
Aqui vemos, na Quinta dos Girassóis em Barreiros da Maia, a pianista e professora D Ernestina da Silva Monteiro, que tantas vezes acompanhou Guilhermina Suggia em recitais.
Suggia deixa-lhe em testamento um dos seus pianos: " À Excelentíssima Senhora Dona Ernestina da Silva Monteiro, professora de piano, residente na Praça Mouzinho de Albuquerque, sessenta e nove, desta cidade, lego o meu piano de cauda "Franz Arnold" que se encontra no salão da minha casa".
(Cedido por Isabel Millet)
«Guilhermina Suggia escapando à lei da Morte»
"Esta violoncelista portuense pertence ao grupo dos que « por feitos valorosos se vão da lei da morte libertando » ( Camões) Está sepultada em Agremonte mas o seu nome continua vivo.
Ao enterro de Guilhermina Suggia não faltou ninguém importante. Todas as autoridades civis e culturais estiveram presentes ou representadas. Até o director da PIDE se fez representar por um inspector. «o Comércio do Porto» de 02.08.50,diz que « as mais altas individualidades, o que o Porto conta de mais distinto na vida social, magistrados, médicos, engenheiros, jornalistas, professores, artistas, antigos discípulos, tudo passou pela câmara ardente…».
Por sua vez o «JN», da mesma data, acrescenta: «a alta bucracioa, o alto e baixo comércio, a indústria, as profissões liberais, dezenas de corporações associativas». E fala ainda no «próprio Povo que sentiu que, com a morte da excepcional violoncelista,
desapareceu uma alta figura nacional, das que mais distintamente encarnam o génio da Nação»
Foi um enterro importante, não se rompia com gente e automóveis.
As cerimónias religiosas realizaram-se na Igreja da Lapa «completamente cheia».O templo foi decorado «a negro e prata», segundo o «CP». E aí a música nunca deixou de estar presente. Para começar, o sacerdote que realizou a cerimónia (prof.Luís Rodrigues) era musicólogo, compositor e professor de Música dos Seminários Diocesanos.
Á entrada da igreja, até ao transepto, «pegaram às borlas da urna o sr. Ministro da Educação nacional, o reitor da Universidade, o representante do chefe do distrito, da União Nacional e do S.N.I. e o Presidente do Município» - palavras de «O Primeiro de Janeiro» de 2.8.50 .
Durante a cerimónia, foi a vez da música lhe prestar homenagem, «PJ» a «orquestra sinfónica do Conservatório de Música do Porto, sob a regência do maestro Frederico de Freitas,executou a marcha Fúnebre da «Sinfonia heróica », de Beethoven,«Prelúdio» de Bach e, à saída da urna, a «marcha fúnebre» de Chopin. O coro femenino do Conservatório cantou «Cruxifixus» da «Missa em si menor» de Bach e as «Pequenas Cantoras do Postigo do Sol» entoaram«Sepulto Domino» de Vitória e «Jesus,oh maestre» de bach.
Em Lisboa ,por iniciativa de entidades britânicas, foi celebrada uma missa de «Requien» na igreja dos Padres Dominicanos de Corpo Santo.
Foi sepultada em Agramonte, em jazigo de família, junto dos pais e marido. A chave da urna foi entregue ao Ministério da Educação Nacional que por sua vez, a entregou a um dos seus testamenteiros.
Seguindo agora Rebelo Bonito, verificamos que o testamento de Suggia foi significativo. Legou os seus três violoncelos para se constituírem três prémios anuais destinados ao melhor aluno de violoncelo. O seu Stradivarius, oferecido por admiradores de várias nações europeias e cravejado de pedras preciosas, legou-o à Royal Academy of Music. Valia dez mil libras (cerca oitocentos contos em 1950) e desejava que fosse vendido. O seu Montagnana seria negociado a favor do Conservatório de Música do Porto. Deixou ainda ao Conservatório de Música de Lisboa, onde o pai foi professor,o seu Lockey Hill.
A Câmara Municipal do Porto reservou para si o direito à posse do Montagnana , avaliado em 550 contos (em 1950) e 1.500 em 1964. E instituiu o «Prémio Guilhermina Suggia».
Deixou ainda 20.000 escudos à Sociedade protectora dos animais, porque o seu marido tinha sido seu dirigente. O «CP» diz ainda que « a raiz do prédio onde vivia Guilhermina Suggia ao colégio Ultramarino das Missionárias de Maria, em Barcelos, com o fim de ser construída uma capela privativa»
Em 1959,o S.N.I. também instituiu um prémio anual com o seu nome para galardoar instrumentistas portugueses, informação do Dicionário Mundial das Mulheres Notáveis. Acrescenta que deram o seu nome a duas ruas. Uma existe no Porto, na freguesia de Cedofeita. Outra em Lisboa, no bairro de Alvalade.
Sendo «estrela de primeira grandeza» e «alta figura nacional», expressões de 1950,
Merece bem que lhe comemorem o centenário. A fundação Engenheiro António de Almeida assim fará erguendo-lhe uma estátua de corpo inteiro. Oxalá os portugueses participem nessas comemorações. Ela foi na verdade «a mais gloriosa conterrânea».
Fina d`Armada
in « O Comércio do Porto » em 15- 04-1988
Muito interessante esta crónica de Fina d'Armada.
Há, contudo, algumas imprecisões. Assim Guilhermina Suggia nasceu a 27/6/1885 e não 1888. Logo o centenário deveria ter sido comemorado 3 anos antes. Depois G. Suggia deixou 3 violoncelos às instituições referidas mas apenas o Stradivarius e o Montagnana tinham o objectivo de serem vendidos e com os produtos dessas vendas serem instituídos prémios com o seu nome. O Stradivarius e o Montagnana foram-lhes oferecidos por Sir Edward Hudson, com que esteve para casar. De facto o Stradivarius não estava cheio de pedras preciosas. Isso com toda a certeza faria com que deixasse de ser um excelente instrumento para ser apenas um objecto de adorno. Quiçá com menos valor até. Os valores do Stradivarius e do Montagnana são semelhantes.
O Stradivarius foi vendido e nunca deixou de ser tocado e o Montagnana muito raramente o foi, o que lhe tira qualidades. Essa é a grande diferença.
Em Londres o prémio continua a ser atribuído e é prestigiadíssimo. Em Portugal somente o foi 5 vezes.
Afixado por: vm em março 24, 2005 10:32 PM