dezembro 02, 2004

MORREU A GRANDE VIOLONCELISTA PORTUGUESA GUILHERMINA SUGGIA- JN 31-7-1950

Morreu Gulhermina Suggia. Embora esperada, a notícia não deixou de nos emocionar. É que desaparece alguém, uma artista eminente, uma grande figura cuja projecção ultrapassou este velho burgo que lhe foi berço, assim como o País, para irradiar pelo mundo fora – numa honrosa e justa consagração. Pelos seus méritos invulgares, esta mulher que nos maravilhava com os prodigiosos acordes que as suas mãos artistas exalavam do seu violoncelo mágico, pertencia por direito próprio à extirpe de um Pablo Casals.

Guilhermina Suggia nasceu com o génio do violoncelo. Filha dum Artista, cresceu num ambiente em que a grande música dominava. A sua tendência musical revelou-se era ela ainda uma menina de palmo e meio. Teve no pai o seu primeiro mestre. E aos 7 anos enfrentava pela primeira vez o público, que, pressentindo encontrar-se na frente de alguém que a glória nimbaria um dia, lhe dispensou entusiásticos aplausos – que foram o melhor dos incitamentos.

Os seus progressos foram de tal sorte que não tardou em seguir para a Alemanha, a fim de se aperfeiçoar. Teve então ali como mestre o famoso professor Julius Klengel, que depressa se apercebeu do talento invulgar da sua jovem discípula, não hesitando em apresentá-la em vários concertos, enfrentando o conhecedor e exigente público germânico da época.
De triunfo em triunfo, a nossa compatriota participava, aos 17 anos, nos grandes concertos de Leipzig, de grande renome mundial. Nesses concertos, Suggia tocou sob a regência de Arthur Nikish.

Depois iniciou a sua peregrinação pelas capitais da Europa – verdadeiro caminho do triunfo. Guilhermina Suggia entrava gloriosamente na galeria das celebridades musicais. Os portugueses seguiam com o mais vivo interesse a carreira ascencional da sua compatriota, embora muito poucas vezes tivessem o ensejo de a escutar. A artista fixara-se em Inglaterra, onde contava com um público fiel de admiradores. Por lá permaneceu vários anos, vindo de vez em quando à pátria numa visita rápida. E continuavam a chegar até nós os ecos dos seus sucessivos êxitos perante o culto público londrino. A própria corte britânica não escapava à magia do violoncelo da artista.

Mais tarde voltou de vez para o Porto, e a cidade habituou-se a vê-la todos os dias passeando pelas ruas da Baixa. Quando ela passava, muita gente ignorava que ia ali uma artista eminente, de renome universal.

Guilhermina Suggia ia contudo todos os anos a Londres dar concertos. Foi professora da jovem talentosa violoncelista Maria Alice Ferreira.

Em princípio do mês corrente Guilhermina Suggia, muito doente deslocou-se a Londres, a fim de se submeter a uma melindrosa intervenção cirúrgica. As soberanas inglesas rainhas Maria e Isabel, admiradoras da grande artista, enviaram-lhe então ramos de flores e interessavam-se diariamente pelo seu estado de saúde.
Também o chefe do governo português, sr. D. Oliveira Salazar, telegrafava diariamente para Londres, informando-se da ilustre enferma.
Regressou a Portugal no passado dia 17, chegando ao Porto, de avião, alguns dias mais tarde.
Os seus padecimentos porém foram-se agravando dia a dia, até que ontem, pelas 23 horas, expirou suavemente. Assistiram aos seus últimos momentos a srª. D. Maria Isabel Pereira Caldas Vilarinho de Carvalho Cerqueira e os srs. Alberto Carlos Carvalho Cerqueira, seu testamenteiro, e dr. Alberto Pires de Lima.

Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia era viúva do saudoso radiolgista dr. Carteado Mena, tendo nascido nesta cidade, na freguesia de S. Nicolau, no dia 27 de Junho de 1885. Foram seus pais Augusto Medim Suggia , um artista e ascendência italiana e D. Elisa Xavier Suggia. Menina ainda, Guilhermina Suggia formou com sua irmã e seu pai um trio musical que se fez ouvir com sucesso no fim do século passado.

Possuía a comenda de San thiago e a Medalha de Ouro da cidade do Porto.
O féretro é trasladado amanhã da residência da eminente artista, à Rua da alegria, 665, para a igreja da Lapa, onde será rezada ao meio-dia missa de corpo presente, efectuando-se depois o funeral no cemitério de Agramonte.
O funeral está a cargo da casa Alberto Pereira (Filhos).

JORNAL DE NOTÍCIAS, 31 de Julho de 1950

Publicado por vm em dezembro 2, 2004 10:57 AM
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