(...) Os artistas devem conviver apenas, como artistas que são, no mundo espiritual da Arte. Eu, que sempre me interessei por questões de medicina, casei-me com um médico — que, por ventura minha, é um apaixonado admirador da arte musical. Deste modo, na intimidade do nosso lar, podemos trocar sempre impressões que deleitam o nosso espírito, sem ficarmos apenas limitados à monotonia dum tema único. Por isso mesmo, considero-me invejávelmente feliz.
De resto, eu aprecio muito a quietude dum “home” confortável e o aconchego dum lar acolhedor. Interesso-me por tudo o que diga respeito à arte decorativa e — por que não confessá-lo!!... — senti sempre uma irresistível paixão pêlos meus raros tapetes orientais e pelos cães da mais apurada raça do “scottish-terrier”.
Sofri, há poucos meses ainda, um dos maiores desgostos da minha vida com a morte dum desses cachorritos — o meu querido Sandy. Foi meu companheiro e meu confidente durante muitos anos. Era um animal invulgarmente inteligente, humilde, dedicado e meigo. Tinha a ilusão de que ele conversava comigo, que sorria quando eu estava contente e que chorava quando me via triste. Era para ele que eu tocava, no isolamento quase claustral do meu gabinete de estudo. O Sandy ajeitava-se, então, sobre as almofadas dum “fauteil”, apoiava o focinhito numa das patas dianteiras e, assim, quedava-se silenciosamente — como que sentindo as vibrações harmoniosas do meu violoncelo.
Chorarei sempre a sua perda, que é para mim irreparável. E ainda agora, sempre que toco, no recolhimento do meu lar ou em público, julgo ver surgir na minha frente o olhar muito meigo, muito inteligente, desse cachorrito, que parecia compreender e sentir as mais delicadas subtilezas do meu temperamento de mulher e de artista...”
GUILHERMINA SUGGIA
Do livro “GUILHERMINA SUGGIA OU O VIOLONCELO LUXURIANTE” de Fátima Pombo
Publicado por vm em fevereiro 15, 2005 12:00 AM