DON QUIXOTE DE LA MANCHA
Uma obra-prima espanhola (por GUILHERMINA SUGGIA)
(Madame Suggia não necessita de introduções para o público. É conhecida como uma das maiores violoncelistas vivas – provavelmente a maior de todas. Madame Suggia foi recentemente condecorada no seu país com a Ordem de San Thiago de Espada, pelos serviços prestados à música e pela forma como levou o nome de Portugal a todos os países amantes de música. É uma excepcional honra, muito raramente dada a uma mulher.)
É um pouco tarde, reconheçamos, para pretender impor uma nova coroa de louros ao maior escritor de Espanha – sobre o “Don Quixote” foi já dita a última palavra. O grande contemporâneo de Shakespeare figura desde há muito entre as grandes personalidades universais – não há país que lhe não tenha prestado homenagem, nenhuma literatura poderá considerar-se completa sem uma tradução do seu livro.
Contudo, segundo Francisco Rodríguez Marin, cuja excelente edição (1911) de Cervantes tenho ante mim, o “Don Quixote” é pouco lido, mesmo em Espanha. Quanto a obras como “La Galatea” ou “Persiles” e “Sigismunda”, de menor importância mas de grande valor literário, raros são aqueles que as lêem – mesmo tendo por autor Cervantes!
Quantas pessoas, inclusive “literatos”, leram realmente o “Don Quixote” até ao fim? Ao dizer que o leu, a maioria mente, não ousa confessar que o não leu; e esta mentira inocente é, afinal, um grande tributo prestado a Cervantes. DE que outro livro se poderá dizer o mesmo? Foram muitos os que o começaram a lê-lo, mas o abandonaram antes do final da primeira parte; consideram-no uma obra “antiquada” ou são incapazes de aprender a sua delicadeza e a sua beleza e de compreender a graça e o humor dos “chistes” andaluzes.
RISO E LÁGRIMAS
O “Don Quixote” não é um livro fácil. É um colossal monumento. Intimida, mais do que convida à leitura. Foi esta a minha experiência. Amei o livro muitos anos antes de o ler, com o sentimento que sempre me toma perante uma grande obra-prima: receio de a abordar por puro respeito e devoção. E, no entanto, desde a infância que o “Don Quixote” me fôra apresentado como uma das obras cimeiras da literatura universal.
Li o livro várias vezes, em espanhol; e foi como se tivesse lido metade da literatura mundial. Não sei se alguma vez quererei ler outro livro ou se não preferirei voltar sempre ao “Don Quixote”.
“Don Quixote” é habitualmente considerado um livro cómico; na verdade, embora a sua leitura, sobretudo a da segunda parte, nos possa fazer rir, e a da primeira parte nos suscite o sorriso e as lágrimas, trata-se de um livro profundamente filosófico e simbólico.
“É um tesouro inesgotável de descrições e de imaginação”, escreveu o famoso José Gallardo em 1835. “Ainda que Cervantes não tivesse escrito mais do que os versos que o infeliz pastor Crisóstomo dedica a Marcela, por cujo amor morre, ou as palavras ditas no funeral do pastor pelos amigos, que atribuem à amada a responsabilidade pela morte e a consideram cruel e ingrata, ou as mensagens de Dom Quixote à sua Dulcinea, ou os conselhos dados a Sancho Pança ao aceitar este o cargo de governador da ilha de Barataria, a sua imortalidade estaria garantida”.
SANCHO O TAGARELA
Na segunda parte do livro – mais apurada e de maior coesão que a primeira - , Sancho é impagável na sua argumentação e divertidíssimo com os seus provérbios. No início das suas deambulações, Dom Quixote proibira o escudeiro de lhe dirigir a palavra e durante muitos dias e noites ambos vagueiam em silêncio pelos bosques, levando Sancho à beira das lágrimas.
Para Sancho, guardar o silêncio por um breve momento que seja é uma tortura; e quando o seu amo lhe permite falar livremente não sabemos o que mais admirar, se os conselhos claros e avisados de Dom Quixote, se a perspicácia e simplicidade de Sancho. É divertido seguir a evolução de Sancho Pança desde os primeiros dias. No início, é um homem rude que mal sabe falar e que o leitor imagina intelectualmente ao nível do seu “ruço”, um simplório ambicioso mas de bom feitio, a antítese de Dom Quixote. Depois, em contacto com o espírito esclarecido e o trato e discurso refinados de seu amo, melhora a sua educação. Por fim, torna-se tão loquaz e interveniente, que acabamos por nos perguntar se ele não é afinal o mais desequilibrado dos dois.
A diferença está, contudo, em que Dom Quixote acredita em todas as fantasias, encantamentos e fenómenos de magia, mas sempre em associação com o espírito de cavalaria; no resto, é perfeitamente normal. Ao passo que Sancho, mesmo acreditando, no seu subconsciente, em alguns destes fenómenos fantásticos, sabe que, no fundo, não são mais do que produtos da imaginação.
Prova disto é o diálogo que Sancho trava com o escudeiro do Cavaleiro dos Espelhos e o que diz ao montar, com o seu amo, o cavalo de madeira de Malanbruno, Clavilenho, para a cavalgada aérea (uma das muitas partidas forjadas pelos duques para se divertirem).
A PAR DE SHAKESPEARE
Não é fácil encontrar o tipo de Dom Quixote nos dias de hoje: o antigo, o verdadeiro espírito de cavalaria está em processo rápido de extinção.
Quanto à sua loucura podemos perguntar-nos se existe algum ser humano, por mais altas que sejam as suas qualidades de inteligência e sensibilidade, que não tenha uma parte de loucura. Quixote, esse homem ridículo, era um grande senhor, generoso, magnânimo e corajoso. E morreu com plena lucidez, devoção religiosa e afecto pelos outros. Não é injusto rirmo-nos deste homem?
Segundo Angel Salcedo, “Don Quixote” é uma obra de piedade e amor que nos reconcilia com o género humano, ensinando-nos que nos devemos perdoar as fraquezas da nossa natureza e que, ao rirmo-nos dos outros, por mais loucos que nos pareçam, estamos a rir-nos de nós mesmos.
Em carta a Schiller, Goethe referiu a obra de Cervantes como um tesouro maravilhoso e uma lição de verdade. Fitzmaurice-Kelly afirma que a obra de Cervantes é “ouro puro”. Se Shakespeare escreveu “Hamlet” – o “Hamlet” -, Cervantes escreveu “ Don Quixote” – na verdade dois “Don Quixotes”. Facto sem paralelo na literatura.
O primeiro autor foi o maior dos dramaturgos; o segundo, o primeiro dos romancistas. E ambos devem a uma só obra a sua fama universal.
GUILHERMINA SUGGIA
(In John O’London’s Weekly, 23 de Fevereiro de 1924)
Tradução de Luís Castanheira Lopes
Texto cedido por Isabel Millet
E pensar que Guilhermina, aqui, ainda não tinha quarenta anos!
Este artigo revela uma invulgar maturidade, um profundo conhecimento do mundo e da alma humana, além de uma clareza na exposição, e de um espírito didáctico digno dos melhores professores de literaturas comparadas.
Se ainda não tem um doutoramento “Honoris Causa”, pela Universidade do Porto (para mais, sua cidade natal) como teve Xanana Gusmão – que sabe levar-nos, pela mão, ao mundo mágico da sua poesia, simples como as flores do campo – também ela o merecia: ela que sabia apresentar-nos, como guloseima ao alcance de todos, aquilo que estamos habituados a julgar complicado e distante. Levou-nos a conhecer e a amar o que bem conhecia e muito amava. É assim o verdadeiro mestre!
adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Afixado por: Hector em novembro 9, 2004 03:57 PMadorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Afixado por: Hector em novembro 9, 2004 03:58 PM