos destacar o ultimo numero da segunda parte, apresentado, impecavelmente, encantadoramente, pela concertista.
Fora do programa, correspondendo aos aplauso; vibrantissimos com que o
publico premiava a audição. Maria Alice Ferreira brindou os seus ouvintes
com a castíza. e conhecida Jóta de Manuel de Falla.
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Tocada a peçazinha de Popper, foram depostas no palco, enchendo todo o proscénio, dezenas — dezenas! note-se bem — de lindíssimas corbelhas com flores naturais. No meio delas emergindo como uma grande camélia vaporosa, o busto da homenageada sobressaía mais. Os aplausos transcenderam, então, a apoteose.

Chamada, insistentemente, de todos os sectores do recinto enorme Guilhermina Suggia, que tinha a seu lado seu marido, o sr. dr. Carteado Mena, Mestre Teixeira Lopes e miss Tait, ergueu--se para agradecer, E agradeceu, — via-o quem a olhava — emocionada. Os aplausos, palmas fortes, que pareciam reforçar à medida que a discípula e a professora as agradeciam, envolviam, por igual, Maria Alice Ferreira e Guilhermina Suggia. O triunfo que se assim se assinalava era, também, para quem, com as suas lições, havia preparado a concertista daquela noite memorável
Maria de Lourdes Ferreira, modestíssima, esquivando-se aos aplausos, teve, também, o merecido quinhão do agrado do publico. É uma pianista com qualidades para brilhar.

A abrir a terceira parte, Pedro de Freitas Branco, comparticipa, também, naquele êxito grandioso, anunciou que, para se associar, mais ainda, ao significado daquela festa inesquecível, a Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional ia tocar as Danças guerreiras do príncipe Igor, de Borodine. E, maravilhosamente, o seu grande conjunto instrumental tocou o trecho famoso do compositor russo, conquistando, também, aplausos trovejantes. Decididamente, o entusiasmo contagiara todo o auditório.

Em seguida, acompanhada pela orquestra. Maria Alice Ferreira fez-se ouvir, sucessivamente, no delicioso Allegro apassionato, de Saint-Saëns, no religioso Kol Nidrei, de Max Bruch, e na movimentada Tarantella, de Popper. Senhora absoluta de si. dominando-se e dominando o Instrumento. Maria Alice Ferreira terminou o seu concerto, não cessando de encantar quantos a escutavam. Todos os números da terceira e ultima parte do programa foram aplaudidos com extraordinária vibração. O último, porém, valeu-lhe uma ovação formidável»
Gentil para com quem lhe manifestava tão positivo agrado, a juvenil violoncelista tocou, ainda, acompanhada pela Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, "A abelha", de Schubert, obrazinha interessantíssima, que o auditório aplaudiu, também, entusiasticamente.
Fraseando e dizendo de modo que aponta a verdadeira artista. Maria Alice Ferreira afirmou-se executante e intérprete admirável de todos os autores com que se apresentou no seu concerto te estreia. A sua musicalidade evidencia-se logo aos primeiros compassos. O som que arranca do violoncelo é volumoso. Com os anos adquirirá, sem dúvida, maior vigor ainda. Tal como está, tal como se apresentou, é — não receamos asseverá-lo — uma artista digna dos aplausos invulgares com que, ontem, foi distinguida. Os aplausos do publico são, também, os nossos. É com orgulho, legítimo orgulho, que vemos surgir, na nossa terra, já bem fadada para a música, uma artista como Maria Alice Ferreira. Junto dos nomes portuenses já coroados pelo prestígio, o desta novel instrumentista ficou, desde ontem, indelevelmente, assinalado.

Pedro de Freitas Branco, o eminente director da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, muito contribuiu, também, para a beleza e para a grandeza do espectáculo de ontem. À frente do seu admirável agrupamento, onde estão alguns doa melhores músicos de orquestra portugueses, foi tanto nos dois números a seu cargo como nos de acompanhamento, o maestro que tão admirado e aplaudido é. Mereceu bem as palmas fortíssimas com que o auditório o quis, prestando justiça, premiar.
No seu camarim, recheado de flores lindíssimas e lindíssimas prendas, Maria Alice Ferreira foi, nos intervalos e no fim da audição, cumprimentada e felicitada por centenas de pessoas que a haviam escutado e aplaudido.
A sua estreia caracterizou-se por um cunho inusitado de grandiosidade.
Para o público em geral foi uma radiosa surpresa.
Para nós — queremos acentuar — foi, na verdade, uma consoladora confirmação de valores.

O COMÉRCIO DO PORTO, 5/5/1937

Publicado por vm em outubro 25, 2004 12:00 AM
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