novembro 05, 2004

CRÍTICA A CONCERTO COM MARIA ALICE FERREIRA NO TEATRO RIVOLI, EM 4 DE MAIO de 1937

Uma noite de vibrante arte, decorrida em ambiente de palpitante interesse, a de ontem, no Teatro Rivoli, para audição da grande Orquestra Sinfónica da E.N. com a colaboração de uma nova e insinuante figura de artista, M.elle Maria Alice Ferreira.

A abrir o concerto, o conjunto orquestral executou essa vulgarizada abertura de Wagner – Rienzi – em que, num apreciável equilíbrio de naipes, evidenciou ampla sonoridade. Pedro de Freitas Branco conduziu essa harmoniosa composição com vigor.
A seguir – o atractivo da noite – a apresentação pela primeira vez em público, como concertista, de M.elle Maria Alice Ferreira, que actuou com os professores da orquestra.
Figura insinuante, consciente da sua personalidade, M.elle Maria Alice Ferreira tem uma apresentação distinta, enfrentando o público – a vasta sala do Rivoli estava cheia! – com toda a serenidade, com a tranquilidade que só se adquire ao longo de um largo treino artístico.
A peça de concerto que lhe coube foi o “Concerto, em ré menor” de Edouard Lalo – composição eriçada de dificuldade de interpretação. A jovem concertista – quinze anos floridos de graciosidade e inteligência – demonstrou logo, no prelúdio, a sua forma primorosa de tocar. Magnífica posição, atitude levemente decorativa e uma expressão nítida de quem vibra com as harmonias musicais. Arcada elegante, larga, simultaneamente rigorosa e delicada, arrancando o som com leveza e agilidade.
O “intermezzo” e os três andamentos do “final” foram executados com segurança, brilho e vivacidade.
Estava submetida ao juízo do público – assistência de “escol” – a jovem artista, que logo firmara, num domínio absoluto, os seus créditos, conquistando, sem favor, os aplausos, que foram demorados e carinhosos.
A segunda parte do programa coube à distinta concertista e a sua irmã M.elle Maria de Lourdes Ferreira, que a acompanhou ao piano.
Dotada de uma memória invulgar – executou todas as obras a seu cargo sem partitura – M.elle Maria Alice Ferreira, interpretou um trecho da ópera “Orfeu” de Gluck, com magnífico som. O mimoso “Rondo” de Boccherini foi realçado com nuances de efeito. “Aprés un rêve” de Fauré, demonstrou colorido e sugestiva poesia. O trecho de David Popper, “Spinnlied”, no movimento da sua composição, extraordinária agilidade na concertista. Muitos aplausos coroaram a segunda parte do programa, de tal forma que, M.elle Maria Alice Ferreira teve de executar em extra, novo trecho.
A abrir a terceira parte do programa o maestro Pedro de Freitas Branco, anunciou que a orquestra, grata ao público do Porto pelo seu carinhoso acolhimento, ia executar “As danças do Príncipe Igor”.
De facto, essa exuberante página, rica de efeitos, de Borodine, foi realçada pela orquestra brilhantemente.
Novamente M.elle Maria Alice Ferreira, com a colaboração da orquestra, em boa unidade, e sob a direcção de Pedro de Freitas Branco, atacou o “Allegro Apassionato” de Saint-Saëns. A jovem concertista acentuou a sua técnica num domínio invulgar, raro, sobretudo na sua idade. Empolgou, especialmente a assistência na execução de “Kol Nidrei” do compositor alemão Max Bruch. Evidenciou colorido e aliciante emoção. A célebre “Tarantelle” de Popper, obteve na arcada da concertista um apreciável relevo. Em extra, e para corresponder aos aplausos, a distinta artista fez-se ouvir na “Vespa” – composição do reportório das grandes violoncelistas – com toda a propriedade e realce de efeitos.
Uma grande noite para o público e para M.elle Maria Alice Ferreira que constituiu uma revelação, afirmando-se uma violoncelista de estilo, com personalidade, qualidades excepcionais da concertista em todas as suas modalidades. Magnífica, aplaudível, iniciativa a da sua apresentação em público que documentou com um valor incontestável na arte musical portuguesa. Registamos o acontecimento com satisfação. Foi muito aplaudida, aplausos de que compartilhou a sua professora, a grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA que, de um camarote, assistiu orgulhosa da sua obra, ao concerto.
M.elle Maria Alice Ferreira foi brindada com dezenas de “corbeilles” de preciosas flores e muito cumprimentada.
O maestro Pedro de Freitas Branco e os professores que o acompanharam foram distinguidos, também, com demorados aplausos.
A sala estava cheia, vendo-se nas várias lotações do teatro pessoas de representação social no nosso meio, a maior parte das quais em traje de concerto. O aspecto da sala produzia vistoso efeito. – M.F.

Hoje, às 21, 45, realiza-se o segundo e último concerto da Orquestra da Emissora Nacional, em que toma parte, numa preciosa colaboração, a grande violoncelista GUILHERMINA SUGGIA.
O nome prestigioso desta artista é garantia suficiente de interesse para o “escol” da sociedade portuense.

1º de JANEIRO- 5/5/1937

Publicado por vm em novembro 5, 2004 10:26 AM
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