NUNCA, em Gewandhaus — a maior e mais consagrada sala de concertos da Alemanha —, se havia aberto a única excepção de tocar artista de idade tão jovem, ao mesmo tempo como executante.
Tocar em Gewandhaus era atingir o zénite da mais inatingível das glórias. Só os maiores nomes do universo musical lá poderiam chegar. Com muita propriedade uma cronista chegara a afirmar: “0 estrado é considerado um verdadeiro altar !”
Rompendo todos os justos e estipulados preconceitos, a violoncelista portuguesa executa, nessa noite, o concerto de Volkmann.
Toda a sua interpretação atingira as raias do delírio. Os aplausos demorados e acentuadamente sonoros, cingiram de maneira especial a fronte da grande intérprete da arte da pauta.
Nikisch, contra todas as razões que presidiam ao regulamento, consente na sua repetição e poderia, depois, constituir extra-programa no final da segunda parte.
São da executante estas palavras: «Os aplausos e aclamações que então me dispensaram ficaram para sempre nos meus ouvidos, na minha memória e no meu coração...»
É por esta altura, e após o estrondoso êxito de Leipzig, que Guilhermina Suggia, peregrina por todo o continente europeu, demonstrando a sua inultrapassável Arte.
Ouviram-na, então, Espanha, França, Alemanha, Áustria, Rússia, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Escandinávia, Itália, Suíça, Checoeslováquia, Turquia e Polónia. A sua arte incomparável entrara pelos seus dedos afilados em residências de reis e presidentes, ao lado de outros vultos em destaque no mundo da política, da sociedade e da própria Arte.
Homens de Estado, da mais alta linhagem nobiliárquica, capacidades da ciência, da literatura e da cultura, entabularam conhecimento espiritual com a magia dos sons que só as suas mãos sabiam produzir!
E olhando-a — como a surpreendeu o escritor ensaísta Havelsch Ellies em “Impressions and Coments», quando a viu tocar, nesse dia, em Manchester — parece-nos vê-la encadernada na sua elegância e distinção peculiar perante o estupefacto dos mais celebrados vultos.
Desde o início destas excursões artísticas através de toda a Europa o seu inigualável talento jamais deixou de marcar a sua insubstituível presença.
Desde o sublime clima austero da Corte Imperial de Sua Majestade Britânica até à residência de fausto do antigo Czar de todas as Rússias, Guilhermina Suggia estava presente nas mais inolvidáveis horas de arte.
Porque “quem a ouvisse tocar, jamais a esqueceria — como se no seu violoncelo vibrasse o magoado e irresistível encanto de uma nova lira de Orfeu, na sedução de Eurídice através de tenebrosas paragens dos ciclos infernais…» — não deixaram de ecoar dois casos verdadeiramente invulgares que caracterizam o alto interesse que a eminência de sua arte provocava nos maiores espíritos.
É bem conhecido o caso anti-musical de Austen Chamberlain. A sua presença jamais foi notada, assistindo com interesse, à execução de qualquer música pelo mais discutido vulto. Era, pois, certo e sabido que, poucos minutos após qualquer concertista ter dado início à execução do trecho musical mais belo, Chamberlain bocejava... de enfado.
Foram abertas, porém, duas excepções a tão rigorosa regra.
A primeira, quando ouvia o famoso cantor inglês de melodiosa voz, Gervasius Cary Elwes; a segunda ao ouvir a eminente violoncelista num Recital de Arte !
Esta asseveração foi documentada pelo próprio punho de Chamberlain em carta enviada à viúva do ilustre cantor, de que, aliás, o mundo tomou conhecimento através do livro de «Memórias».
Não fica, porém, por aqui a exemplificação de quanto prendia a maviosidade da execução de Guilhermina Suggia.
O ministro britânico Balfour, ouvia-a, na época da outra grande guerra, na chamada intimidade de um recital que reunia todo o elemento aristocrático da Grã-Bretanha.
E, quando, no decorrer da execução da Suite de Bach, um secretário particular vem e lhe segreda qualquer coisa, este mandou retirar o emissário de extraordinárias ordens, continuando a ouvir os acordes do violoncelo.
A executante notara que algo de extraordinário se estava passando na história política da Inglaterra.
Logo que acabou de executar a Suite, Guilhermina Suggia, permitiu-se chamar a atenção do ilustre ministro, alegando que deveria deixar de a ouvir para atender ordens inadiáveis.
Balfour limitou-se a responder: Seria um crime imperdoável tê-la obrigado a interromper o seu Concerto, Fiquei maravilhado e parece-me que a sua interpretação me inspirou providencialmente para eu poder resolver um problema que se considera insolúvel...»
(Cedido por João Pedro Santos)