Na sua residência, Rua da Alegria, 665, nesta cidade, faleceu, às 23 horas de ontem, a grande violoncelista D. Guilhermina Suggia, insigne artista, cujo nome alcançou larga projecção, não só no nosso País, como no estrangeiro, onde, sobretudo em Inglaterra, disfrutava do mais alto prestígio.
Guilhermina Suggia, que contava 65 anos de idade, adoecera há tempos gravemente, pelo que, em Londres, se submeteu a uma intervenção cirúrgica da qual nenhumas melhoras lhe advieram. Nessa ocasião, a nossa ilustre compatriota viu quanto era querida e admirada pelas mais altas personalidades da corte inglesa, tendo recebido da própria família real os mais eloquentes testemunhos de estima e consideração, que muito a sensibilizaram. Como os seus padecimentos se agravassem de dia para dia, resolveu, a convite dos seus médicos assistentes, regressar a Portugal e recolher à sua casa do Porto, onde a morte a veio surpreender.
O desaparecimento da insigne artista constitui perda irreparável que não enluta somente os portugueses mas, também, todo o mundo musicófilo e artístico.
Guilhermina Suggia era viúva do falecido médico radiologista portuense dr. Carteado Mena, não tendo agora pessoa alguma de família.
O seu funeral realiza-se amanhã, terça-feira, às 12 horas, na igreja da Lapa, saindo o féretro da residência às 11 e 30.
Está a cargo da Casa Alberto Pereira, Filhos.
Guilhermina Suggia, filha de Augusto de Medim Suggia, que foi professor do Conservatório de Músico de Lisboa e de Elisa Xavier Suggia, nasceu no Porto, numa casa da Rua Ferreira Borges, demolida há anos, em 27 de Junho de 1885.
Discípula de Klengel, no Conservatório de Leipzig, fez a sua apresentação em público aos sete anos de idade, e – nota curiosa – no Salão do Antigo Clube de Matosinhos, vila em que os seus pais residiram durante muito tempo. Dotada de um precoce talento musical, foi considerada desde logo, como “menina prodígio”. Aos treze anos de idade entrou como violoncelista para o famoso quarteto de música de câmara do Orfeão Portuense, tendo como violinistas Moreira de Sá e Henrique Carneiro e como violeta José Gouveia. Por essa ocasião apresentou-se em Lisboa, na Academia dos Amadores de Música, sendo entusiasticamente aclamada. Foi, então, convidada a participar numa festa elegante realizada no Palácio das Necessidades, sob a protecção da família real, assistindo ao concerto o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia, o príncipe D. Luís Filipe, os infantes D. Afonso e D. Manuel e a rainha D. Maria Pia.
Depois deste memorável concerto seguiu para a Alemanha, matriculando-se no Conservatório de Música de Leipzig, então sob a direcção de Julius Klengel que não a admitiu por a considerar superior a todos os alunos que frequentavam aquele estabelecimento de ensino. Aos 17 anos incompletos foi autorizada, excepcionalmente, a tocar na “Gewandhaus”, de Leipzig, a mais ampla e consagrada sala de concertos da Alemanha, num concerto regido pelo grande Artur Nikish, executando o concerto de Volkmann, alcançando tão retumbante êxito que teve de bisar, sob verdadeira tempestade de aplausos. Este acontecimento marca, seguramente, o início da sua triunfal carreira artística através da Europa, até se fixar em Londres, depois de se apresentar no Porto, no Orfeão Portuense, num concerto a favor da A.N.T. e correspondendo a um apelo feito pela rainha D. Amélia.
Trabalhando sob a direcção do grande artista catalão Pablo Casals, em breve ascendeu à posição mais alta a que um artista pode aspirar, vendo-se festejada e aclamada por toda a parte.
Tocou em todos os palácios reais e presidenciais da Europa, perante chefes de Estados, das figuras mais célebres da vida política, social e artística de Espanha, França, Alemanha, Áustria, Rússia, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Escandinávia, Itália, Suíça, Checoslováquia, Turquia e Polónia, sem que, todavia, deixasse de ficar presa da cativante hospitalidade britânica. De facto, de nenhuns triunfos guardava melhor recordação do que dos obtidos em Inglaterra, cuja corte frequentou como artista querida e admirada, desde os tempos de Eduardo VII. Recordava, até, a insigne violoncelista que a morte ceifou, que sendo Austin Chamberlain conhecido como pouco amante da música, lhe confessara, certa vez, ter vislumbrado um relâmpago de emoção artística, em duas únicas vezes – quando escutou a voz do famoso cantor inglês Gervasius Cary Elwes e ouviu tocar Guilhermina Suggia.
Com marcada preferência pelos autores dos séculos XVII e XVIII, as suas predilecções iam, sobretudo, para Bach, Beethoven, Haydn, Schumann, Schubert e Brahms, sem todavia, deixar de mostrar apreço por muitos outros compositores clássicos e modernos.
A sua beleza de estilo e a perfeição da frase não foram superadas por nenhum dos actuais concertistas de violoncelo, segundo a crítica inglesa. Tais são, a largos traços, os dados biográficos da grande e ilustre artista que o mundo musicófilo acaba de perder.
COMÉRCIO DO PORTO, 31 de Julho de 1950