janeiro 19, 2005

GUILHERMINA SUGGIA, VIOLONCELISTA DE NOME INTERNACIONAL FALECEU ONTEM- "O SÉCULO" 31/7/1950

Porto, 30 – Pelas 23 e 30 faleceu na sua residência, na Rua da Alegria, 665, a eminente violoncelista Guilhermina Suggia, que há pouco regressara de Inglaterra onde fôra buscar alívio para os seus males. Estavam presentes naquele instante os srs drs Álvaro Rodrigues e Alberto Pires e Lima, a enfermeira e o pessoal da casa.
O corpo é transportado amanhã, às 12 horas para a igreja da Lapa, onde se efectua a missa de corpo presente.
Em seguida, realiza-se o funeral, para o cemitério de Agramonte.
Faleceu com grande calma e resignação.

Guilhermina Suggia nasceu no Porto, e logo desde os primeiros anos revelou uma espantosa vocação musical. Aos 7 anos fez a sua primeira apresentação em público, maravilhando todos quantos a ouviram.

Seu pai deu-lhe as primeiras lições de violoncelo. Mais tarde aperfeiçoou-se em Leipzig, com o grande mestre Julius Klengel. Aos 16 anos, obteve um êxito apoteótico nos concertos da famosa “Gewandhaus” daquela cidade perante um público considerado o mais sabedor e exigente da Alemanha daquele tempo. Dirigiu a orquestra nesses concertos memoráveis, cuja influência na carreira de Guilhermina Suggia foi definitiva,, um dos maiores maestros de todos os tempos – Artur Nikisch .

Desde então a insigne artista portuguesa foi aclamada nos principais centros de música do Mundo, como intérprete inconfundível, tanto no género de câmara como no sinfónico. Em Inglaterra, especialmente, o seu nome alcançou um enorme prestígio, tendo sido cumulada de honras pela família real.
Guilhermina Suggia, violoncelista da craveira dos Casals, Piatigorsky, Feuermann, era extraordinariamente perfeita na execução do nobre instrumento que a tornou célebre.

Não era, porém, esse, o lado do seu talento que rendia todo e qualquer ouvinte à grandeza da sua personalidade. Eram-no, sim, uma indisível arte de realçar a frase musical, um sentido rítmico agudíssimo, uma fibra, um entusiasmo e, por vezes, um humor incomparáveis. Algumas das suas criações, verdadeiramente geniais, eram inultrapassáveis de expressão. Quem lhe tenha ouvido o concerto em Lá menor de Saint-Saëns ou o concerto de Dvorak, não pode ter esperança de alguma vez conhecer melhores interpretações dessas obras.

Guilhermina Suggia foi, também, uma grande professora, deixando numerosos discípulos. Sobre eles pesam agora a responsabilidade e a honra de serem os únicos depositários de uma arte e uma escola que deram à história da música portuguesa uma das suas mais brilhantes páginas de glória.
O SÉCULO 31 de Julho de 1950

Publicado por vm em janeiro 19, 2005 12:00 AM
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