Porto, 30 – Próximo da meia-noite faleceu na sua residência, Rua da Alegria 556 (*), a grande artista GUILHERMINA SUGGIA. O funeral realizar-se-á terça-feira, a hora ainda por determinar.
Morreu GUILHERMINA SUGGIA.
Morreu – sabem-no bem e concordam connosco, certamente os grandes apreciadores de música, e assim, e com verdade a classificamos – a maior violoncelista dos nossos tempos.
Ficam, portanto, de luto pesado, pela sua morte – ocorrida perto da meia-noite, em sua casa, para onde fora, há dias “gravíssimamente” doente – os músicos portugueses. Portugal, diga-se mesmo, porque Suggia, nascida e criada no Porto, ainda que de todo o Mundo, como todos os grandes artistas – cidadãos do Mundo – era genuinamente portuguesa, por sentimento e temperamento, e muito honrou, sempre, durante a sua vida, seus êxitos, suas glórias, Portugal.
A notícia abrupta da sua morte chegada a deshoras à redacção deste jornal, impede-nos, por falta de tempo, de compulsar quantos elementos nos poderiam dar nota da sua biografia brilhantíssima.
A nosso recurso vêm, no entanto, alguns colhidos ao acaso, entre os muitos “dossiers” da nossa biblioteca de consulta, e mais, e melhor, os que por muito conhecidos, guardam a nossa memória.
Foi ela filha dum mestre de violoncelo e violoncelista primoroso também, Augusto Suggia, que do Conservatório de Lisboa passou ao do Porto e ali fixou residência. Ali nasceu Guilhermina e ali aprendeu com seu pai a técnica do instrumento em que devia, mais tarde, vir a ser prodigiosa e famosa – genial – como os mais célebres violoncelistas de todos os tempos. E no Porto, ainda precoce talento musical, aos sete anos, “menina prodígio” se revelou assombrosa já, pela primeira vez que tocou em público, no então aristocrático, muito distinto, Clube de Matosinhos.
Depois são os seus triunfos repetidos, no Quarteto de Música de Câmara do Orfeão Portuense, menina e moça, e os concertos sucessivos que dá, aplaudidíssimos, com sua irmã Virgínia, pianista notável também, mais tarde Mme Léon Tichon. É a sua entrada no Paço Real em Lisboa, onde o rei D. Carlos, a rainha D. Amélia, a rainha viúva D. Maria Pia e os príncipes, e todos os grandes de Portugal a aplaudem e a consagram, num concerto memorável, como grande também de Portugal, entre os maiores artistas da época.
E são, depois, com 17 anos, os seus estudos no Conservatório de Leipzig, onde tem como seu mestre e amigo, Klengel. E onde Nikisch – o enorme Nickisch – meses passados, ao ouvi-la no “Gewandeshaus” consente que ela repita, a pedido do público entusiasmado ( o que nunca se havia feito a ninguém nesse “auditorium”), o concerto de Volkmann, que havia maravilhosamente executado.
E depois são todos os países da terra que percorre, entre ovações, e em que se iguala ao maior de todos os violoncelistas do tempo, o célebre Pablo Casals.
São as cortes que a recebem como uma princesa – desde a estranha do Czar das Rússias à puritana da Inglaterra. É sobretudo a Inglaterra que ela cativa e onde para todo o resto da vida, fica tendo os seus mais dilectos admiradores - a artista preferida de Eduardo VII, amiga de Balfour e de Austen Chamberlain, que “não gostava de música” a não ser a tocada por GUILHERMINA SUGGIA; amiga da duquesa de York, hoje rainha da Grã-Bretanha, que sempre a requeria para os seus concertos de beneficência, e mal chegava a Londres, lhe mandava sempre um precioso ramo de orquídeas. Essa Inglaterra, “onde nunca esteve em hotéis” porque de par em par se lhe abriam as portas dos palácios – disputando-lhe o convívio – das mais nobres das mais fechadas famílias da aristocracia britânica.
Mil páginas de ouro da sua vida as poderíamos escrever, se tempo houvéssemos. Algumas até, por mais curiosas, a contar episódios com ela passados e anedotas cheias de graça. Ou a dizer de seus gostos, da sua casa, do seu conhecido amor pelos cães de raça – os “scottish-terrier”, de preferência – ou da sua valiosa colecção de tapetes orientais. Ou até, ainda que tal não pareça, em artista de tão fina qualidade, as suas devoções desportivas, pelo “tennis”, pela natação e pelo remo.
Mas o caso – e tristíssimo – é que morreu GUILHERMINA SUGGIA, altíssimo espírito de mulher, extraordinária artista, assinalada portuguesa em todo o mundo musical, onde foi estrela de primeira grandeza.
Dizem, sobre estrelas, os astrónomos que, se alguma delas, por morte desaparecesse do Céu, em muitos, muitos, muitos anos, receberíamos ainda todo o fulgor da sua Luz e do seu Encanto.
GUILHERMINA SUGGIA, como tal, continuará brilhando na claridade do seu prestígio admirável, na saudade de todos os que – inolvidavelmente – a ouviram e aplaudiram. Pertence desde hoje, aquela falange de eleição, dos mortos...que não morrem.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS,31 de Julho de 1950
(*) a sua casa ficava na Rua da Alegria, 665 e não 556 como é referido.