novembro 02, 2004

DON QUIXOTE DE LA MANCHA- UMA OBRA-PRIMA ESPANHOLA

DON QUIXOTE DE LA MANCHA

Uma obra-prima espanhola (por GUILHERMINA SUGGIA)

(Madame Suggia não necessita de introduções para o público. É conhecida como uma das maiores violoncelistas vivas – provavelmente a maior de todas. Madame Suggia foi recentemente condecorada no seu país com a Ordem de San Thiago de Espada, pelos serviços prestados à música e pela forma como levou o nome de Portugal a todos os países amantes de música. É uma excepcional honra, muito raramente dada a uma mulher.)

É um pouco tarde, reconheçamos, para pretender impor uma nova coroa de louros ao maior escritor de Espanha – sobre o “Don Quixote” foi já dita a última palavra. O grande contemporâneo de Shakespeare figura desde há muito entre as grandes personalidades universais – não há país que lhe não tenha prestado homenagem, nenhuma literatura poderá considerar-se completa sem uma tradução do seu livro.

Contudo, segundo Francisco Rodríguez Marin, cuja excelente edição (1911) de Cervantes tenho ante mim, o “Don Quixote” é pouco lido, mesmo em Espanha. Quanto a obras como “La Galatea” ou “Persiles” e “Sigismunda”, de menor importância mas de grande valor literário, raros são aqueles que as lêem – mesmo tendo por autor Cervantes!
Quantas pessoas, inclusive “literatos”, leram realmente o “Don Quixote” até ao fim? Ao dizer que o leu, a maioria mente, não ousa confessar que o não leu; e esta mentira inocente é, afinal, um grande tributo prestado a Cervantes. DE que outro livro se poderá dizer o mesmo? Foram muitos os que o começaram a lê-lo, mas o abandonaram antes do final da primeira parte; consideram-no uma obra “antiquada” ou são incapazes de aprender a sua delicadeza e a sua beleza e de compreender a graça e o humor dos “chistes” andaluzes.

RISO E LÁGRIMAS
O “Don Quixote” não é um livro fácil. É um colossal monumento. Intimida, mais do que convida à leitura. Foi esta a minha experiência. Amei o livro muitos anos antes de o ler, com o sentimento que sempre me toma perante uma grande obra-prima: receio de a abordar por puro respeito e devoção. E, no entanto, desde a infância que o “Don Quixote” me fôra apresentado como uma das obras cimeiras da literatura universal.
Li o livro várias vezes, em espanhol; e foi como se tivesse lido metade da literatura mundial. Não sei se alguma vez quererei ler outro livro ou se não preferirei voltar sempre ao “Don Quixote”.
“Don Quixote” é habitualmente considerado um livro cómico; na verdade, embora a sua leitura, sobretudo a da segunda parte, nos possa fazer rir, e a da primeira parte nos suscite o sorriso e as lágrimas, trata-se de um livro profundamente filosófico e simbólico.
“É um tesouro inesgotável de descrições e de imaginação”, escreveu o famoso José Gallardo em 1835. “Ainda que Cervantes não tivesse escrito mais do que os versos que o infeliz pastor Crisóstomo dedica a Marcela, por cujo amor morre, ou as palavras ditas no funeral do pastor pelos amigos, que atribuem à amada a responsabilidade pela morte e a consideram cruel e ingrata, ou as mensagens de Dom Quixote à sua Dulcinea, ou os conselhos dados a Sancho Pança ao aceitar este o cargo de governador da ilha de Barataria, a sua imortalidade estaria garantida”.

SANCHO O TAGARELA
Na segunda parte do livro – mais apurada e de maior coesão que a primeira - , Sancho é impagável na sua argumentação e divertidíssimo com os seus provérbios. No início das suas deambulações, Dom Quixote proibira o escudeiro de lhe dirigir a palavra e durante muitos dias e noites ambos vagueiam em silêncio pelos bosques, levando Sancho à beira das lágrimas.
Para Sancho, guardar o silêncio por um breve momento que seja é uma tortura; e quando o seu amo lhe permite falar livremente não sabemos o que mais admirar, se os conselhos claros e avisados de Dom Quixote, se a perspicácia e simplicidade de Sancho. É divertido seguir a evolução de Sancho Pança desde os primeiros dias. No início, é um homem rude que mal sabe falar e que o leitor imagina intelectualmente ao nível do seu “ruço”, um simplório ambicioso mas de bom feitio, a antítese de Dom Quixote. Depois, em contacto com o espírito esclarecido e o trato e discurso refinados de seu amo, melhora a sua educação. Por fim, torna-se tão loquaz e interveniente, que acabamos por nos perguntar se ele não é afinal o mais desequilibrado dos dois.
A diferença está, contudo, em que Dom Quixote acredita em todas as fantasias, encantamentos e fenómenos de magia, mas sempre em associação com o espírito de cavalaria; no resto, é perfeitamente normal. Ao passo que Sancho, mesmo acreditando, no seu subconsciente, em alguns destes fenómenos fantásticos, sabe que, no fundo, não são mais do que produtos da imaginação.
Prova disto é o diálogo que Sancho trava com o escudeiro do Cavaleiro dos Espelhos e o que diz ao montar, com o seu amo, o cavalo de madeira de Malanbruno, Clavilenho, para a cavalgada aérea (uma das muitas partidas forjadas pelos duques para se divertirem).

A PAR DE SHAKESPEARE
Não é fácil encontrar o tipo de Dom Quixote nos dias de hoje: o antigo, o verdadeiro espírito de cavalaria está em processo rápido de extinção.
Quanto à sua loucura podemos perguntar-nos se existe algum ser humano, por mais altas que sejam as suas qualidades de inteligência e sensibilidade, que não tenha uma parte de loucura. Quixote, esse homem ridículo, era um grande senhor, generoso, magnânimo e corajoso. E morreu com plena lucidez, devoção religiosa e afecto pelos outros. Não é injusto rirmo-nos deste homem?
Segundo Angel Salcedo, “Don Quixote” é uma obra de piedade e amor que nos reconcilia com o género humano, ensinando-nos que nos devemos perdoar as fraquezas da nossa natureza e que, ao rirmo-nos dos outros, por mais loucos que nos pareçam, estamos a rir-nos de nós mesmos.
Em carta a Schiller, Goethe referiu a obra de Cervantes como um tesouro maravilhoso e uma lição de verdade. Fitzmaurice-Kelly afirma que a obra de Cervantes é “ouro puro”. Se Shakespeare escreveu “Hamlet” – o “Hamlet” -, Cervantes escreveu “ Don Quixote” – na verdade dois “Don Quixotes”. Facto sem paralelo na literatura.
O primeiro autor foi o maior dos dramaturgos; o segundo, o primeiro dos romancistas. E ambos devem a uma só obra a sua fama universal.

GUILHERMINA SUGGIA

(In John O’London’s Weekly, 23 de Fevereiro de 1924)
Tradução de Luís Castanheira Lopes
Texto cedido por Isabel Millet

Publicado por vm em novembro 2, 2004 11:20 AM
Comentários

E pensar que Guilhermina, aqui, ainda não tinha quarenta anos!
Este artigo revela uma invulgar maturidade, um profundo conhecimento do mundo e da alma humana, além de uma clareza na exposição, e de um espírito didáctico digno dos melhores professores de literaturas comparadas.
Se ainda não tem um doutoramento “Honoris Causa”, pela Universidade do Porto (para mais, sua cidade natal) como teve Xanana Gusmão – que sabe levar-nos, pela mão, ao mundo mágico da sua poesia, simples como as flores do campo – também ela o merecia: ela que sabia apresentar-nos, como guloseima ao alcance de todos, aquilo que estamos habituados a julgar complicado e distante. Levou-nos a conhecer e a amar o que bem conhecia e muito amava. É assim o verdadeiro mestre!

Afixado por: Ana Maria Costa em novembro 2, 2004 05:42 PM

adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Afixado por: Hector em novembro 9, 2004 03:57 PM

adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Afixado por: Hector em novembro 9, 2004 03:58 PM