Resumidamente, relatámos já, a homenagem prestada, no Teatro Rivoli, a Guilhermina Suggia. E acentuámos que essa homenagem, a que se associaram, entusiasticamente, quantos escutavam, nessa noite, a iminente violoncelista, tivera, sobretudo pela vibração dos aplausos, verdadeiro carácter de apoteose.
Finda a primeira parte do concerto, um concerto que ficou memorável a comissão organizadora daquele acto de consagração, constituída por algumas das pessoas mais categorizadas dos nossos meios social, cultural e artístico e pelos três críticos musicais da Imprensa diária portuense, convidou Guilhermina Suggia a ir ao palco, acompanhada por seu marido, o sr.dr. Carteado Mena, pelo regente da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, Maestro Pedro de Freitas Branco, e por todos os elementos daquele conjunto instrumental que tão notavelmente colaborou no concerto de Guilhermina Suggia e no da sua discípula Maria Alice Ferreira.
Em cena aberta, com o palco repleto de admiradores da gloriosa Artista, muitos dos quais, a quase totalidade, de casaca e smoking, o sr.dr. Joaquim Costa, ilustre escritor e director da Biblioteca Municipal do Porto, pronunciou, em nome dos promotores daquela homenagem, um breve e brilhante discurso de satisfação à homenageada, afirmando, com emoção que Guilhermina Suggia estava a receber ali, o preito dos que viam nela uma das mais altas encarnações da música, em Portugal, na Europa e no Mundo, o sr.dr. Joaquim Costa – de cujo elogio nos foi possível tomar uma única nota, limitando-nos a apontar o significado dalgumas das suas frases que conservamos na memória – declarou quanto se sentia honrado com a representação que lhe fora confiada, representação, na verdade, do escol da gente portuense.
Depois de, uma vez mais, ter ouvido o divino violoncelo de Guilhermina Suggia, não encontrava as palavras que, rigorosamente pudessem traduzir o seu pensamento e o seu sentimento em vibração intensa. Aquela homenagem constituía um acto de justiça, afinal, porque o génio da artista era digno da consagração pública prestada pelos seus admiradores.
Fazendo o elogio vibrante de Guilhermina Suggia, o maior elogio a que um artista pode aspirar, o orador evocou a forte ancestralidade musical da homenageada, acentuando bem, que no seu sangue, em que o elemento italiano e o elemento espanhol se misturavam, era o elemento português que predominava e mais ardentemente vibrava na inconfundível personalidade da concertista.
Integralmente Artista, Guilhermina Suggia – disse – possui a par de uma cultura musical invulgar, uma invulgar cultura literária. Adorando os poetas, tem junto de si – e nos seus versos houve muitas vezes, o alimento da sua extraordinária, da sua requintada sensibilidade artística – os poemas firmados por alguns dos maiores nomes, nomes imortais da Poesia, como Dante, como o nosso imortal Camões.
Razão á para que os portugueses, e em especial os portuenses se orgulhem de ter Guilhermina Suggia por compatriota e conterrânea. É que o nome da Artista figura, de há muito tempo, nos cartazes dos concertos dos grandes centros civilizados. E, embora o apelido não seja português, sabe-se que ela é portuguesa, é nossa!
Vibrante, depois de ter emoldurado a figura artística de Guilhermina Suggia com expressões do mais elevado e entusiástico encómio:
-Abençoada a terra que gerou esta Artista, glória do Porto e de Portugal!
Palmas intensas e prolongadas secundam as palavras do ilustre homem de letras, que a homenageada agradece, emocionada, com o olhar.
Em seguida, o sr. Dr. Joaquim Costa convida a juvenil e prodigiosa aluna de Guilhermina Suggia, Maria Alice Ferreira, a descerrar a placa de homenagem à gloriosa concertista, colocada numa das paredes da plateia, perto do palco. A placa, muito simples, contém apenas o nome da homenageada.
Sob aplausos trovejantes, Maria Alice Ferreira, que, finda a primeira parte do concerto, havia ido ao palco entregar à sua professora, a quem beijou na face, a primeira corbelha de flores, formosíssima, oferecida naquela noite de apoteose, puxou, rodeada por algumas das pessoas, que do palco haviam descido à plateia, o pano que velava a lápide. Entretanto, no palco, entre as corbelhas, todas lindas, que lhe rodeavam o estrado, Guilhermina Suggia curvava o busto elegante, agradecendo os aplausos, a homenagem, a apoteose.
Depois, pedindo silêncio falou. Duas palavras simples, timbradas por uma emoção profunda. Nada fizera para aquilo. Aquela consagração injustificada ficava-lhe na alma. Naquele momento nada mais podendo dizer, afirmava a todos, a todo o público que a aplaudia, a sua sincera gratidão.
Novas palmas retumbantes. No palco, sumptuoso, fulgurante, na plateia, nas frisas, nos camarotes, nos balcões, na geral, só se viam mãos erguidas, batendo palmas.
Manuel dos Santos, o activo e estimado gerente do Teatro Rivoli, em nome deste, e, em particular, do seu conhecido director, sr. Manuel José Pires Fernandes leu o Auto de Homenagem, assim redigido:
“ Aos cinco dias do mês de Maio de 1937, pelas vinte e três horas, na Sala e Espectáculos do Teatro Rivoli desta cidade do Porto, achando-se presente a Comissão de Homenagem à excelsa artista portuense Guilhermina Suggia, composta por Mestre António Teixeira Lopes, drs. Carlos Ramos, Carlos de Passos, Aarão de Lacerda, Alberto Brochado, Joaquim Costa, Frazão Nazaret, Joaquim de Freitas Gonçalves, António de Pinto Machado, Delfim Ferreira, Maria Alice Ferreira (Riba de Ave), Francisco Manuel Fernandes Borges, conde da Covilhã, Máximo de Carvalho, Juliano Ribeiro, Hugo Rocha, Henrique de Castro Lopes, Mário de Figueiredo, Eduardo dos Santos (Edurisa), Ernesto Viriato dos Passos, Ferreira da Silva e Artur Barbosa, comigo Manuel dos Santos, gerente do Teatro Rivoli, como representante do director Manuel José Pires Fernandes, que, por motivo de falta de saúde, não pode comparecer, reuniu perante a numerosa e distinta assistência desta memorável noite artística, a Sessão de Homenagem para o descerramento da lápide comemorativa da passagem da insigne violoncelista por esta casa de espectáculos. E, para constar, se lavrou o presente Auto que depois de lido por mim em voz alta, vai ser assinado por todos que nele intervieram e pela digna assistência que, deste modo, deseje prestar o devido preito a tão alta glória nacional.”
A leitura do Auto de Homenagem, feita em voz pausada e nítida, provocou, como é óbvio, aplausos estrondosos. Depois, dezenas de assinaturas cobriram as páginas do album luxuoso que o continha.
Entre muitas outras pessoas de categoria, que nos recordamos de ter visto no palco, registamos, além daquelas que o Auto menciona, como componentes da Comissão de Homenagem, os nomes do Prof Luiz Costa, do maestro Afonso Valentim, etc.
O sr. Dr. António de Oliveira, distinto professor do Liceu Alexandre Herculano, compôs um vibrante soneto em homenagem a Guilhermina Suggia, de que reproduzimos o terceto final:
Ao Porto só, compete em Portugal
Gravar em tipo de oiro colossal
O nome fulgurante de SUGGIA !
Este soneto, impresso, foi distribuído no teatro e entregue, autografado, à homenageada.
No concerto de Guilhermina Suggia, foram oferecidos lindos e valiosos bouquets e corbelhas. Eis os nomes dos respectivos oferentes:
-Miss Muriel Tait, Mlles Maria Alice Ferreira e Maria de Lourdes Ferreira, D Ernestina da Silva Monteiro e irmãs, D. Filomena Nogueira de Oliveira, D. Fernanda Van Zeller, D. Madalena Costa, Miss Finister, D. Maria Fernanda Borges, D. Maria Adelaide Freitas Gonçalves e prof Joaquim Freitas Gonçalves, Mrs Danvers, D. Isaura Pinheiro de Brito, Mr e Mrs Alexander, Gardénia, Mrs Glennie Rawes, Albino Guimarães, um grupo de 52 discípulas de M.lles Carolina, Ernestina e Maria José da Silva Monteiro.
Madalena Moreira de Sá e Costa, aluna já consagrada de Guilhermina Suggia, mandou-lhe ao palco, também, uma corbelha encantadora.
O COMÉRCIO DO PORTO, 7/5/1937