PORTO, 1 — Constituiu uma profunda manifestação de pesar o funeral da grande violoncelista Guilhermina Suggia.
Quando o sr. dr. Fernando Pires de Lima, (Ministro da Educação Nacional,
que representava os srs. Presidentes da Republica e do Conselho, chegou à residência de Guilhermina Suggia, encontravam-se ali, a fazer a ultima velada, entre outras individualidades, os srs. coronel Lucínio Presa, presidente do Município portuense, que representava o presidente da Camara Municipal de Lisboa, acompanhado de todos os vereadores; prof. Francois Parose, director do Conservatório Real de Bruxelas; dr. Antunes Guimarães em representação do governador civil do
Porto; prof. dr. Amandio Tavares, reitor da Universidade, acompanhado de
outros professores; brigadeiro Nunes da Ponte, comandante João Pais, cônsul e consulesa de Inglaterra, Mestre Joaquim Lopes, D. Maria da Assunção Borges, Ricardo Spratley, maestro Raul de Lemos e outras individualidades dos meios artístico, social e literário do Porto. Estas e muitas outras entidades incorporaram-se, depois, no funeral.
À chegada do féretro à igreja da Lapa constituiu-se um turno formado pelos srs. Ministro da Educação, reitor da Universidade, drs. Antunes Guimarães, Pinheiro Torres, Russel de Sousa e coronel Lucínio Presa. Enquanto o distinto musicólogo padre dr. Luís Rodrigues rezava a missa, a Orquestra Sinfónica do Conservatório de Musica, sob a direcção do maestro Frederico de Freitas, executou marchas fúnebres.
No cemitério de Agramonte, onde o corpo ficou depositado em jazigo de família, organizou-se outro turno, com os antigos discípulos da grande violoncelista. A chave do caixão foi entregue pelo testamenteiro ao sr. Ministro da Educação que fará a sua entrega ao Museu Histórico da cidade.
DIÁRIO POPULAR, 1/8/1950
Publicado por vm em fevereiro 10, 2005 12:35 AMSe a última homenagem foi na igreja da Lapa, tem de se promover ali uma cerimónia religiosa e cultural de celebração dos 65 anos da sua morte (65 anos foi também a idade com que ela morreu, naquela cidade) com música de Bach, autor que ela interpretava e a que aquele novo órgão está adaptado. Que pensarão desta ideia os nossos organistas, nomeadamente os do Norte? E o Sr. Prior, que não sei quem é, aceitará a ideia?
Se não nos deixarem ser uma associação, julgo que ninguém poderá impedir que nos intitulemos o Grupo dos Amigos de Guilhermina Suggia ... e os amigos são para as ocasiões como esta.
Quero rectificar uma inexactidão do meu comentário anterior. Falei do Sr. Prior da igreja da Lapa; mas enganei-me, como depois verifiquei, pelo site da própria igreja, muito completo, e até com tradução inglesa. Esta é directamente regida pelo Sr. Cónego, Doutor Ferreira dos Santos, que não tenho a sorte de conhecer pessoalmente, mas cuja cultura e conhecimentos musicais são, de há muito, notórios.
Não acredito que ele não admire Guilhermina, como artista e também como alma cristã que, de acordo com o que nos ensina a religião tradicional do nosso país (e que é também uma parte importante da cultura portuguesa), estará já salva, ou quase, dada a fé e o arrependimento que demonstrou, ao morrer.
Não se recusaria, por certo, o Sr. Cónego, a contribuir para que se consolidasse tal salvação na igreja de que é o reitor, em conjunto com os amigos dela e outros paroquianos que, passando a conhecê-la, também rezariam pela sua alma.
Arrependimento de quê, pergunto eu? De ter sido a mulher mais genial, mais liberta, mais feminista e mais à frente da sua época que já existiu?
Guilhermina Suggia era um espírito maravilhoso,uma iluminada, e como tal continua a sê-lo. Ela é um espírito superior, não há críticas nem tacanhez de espírito que a possam atingir. Não necessita de quaisquer missas, apenas nós precisamos de alargar o nosso espírito a mais vastos horizontes...
A religião em que Suggia optou por morrer ensina que todos somos pecadores e que não devemos contar demasiado com as nossas forças para alcançar o Céu. Em suma, ensina-nos a ser humildes, pois só assim se consegue alcançar a igualdade pela qual, muito antes da Revolução Francesa, aquela personagem histórica que se chamou Jesus Cristo (acredite-se ou não que ele era deus) operou a primeira grande revolução, na sociedade.
O facto de Guilhermina se ter mostrado arrependida dos seus erros - ninguém é infalível - só prova que o seu sentido de responsabilidade a levava a ter consciência de nem sempre ter seguido os preceitos dessa mesma religião que buscou para morrer... por mais perfeita que nós a consideremos.
Quando expus a minha ideia, disse logo que a missa seria só para quem a julgasse necessária e, por isso, independente do concerto: quem não concorda, não assiste nem a paga.
Não sou beata ( considero-me até uma má católica, com muito pouca fé) mas, pela memória de quem admiro, seria até capaz de me confessar e comungar - o que pressupõe o risco de faltar a uma promessa: perdoar as ofensas que me fizeram, o que é praticamente impossível, para uma pessoa normal, amargurada.
Os erros que Guilhermina cometeu só a ela própria dizem respeito.
Acha que vale a pena arrepender-nos dos erros que cometemos? Não acha que a única atitude positiva será reflectirmos naquilo que fizemos mal para aprendermos e evoluir cada vez mais? Aquilo que se aplica aos bailarinos acho que serve para tudo na vida. Quero dizer com isto: para aprender a fazer piruetas, os bailarinos precisam de cair e tornar a cair, uma duas, vinte, mil vezes. Podem, durante o percurso,ficar com medo de cair e nunca mais aprender, ou podem superar esse medo e aprender finalmente. Como dizia o professor da minha filha, é a cair que se aprende.
Guilhermina teve uma vida cheia, viveu cada minuto intensamente. Aprendeu muito mais do que qualquer pessoa vulgar, era uma mulher inteligentíssima, uma superdotada, mas sobretudo uma clarividente, er um espírito extraordináriamente desenvolvido, por isso aceitou tão bem a morte. Tinha profundas necessidades espirituais, e a religião forneceu-lhe esse acompanhamento espiritual de que tanto necessitava. Ela não necessitava de ser humilde. Conhecia bem as suas qualidades e os seus defeitos e isso bastava-lhe. Essa faculdade só se consegue obter através de uma grande maturidade.
Realmente Jesus Cristo viveu mesmo muito tempo antes da Revolução Francesa...
Afixado por: isabel millet em fevereiro 13, 2005 12:24 AMQuem sabe ela se terá arrependido duma vida de devassidão que teve, certamente, como todos os artistas. Só Deus sabe!
Afixado por: Iracema Ana de Jesus em fevereiro 13, 2005 10:22 AMQuem somos nós para estarmos aqui a fazer julgamentos sobre a vida privada de quem quer que seja?
Só uma pessoa que nunca amou nem foi amada pode achar que amar é pecado, devassidão, e que por isso se deve arrepender.
Se as pessoas abraçam uma religião, qualquer que ela seja para se "limparem" dos seus actos "menos morais", pobre religião.
Gostaria que este sítio, aberto a todas as opiniões, não entrasse naquilo que me parece não dever entrar: julgamentos sobre comportamentos morais.
Acho que Guilhermina Suggia foi uma mulher que amou muito, foi muito amada. Isso é bom!
Mas amou sobretudo a sua arte, o seu público que sempre respeitou. Amou a Música. Vamos seguir por aí.
Subscrevo as palavras do Virgilio e sublinho:
GUILHERMINA SUGGIA FOI UMA MULHER QUE AMOU MUITO.
E isto não é para qualquer pessoa, esta ilimitada capacidade de amar.
E vivam os ARTISTAS, vivam aqueles a quem os limitados de espírito chamam devassos.