novembro 26, 2004

A IMPRESSÃO CAUSADA PELA MORTE DE GUILHERMINA SUGGIA, QUE AMANHÃ VAI A ENTERRAR

PORTO, 31—Embora a notícia da sua morte não surpreendesse, constituiu mostras de sentido pesar, pois desapareceu uma alta figura de renome internacional de que o Porto muito se orgulha de ter sido berço. Guilhermina Suggia não era uma figura muito popular, pois o povo não a conhecia, apesar de a cada passo com ele se confundisse por essas ruas. O seu meio ambiente era o da arte, e dos seus cultores ou apreciadores.

Há muitos anos que era raríssimo apresentar-se em publico, e quando o fazia, isso constituía espectáculo de alto valor, tal como foi a apresentação da sua aluna dilecta Maria Alice Ferreira (Riba d'Ave) realizada no Teatro Rivoli, em 4 de Maio de 1947 (1). O que sem exagero se pode classificar de acontecimento citadino. Além da apresentação da jovem violoncelista, o espectáculo . teve a colaboração da grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob a regência de Pedro de Freitas Branco.

O funeral da gloriosa Guilhermina Suggia, efectua-se amanhã, saindo o préstito da sua residência, na Rua da Alegria, 556 (2), para a igreja da Lapa, de onde ao meio-dia será rezada missa de corpo presente, efectuando-se depois o funeral para o cemitério de Agramonte, a cargo da casa Alberto Pereira Filhos.


Uma carreira fulgurante

Quando nasceu, trazia já no sangue todo o belo influxo de arte que havia de nortear-lhe o espírito. Vinha de uma família de artistas. Guilhermina Suggia era filha de Augusto Suggia, mestre de violoncelo, distinto, que no Porto conquistou um nome respeitável: Foi aí, nesse ambiente acolhedor e tão propício ás coisas do espírito, que desabrochou a pequenina Guilhermina. A casa de seu pai era um centro de vida musical que transbordava até ao lar de Gustavo Lehmano onde se reuniam o cantor Salvini, o nosso grande Viana da Mota, Moreira de Sá, o violoncelista Marques Pinto e muitos outros que nem por serem “estrelas” de menor fulgor, deixavam de enobrecer serões de arte de tamanha representação. Em 1893, tinha ela apenas cinco anos, visto que nascera a 27 de Junho de 1888 (3), já o pai a iniciava nos segredos da música, para dois anos mais tarde entusiasmar o público, tocando com tanta graça quanto intenção e inteligência. Mais tarde, os progressos da sua técnica e o desabrochar do seu estro musical abriram-lhe o verdadeiro caminho do virtuosismo. As estreitas paredes da grande casa lusitana já não chegavam para conter o mundo interior da sua alma de artista.

Partiu para Leipzig, com uma bolsa de estudo, concedida por D. Carlos, o rei artista tão inclinado sempre a estimular a arte dos portugueses. Foi Klengel o primeiro grande mestre de Guilhermina Suggia que, em breve, chamava a si as atenções da melhor sociedade musical alemã. A Leipzig, aos grandes concertos do Gewandhaus, acorriam o melhor público, os melhores críticos e os melhores músicos. Aí nascia o respeito dos grandes pela jovem intérprete, desta vez dirigida por Arthur Nikish, pianista, violoncelista e regente de Orquestra do Gewandhaus Ópera de Leipzig e da Orquestra Filarmónica de Berlim, nos anos áureos das suas primeiras peregrinações pela Europa.

Também Guilhermina Suggia iniciava então uma carreira triunfal através da Europa, tocando para os públicos mais requintados—para príncipes e reis, para os artistas mais exigentes. Em Inglaterra, porém, havia de se fixar o estro rutilante desta grande artista. As elites de Londres chamavam-na e acarinhavam-na, desde os tempos da primeira Grande Guerra, quando ela de violoncelo nos braços, acorria aos festivais, em beneíicio das vítimas das trincheiras e dos seus entes queridos. A rainha Alexandra assistia a esses concertos e, com ela, a duquesa de York e as princesas Helena Vitória e Cristina.
A universalidade desta ilustre artista que na história da música contemporânea portuguesa só teve par em mestre Viana da Mota, estava longe de ter atingido o verdadeiro diagrama da sua consagração. Muitos milhares de pessoas haviam ainda de vibrar sob o influxo das notas arrancadas ao seu violoncelo, arrebatá-la apoteoticamente dos camarins, conduzi-la, delirantemente, aos hotéis onde se hospedava, comportando-se, enfim, com ela, como grande e indiscutível artista que era. O seu primeiro concerto em Albert Hall data de 1932 e foi em beneficio dos músicos pobres ingleses. A rainha Mary e o rei Jorge V foram-lhe então apresentados e nunca mais o nome de Guilhermina Suggia se desusou das maiores noites musicais da corte inglesa. Outras vezes ali foi tocar e ainda agora a família real, num testemunho de admiração, exprimiu o seu interesse pela saúde da ilustre artista portuguesa que era, alem de artista, uma senhora. A Inglaterra, que a conquistara e consagrara, guardou-a em dois notáveis retratos, um que se admira no museu do palácio de Windsor, outro na Tate Gallery, também de Londres e assinado pelo famoso retratista Augusto Jhon.

Não obstante tantos e tão fundos vínculos, esta senhora de origem italiana ficou sempre portuguesa. E o seu coração ficou com um português, o dr. Carteado Mena, sábio que as investigações com os raios-X haviam de fazer mártir, já depois do casamento.
Morreu há cerca de um ano e, pode dizer-se, com a sua morte, Guilhermina Suggia, que não deixa filhos, sofreu a maior dor da sua vida. O seu lar revestia-se das cores solenes das grandes mansões de arte e de estudo e a harmonia era a voz mais alta daquelas duas vidas unidas por amor e em amor vividas.

Guilhermina Suggia, um espírito liberal que em muitos actos da sua vida profissional deixou expressos pontos de vista morais e ideológicos, além de outras condecorações, testemunhos nacionais e estrangeiros de admiração consagratóría, possuía a grã-cruz da Ordem de Cristo e a comenda da Ordem Militar de Sant'Iago.

O Porto, sua terra natal sempre lembrada, condecorou-a com a Medalha de Ouro da Cidade.

DIÁRIO DE LISBOA 31 de Julho de 1950


(1) O Concerto com a jovem discípula realizou-se no Teatro Rivoli em 4 de Maio de 1937 e não 1947 como é referido na notícia

(2) A sua residência foi na Rua da Alegria 665 e não 556

(3) Guilhermina Suggia nasceu em 27 de Junho de 1885 e não 1888

Publicado por vm em novembro 26, 2004 10:13 AM
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