novembro 16, 2004

2ª APRESENTAÇÃO, CÍRCULO DE CULTURA MUSICAL DO PORTO, DE GUILHERMINA SUGGIA E MALCOLM SARGENT

Mais um memorável evento artístico coube ontem a esta importante colectividade cultural, ao efectuar-se um segundo concerto sinfónico sob a direcção do dr. Malcolm Sargent e o concurso valiosíssimo de GUILHERMINA SUGGIA, que se anunciou para os associados da série B.

Compôs-se este novo programa da célebre “Water Musik” de Händel, versão Harty, de precioso efeito orquestral, fazendo-nos desejar que num 3º concerto pudesse ouvir-se com tão exemplar regência, a Suite irmã da “Water-Musik”, intitulada “Fire-Musik” e também de renome.
Opôs-se-lhe o admirável concerto para violoncelo de Elgar, o reputado autor da cantata “Rei Olavo”, do oratório “Gerontius” que lhe valeu o doutorado “Honoris Causa” de Cambridge em 1900, e da Sinfonia em mi bemol, considerada uma das melhores depois das de Beethoven.

GUILHERMINA SUGGIA, a intérprete excepcional da obra, pois só ela a fez triunfar, no país do autor... dá-lhe uma soberba concepção! O trecho em si, tem inspiradas variantes rítmicas, subtilezas de modulação, uma sábia maneira de orquestrar, doseando a famosa partitura com interesse constante para os “audientes”, e realçando sempre a intervenção frequente do solista.
Sinteticamente, é uma obra profunda de sentido e emoção, com uma grande nobreza, nunca desprezando, no desenvolver do trecho, a estética, nem a tornando complexa como tanta vez deparamos em produções modernas.
Todas estas qualidades se tornam ampliadas desmesuradamente no contacto da ideal intérprete.

Que palavras poderiamos nós encontrar para traduzir a expressão dada ao 2º andamento?! Toda a nossa mágoa e insatisfação próprias mais provam afinal, quanto, foi maravilhosa a realização.
Os ouvintes escutam cada nota religiosamente e irrompem no final com uma interminável ovação, da qual participa o grande chefe da orquestra Malcolm Sargent. Ecoam bravos num crescendo electrizante... o estrado de cada vez mais florido dá-nos por momentos a ilusão de que os geniais artistas ascenderam a um estrado etéreo, tanto realçam o poder da sua Arte!

Pertenceu à 2ª parte do programa a célebre obra de Boëllmann “ Variações Sinfónicas” e a tão genial violoncelista arca as suas dificuldades com entusiasmo triunfal, reflectindo-o as suas atitudes com impressionante eloquência.
No acompanhamento de profusos contratempos o maestro Sargent deu a agilidade própria, manejando a batuta com volteios de “flecha”.

Os aplausos voltaram a homenagear GUILHERMINA SUGGIA, o auditório ergueu-se, a aclamá-la, prolongando-a o mais possível, e a magna artista mais uma vez teve a consciência de quanto vale a emoção que nos transporta e tanto faz esquecer!
Com pesar tivemos de compreender que o tempo prossegue e não pode perpetuar-se o “encantamento”.

Escutámos a seguir a 3ª Sinfonia de Brahms com os seus inúmeros episódios de transcendental beleza, principalmente no 1º e último andamentos, sempre nos Allegros, em que a energia se expande até à eclosão vitoriosa. Bem a propósito foi incluída esta Sinfonia de Brahms, pois era justamente o que Elgar citava como ponto culminante na literatura musical!
O último número do programa foi a abertura “ Cockaigne” de Elgar (de cockney – dialecto londrino) obra descritiva, bem pensada e com uma riqueza melódica deveras comunicativa, a par da bravura que arrebata porque é forte de inspiração. O grande regente teve o triunfo merecido e toda a orquestra participou da ovação. Dos aplausos da noite, grande parte foi-lhe também tributada com plena justiça.

Vieram expressamente assistir às memoráveis audições o ilustre presidente do Círculo de Cultura Musical de Lisboa e o sr Prof Varela Cid.

B. A. de S.

1º de JANEIRO- 29 de Janeiro de 1943

Publicado por vm em novembro 16, 2004 11:23 AM
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