PORTO, 31 (Pelo telefone)—O Porto culto e artístico teve bem a noção da irreparável perda que sofreu com a morte da grande violoncelista Guilhermina Suggia, muito justamente considerada no estrangeiro como glória nacional do nosso País.
O seu funeral, efectuado esta manhã na igreja da Lapa, foi prova eloquente do pesar que esta cidade está sofrendo. O vasto templo, ricamente decorado, comportou, durante as cerimónias da missa de corpo presente e responsos, tudo quanto o Porto conta de mais representativo em todos os seus sectores.
Desde a presença do ministro da Educação Nacional, que representava o Governo; até à gente humilde do povo, todos ali compareceram para prestar a derradeira homenagem à incomparável artista.
A Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto, sob a regência do maestro Frederico de Freitas, executou, durante a entrada da urna no templo, a «Marcha Funeral» da «Sinfonia Heróica» de Beethoven, e no decorrer da missa, o «Preludio» de Bach, e no final a «Marcha Fúnebre» de Chopin. As pequenas cantoras do Postigo do Sol, sob a regência do professor Virgílio Pereira, cantaram «Sepulto Domino», de Victoria, e «Jesus, ó Mestre!», «Da Paixão, segundo S. Mateus», de Bach. O coro do Conservatório, dirigido pelo professor Calado, cantou «Cruxifixus», de Bach.
Foi celebrante o professor de música do Seminário da Sé, rev. Luís Rodrigues.
Na assistência via-se elevadíssimo número de senhoras, alguns antigos alunos, directores e professores e alunos do Conservatório do Porto, reitor da Universidade e professores, presidentes e vereadores das Camaras do Porto e de Matosinhos, mestre Joaquim Lopes, director da Escola de Belas Artes; comandante João Pais, brigadeiro Nunes da Ponte, prof. Adriano Rodrigues, Ricardo Spratley, dr. Sousa Costa, dr. Antunes Guimarães, escultor José Caldas, dr. António Pinheiro Torres, em representação do director do S. N. I., Delfim Ferreira (Riba d'Ave) e sua filha D. Maria Alice Ferreira; eng.° Rebelo Bonito, que representava o Coro de Camara Polifónico de Lisboa; prof. Luís Costa, em representação de D. Elisa Pedroso, presidente do Circulo de Cultura Musical, Sociedade de Concertos, Sociedade Coral Duarte Lobo e Orquestra Filarmónica de Lisboa. Sua filha D. Maria Helena de Sá e Costa. Representava os professores do Conservatório Nacional de Lisboa, Maria Cristina Pimentel e Jorge de Vasconcelos. O Orfeão Portuense encontrava-se representado pelos srs. prof. Luis Costa, eng.° Moreira de Sá e António Amorim Pinto.
Viam-se também escritores, artistas, figuras representativas, etc.
Os Bombeiros Voluntários do Porto fizeram a guarda de honra.
A chave do caixão foi entregue ao sr. dr. Alberto Pires de Lima que por seu turno a entregou ao sr. ministro da Educação Nacional.
No cortejo para o cemitério de Agramonte, onde ficou sepultado em jazigo de família o corpo da insigne artista, junto dos seu pai e de seu marido, encorporaram-se muitas dezenas de automóveis.
Em vários edifícios da cidade conservam-se bandeiras a meia haste.
DIÁRIO DE LISBOA, 1/8/1950