
É com o coração confrangido por vivissima dôr que vimos hoje depôr sobre o ataúde recémfechado de Antonio Lamas uma homenagem de sentida saudade e respeito. Saudade pelo amigo dedicado e querido, pelo infatigavel companheiro de tantas lutas e trabalhos: respeito e admiração pelo musico, tão despretensioso e honesto, que a nossa arte inesperadamente acaba de perder.
A morte repentina de Antonio Lamas produziu um commovido alvoroço no nosso meio musical; todos o estimavam, todos lhe haviam aquilatado os grandes dotes de coração, a inquebrantável bondade de alma, a rara modestia – e a par de tudo isso – incontestaveis qualidades de artista consciencioso, trabalhador e devotado, como nenhum, á sua arte predilecta.
Nós outros, que tanto privamos com o ilustre amador, não podemos ter hoje o espírito sufficientemente desanuveado para tentarmos, sequer, um esboço do que foi a sua vida de musico. Mal teremos a precisa calma para alinhavar umas notas despretenciosas, que poderão quando muito servir de ponto de partida para trabalho de maior fôlego e autoridade.
Desde muito novo se dedicou Antonio Lamas ao estudo do violino. Discipulo dilecto de Antonio Narciso Pitta (1835-1893), herdou-lhe, com muitas das suas qualidades tecnicas, esse retrahimento, essa modestia, esse horror pela grosse caisse, que constituiam o fundo essencial do caracter d’esse primoroso mestre. E se compararmos a physionomia moral do violino e da violeta, a esphera de acção de um e de outro instrumento, a psychologia especial de cada um d’elles e até as respectivas colorações do timbre, convencemo-nos facilmente que Antonio Lamas nasceu mais violetista que violinista. Já alguém o disse n’estas mesmas columnas com os seguintes termos: -Para traçar o perfil d’este sympathico vulto de amador-artista, tão justamente querido em todos os nossos centros d’arte, quasi seria preciso esboçar a monographia do doce e suggestivo instrumento que elle tão amorosamente cultiva – a violeta. Por arrojada que pareça esta confrontação do musico com o instrumento por ele executado, é certo que há no caso presente curiosas affinidades entre um e outro – a mesma tinta suave no carácter, a despretenção com que um e outro se esquivam a evidencias vistosas, a sisudez, a ductilidade, a nobreza levemente melancholica, que são outras tantas características do feitio moral e artístico do tocador e constituem egualmente a feição dominante do seu dilecto instrumento.”
Antonio Lamas tinha de ser portanto um tocadôr de violeta. Alguem lh’o fez notar, significando-lhe ao mesmo tempo que, bom violinista como era, lhe não seria difficil adquirir uma excellente technica na violeta, preenchendo assim uma lacuna que muito se fazia sentir no nosso paiz, onde eram e continuam a ser raros os bons violetistas de quarteto. Não hesitou o estudioso amador, tanto mais que, na creação da Sociedade de Musica de Câmara (1899), se notava a falta de um especialista, que de corpo e alma se votasse a esse instrumento.
A partir d’então, Antonio Lamas trabalha sem descanço, adequando em poucos annos as suas primorosas qualidades de tocador á nova technica e conseguindo verdadeiros triumphos não só na Sociedade de Musica de Câmara mas em outros grupos similares onde collaborou com algumas summidades da arte, entre ellas Rey Colaço, Arbós e Rubio.
Enthusiasta da musica antiga, movido por uma sadia curiosidade pela arte dos seculos XVII e XVIII, cujos segredos conscienciosamente procurou desvendar, não tardou que quizesse cultivar um dos instrumentos característicos d’essa epoca – a viola d’amôr. N’este poético instrumento d’arco, que a caprichosa moda banniu por completo da arte moderna, Antonio Lamas teve muitas occasiões de se fazer applaudir, quer como solista, quer na musica de conjuncto. Estão ainda na memoria de muitos as deliciosas audições historicas que, com instrumentos antigos, se realisaram em 1906 no Salão do Conservatorio. Foi elle um dos seus principaes promotores, collaborando tambem nos concertos ao lado de Louis Van Waefelghem, Georges Papin, Hernâni Braga e, para o canto, D. Bertha Daupias.
Muitas vezes se apresentou depois d’isso, em concertos particulares e publicos, como solista de viola d’amôr; muitas vezes o admiramos na famosa Sonata de Ariosti ou em alguns d’esses trechos pequenos, alguns de sua propria composição, em que tão distinctamente fazia valer a discreta e poetica sonoridade da velha viola. Hoje morreu o tocador e morreu tambem, entre nós, o instrumento, visto que elle era o unico portuguez que praticamente o conhecia.
Especialisando-se na musica dos seculos idos, colleccionando instrumentaes do passado, Antonio Lamas era naturalmente lembrado sempre que se pretendia organisar uma festa de caracter historico-musical. N’essas, entre nós, raras solemnidades de pura e requintada arte, elle tinha indicado o seu logar de consciencioso organizador, em festas memoraveis, como as que foram promovidas em tempos pelos srs. José Lino Júnior, dr. Alfredo da Cunha, dr. Lopes Vieira, etc.
Referimo-nos há pouco á colleção instrumental de Antonio Lamas. Ella é effectivamente bastante curiosa, e mesmo notavel no tocante aos cravos portuguezes, entre os quaes se distinguem algumas peças extremamente interessantes e raras. Antonio Lamas que consagrava á sua colleção um bem justifficado amor, dedicava longas horas á sua conservação e bom acondicionamento.
Terminando estas breves notas, diremos ainda que o nosso illustre amador havia sido nomeado há pouco mais de um mez para a cadeira que ficou vaga no Conselho d’Arte Musical pelo fallecimento de Ernesto Vieira. D’esse logar se desempenhou, durante esse curto período, com aquella devoção, seriedade e desinteresse que punha em todos os trabalhos d’arte.
Deixando-nos para sempre, Antonio Lamas, deixa no coração de todos os que de perto o conheceram uma marca indelevel de saudade e de desgosto.
Michel’Angelo Lambertini
A ARTE MUSICAL, Lisboa, 31 de Julho de 1915
Curiosamente António Lamas morreu em 30 de Julho de 1915. No mesmo dia morreu Suggia em 1950.
Afixado por: vm em novembro 22, 2004 10:49 AM