Duas sumidades, que as glórias da música repercutem largamente, e cuja história de incandescentes triunfos, nos aponta os grandes privilégios do destino...uniram as suas Artes no 3º Concerto promovido pelo Círculo de Cultura Musical do Porto, que ontem à noite se solenizou no habitual Teatro Rivoli.
O majestoso e amplo recinto de espectáculos tornou-se restrito para conter todos aqueles que, movidos pela ânsia da forte emoção, que sempre provoca o aproximar dos entes extraordinários, se comprimiam, no intento de testemunhar tão grandioso acto! A figura esguia e nervosa do famoso maestro inglês surgiu em frente à Orquestra da Emissora Nacional, e desde logo o seu poder magnético se transmitiu sobre toda a massa instrumental e sobre o imenso auditório.
Malcolm Sargent, o célebre virtuoso da batuta, iniciara seu comando... e vitoriosamente soaram os primeiros acordes da “Sinfonia Londrina” de J. Ireland, obra modelar de estrutura e efeitos sonoros.
O inspirado maestro gesticula com distinção, verdadeiramente à maneira inglesa, porém seus nervos de artista, para o qual a centelha divina da Arte tudo faz adivinhar e sentir, impõe-se ao menor gesto que esboça, e seu olhar projecta mil estados de alma em apoteose, que com a maior maleabilidade se executam.
Assim ouvimos sob este domínio e primor de entendimento a peça inicial, e “Ouvindo o primeiro Cuco na Primavera” de Delius, composição de notável poesia e subtileza imaginativa.
Após umas pausas entra em cena GUILHERMINA SUGGIA, a sublime artista que colhe loiros com a mesma facilidade com que certamente colhe qualquer flor dum jardim! – Mais uma vez nos deu essa impressão ao prender a si o violoncelo, e incutindo-lhe tal vibração que ele canta extasiado e apaixonado todo o tempo que ela o quiser reter.
Ouvimo-la tocar o concerto de Dvorak, cujo tema heróico, inicial, se manifesta como uma ode à vida, à vitória e à Pátria que ele tanto amou, como Smetana, por sua vez, defendeu a música do seu país.
Colossal interpretação da grande solista...que numa ânsia crescente dialogava com a orquestra.
Na nostálgica frase do Adágio, ou no motivo marcial do 3º Andamento, por toda a obra, afinal inflamava-se o ardor, os sentimentos mais comovedores que num instrumento de arco se possa comunicar! No rosto tão expressivo da egrégia concertista perpassou tudo o que a alma criou.
Diremos também que o excelso maestro a acompanhou na intenção superiormente!
Palmas sem fim, ecoaram na sala, e quanta vez GUILHERMINA SUGGIA, teve de voltar à cena. Era só ainda o fim da primeira parte e uma fila de variadas cores de “bouquets” e corbelhas cercou a extraordinária “virtuose”.
Na segunda parte escutamos o concerto de Saint-Saëns, espirituoso e lucilante.
A graça expande-se por toda a partitura – e não compreendo como pode haver quem a ache inferior a outras...pois que o contraste que ela forma, é justamente o seu maior encanto; e desde que GUILHERMINA SUGGIA a interpreta, ela torna-se invulnerável.
Aclamações entusiásticas, delirantes reclamavam a artista que ao retirar-se do palco, levava consigo o arrebatamento e a fascinação de quantas almas a compreenderam. Diríamos quase uma luta insistente...querendo o público dominá-la por sua vez. Ilusão porém: GUILHERMINA SUGGIA não voltou com seu instrumento e no silêncio que se fez sentimos que só a sua ausência o provocara, desolado, como uma luz que ao sumir-se mais densas torna as trevas!
Continuou o concerto com mais uma obra do paisagista Delius “ O Jardim do Paraíso”, e por último, o bailado fantástico de Holst “ O Doido Varrido”. Obra interessantíssima e impressionante de ritmo e contrastes, lembrando-nos tecnicamente Falla.
O maestro obteve no final a mais eloquente manifestação do auditório, merecendo muito especial menção a grande Orquestra da Emissora Nacional, que tão brilhantemente cumpriu o seu dever.
Logo à noite, realizar-se-á o segundo concerto sinfónico, sob a direcção de Malcolm Sargent e o concurso de GUILHERMINA SUGGIA, em que se ouvirá entre outras obras o famoso concerto de Elgar e a 3ª Sinfonia de Brahms.
B. A. de S.
1º de JANEIRO, 28 de Janeiro de 1943