Im wunderschõnen Monat Mai — No Rivoli: uma apresentação e uma apoteose — Recordando noites de beleza — Discípula e Mestra — De novo Freitas Branco e a sua Orquestra
—- Maria Alice Ferreira — A sua aparição — Uma noite que é uma alvorada — Guilhermina Suggia — Momentos eternos
— A Artista, o seu génio e a multidão — A maior e mais
bela das lápides comemorativas
Nos primeiros dias de Maio – “im wunderschönen Monat Mai” como nos disse o grande poeta do Intermezzo – deram-se nesta cidade dois acontecimentos musicais, que não devem passar sem referência nestas crónicas: uma apresentação e uma apoteose.
A apresentação, que era para muitos uma promessa, volveu-se para todos em certeza. Enchera-se de ouvintes o mais vasto Teatro do Porto, o Rivoli. Para lá convergiram, no começo da noite de 4, centenas e centenas de pessoas. De tudo devia haver nessa multidão heterogénea, que quase às ondas, ia enchendo a sala: curiosos, incrédulos e crentes.
Entretanto, fora, continuavam a rodar os automóveis, que depois se espraiavam, tomando posição nas imediações do Teatro. A Grande Orquestra da Emissora Nacional, que dias antes nos deslumbrara, abre com o “Rienzi”, um prólogo entusiástico a essa noite de arte.
Freitas Branco é aclamado à frente da sua esplêndida “cohorte” A sala tem já uma disposição magnífica. A Atenção redobra de intensidade.
Sente-se que passa no ar uma convergência simultânea de olhares e de espíritos. Nisto a orquestra levanta-se e abre caminho a uma alvura que se adianta até ao lugar que lhe é destinado.
Projectando-se no fundo preto dos fatos dos instrumentistas, lembra qualquer coisa de matinal, um sorriso de luz. Era a concertista dessa noite, Maria Alice Ferreira. O público recebe-a “fidalgamente”. As palmas, em aclamação, sucedem-se aos números do programa, cumprido rigorosamente.
A concertista - assim devemos chamar-lhe, atenta a importância da prova a que se submete – põe em evidência a indubitável qualidade de mérito que lhe dão todo o direito às honras duma plateia culta e justa.
Qualidade e quantidade de som, afinação, segurança, largueza de arcada e inteligência de fraseio, o que, tudo junto, dá esta soma – o talento. Será isto dizer que tem tudo feito?
Não. A sua própria inteligência lhe dirá que pôs pé firme no começo duma carreira que vai a subir.
Mal iria o artista que se supusesse ter atingido definitivamente o seu alvo: teria assistido ao seu próprio fim.
A vida alimenta-se de sonho; e a arte, que é a sua intérprete fiel, não pode deixar de sonhar também, ascendendo sempre de aspiração em aspiração. Foi muito, foi muitíssimo o que fez nessa noite; mas agora olhar ao alto.
Possa o eco das aclamações ferventes, que ouviu, e o perfume das flores inúmeras que recebeu transformar-se num estímulo cada vez mais vivo e apontar-lhe sempre a estrada radiosa, mas difícil, aberta às suas privilegiadas qualidades e por onde a conduz a mão segura da sua gloriosíssima e inigualável Mestra.
Nos acompanhamentos, é de justiça registar o quinhão de elogio que cabe à orquestra e à pianista Maria de Lourdes Ferreira, gentilíssima irmã da concertista, pelo talento com que os realizaram. Noite admirável, que nos fica simbolicamente a rescender a flores! Noite de Primavera e Primavera da Alma!
E agora Suggia ! Será possível, porventura, exprimir, comunicar por palavras pautadas e sujeitas a regras estabelecidas, toda essa desordem íntima, toda essa alucinação de visionar mundos, todo esse dinamismo irresistível, que, minuto a minuto nos convulsionava fundamente até às origens do nosso ser? Não: Traços largos. Uma estátua...quando destinada à luz forte do dia, deve ser rebatida em planos incisivos e grandes.
Nessa. noite, Suggia afigurava-se-me uma nobre visão da estatuária antiga. Não uma figura de hoje, mas, superior ao tempo, de todos os tempos — uma encarnação misteriosa do que há de eterno na vida. Trajando de preto, teve, a meu ver, uma ideia felicíssima. O vestido dava-lhe um hieratismo, ao mesmo tempo, solene e estranho.
Intérprete poderosa da alma humana, ela realizava perturbadoramente a protagonista do drama intenso da vida, tão cheio e alternado de êxtases e de angústias !
Pesa na sala um silêncio concentrado, absorvente, depois das palmas vibrantes que a saudaram.
Aguarda-se com ânsia a primeira arcada. Ei-la! E a atmosfera carrega-se de electricidade que, de quando em quando, à medida que a audição prossegue, reboa em descargas atroadoras. Sucedem-se o sábio Tartini, Sammartini, Dvorak... Paremos...
Se tudo na noite foi grande, o Concerto de Dvorak deve, no entanto destacar-se pela vastidão da obra e pelas culminâncias atingidas pela artista. Nos seus três tempos, esta composição dá-nos um trítico empolgante, em que passam todas as emoções, desde o lirismo simples ou amoroso às fremências épicas dum apelo de levante..
Há passagens que não se ouvem sem um calafrio na espinha dorsal. A artista domina-nos absolutamente: tem-nos nas mãos. À Orquestra secunda-a à altura das suas responsabilidades, sob a batuta sugestiva de Pedro de Freitas Branco.
Depois disto que dizer? Não façamos enumerações.
Fiquemo-nos a escutar, a escutar ainda e sempre os ecos que guardaremos na alma. O concerto decorre num crescendo formidável.
De arte? Não seria possível! Por tão alto pairava a eminentíssima artista!
Mas de arrebatamento. Esgotado o programa, há extras. E, ouvidos os extras, há gritos, bravos, palmas, num esquecimento, num desprezo magnífico da hora que avança!
Tinha porém de findar o encantamento. E findou? Não. Saímos. Lá dentro ficou uma lápide marcando a oiro, a noite que passava.
Mas a verdadeira lápide comemorativa inscreveu-a a artista insigníssima, a golpes de génio, na lembrança imperecível da multidão imensa que, de pé e olhos marejados, arremessava aos pés de SUGGIA, a sua alma agradecida e louca de comoção.
PORTO, 13/V/1937
(O COMÉRCIO DO PORTO 14/5/37)