O escritor Havelsch Ellies chamou-lhe “figura egípcia de cabelos soltos sobre os ombros, amplas roupagens de variegadas cores, um meigo sorriso nos lábios muito finos e uma grave tristeza no olhar magoado...» expressões que Augustus John —o «retratista» inglês mais conceituado no mundo contemporâneo expôs para sempre na «Tate Gallery».
No seu "retiro espiritual" da Rua da Alegria, do Porto, lá está a reprodução fotográfica desse maravilhoso quadro que um multimilionário chamado Lord Deween, adquiriu por extraordinário preço para ficar pertença do Estado.
A sua elegância física, o ar de distinção e a voz cadenciada e de bom timbre não olvidaram os dedos afusados exigidos no seu mister de arquitecta de sons que não mais deixaram de fazer parte das mais gratas reminiscências dos bons amadores de concertos. Com uma preferência definida e assente pela música dos séculos XVII e XVIII, apreciando de uma forma especial o génio de Bach e Beethoven, seguidos, bastante além, por Haydn, Schumann, Schubert, Brahms, a eminente violoncelista não deixa de ouvir com a devida apreciação, a música moderna.
É-lhe aceitável, mercê do sentido trepidantemente que representa, colocando-se como símbolo subjectivo da vida da hora que passa.
Espírito dotado de belos sentimentos de solidariedade mais que uma vez postos em alta evidência através da aquiescência da sua colaboração desde que D. Amélia de Orleans e Bragança lhe solicitava tocasse em benefício dos próprios doentes, encarna, simultaneamente, a devota do lar que estima o rigoroso arrumo das mais pequenas coisas.
A sua casa — talvez mais rigorosamente o seu museu de caras preciosidades domésticas — constitui o protótipo de uma galeria em que a arte e o etéreo se dão as mãos numa conjunção de harmonia e de inacreditável poesia.
Desde os quadros espalhados pelas paredes até aos mais caros tapetes orientais, a tebaida da artista mais proclamada do mundo abriga com rara propriedade o seu labor.
Acerca, ainda, da vida íntima, confidenciou:
“Os artistas devem conviver apenas, como artistas que são, no mundo espiritual da Arte, Eu, que sempre me interessei por questões de medicina, casei-me com um médico — que, por ventura minha, é um apaixonado admirador de arte musical. Deste modo, na intimidade do nosso lar, podemos trocar sempre impressões que deleitam o nosso espírito sem ficarmos apenas limitados à monotonia dum tema único. Por isso mesmo considero-me invejavelmente feliz».
Mas Guilhermina Suggia não esquece que é uma mulher do presente século: guia automóvel, joga ténis, pratica a natação e rema.
A intérprete maravilhosa de Bach e Beethoven, considerada pelo também grande artista catalão Pablo Casais a maior violoncelista do mundo, não encarna bem aquele tipo de mulher que os ignorados biógrafos pretendem: — de que nem sempre a sua atenção se prende com pequenos pormenores da vida quotidiana.
É o caso do Sandy, um exemplar canino de rara estimação. Tinha, por esse animal, uma extraordinária admiração Ela própria confessava que, pelas atitudes que tomava quando ela tocava, parecia compreender a sua arte!
Confessou que, no dia em que se viu privada da sua companhia, teve o maior desgosto da sua vida!
A propósito de entrevistas concedidas à Imprensa, Guilhermina Suggia, disse:
“Há um certo fundamento de verdade nisso que dizem a meu respeito. Tenho evitado, mui¬tas vezes, a concessão de entrevistas para os jornais ou revistas, tanto nacionais como estran¬geiros. Receio sempre possíveis complicações, embora eu seja a primeira pessoa a concordar com a necessidade de confidenciar a alguém os lances mais emotivos e ainda inéditos das memórias da minha vida de artista. A Imprensa mereceu-me sempre a mais alta consideração e tenho pêlos jornalistas a mais devotada simpatia. Não me esqueço, nem me esqueci nunca, das atenções que lhes devo e do carinhoso estimulo com que acarinharam os primeiros sucessos da minha carreira, quando eu era ainda e apenas uma menina-prodígio.Quantas vezes recordo os bons conselhos dos críticos de Arte desse tempo, desde o Arroio ao bondoso Pai Ramos. Esses ficaram, para sempre, na minha enternecida gratidão.
Certo dia, ao chegar a uma localidade do interior da Inglaterra, onde devia participar num concerto, fui abordada, logo que me apeei do comboio, por um repórter dum jornal que, à viva força pretendia que eu lhe concedesse ali mesmo uma breve entrevista. Não pude atendê-lo, não só por não saber o que deveria dizer-lhe e sobretudo pela circunstância de ser então a vez primeira que eu visitava aquela localidade. Desculpei-me conforme pude. No dia seguinte o referido jornal publicava uma falsa entrevista comigo, afirmando-se que eu dissera que o público inglês da província não sabia apreciar devidamente a boa música. Tive apenas conhecimento do sucedido já quando me encontrava no salão de concertos. Reparei, então, que alguns espectadores tinham aberto na sua frente o referido número daquele jornal, como se lessem atentamente a minha depreciativa referência à sua cultura musical. Houve quem me aconselhasse a justificar-me perante o auditório, mas eu preferi manter-me em silêncio, depois de meditar no avisado conceito daquele aforismo francês: «Quem muito se desculpa, compromete-se».
Concentrei em mim a mágoa desse desgosto que me pungiu deveras, E quando comecei a tocar, o violoncelo falou por mim a todos quantos me escutavam. Quando acabei, a assistência quase delirou no entusiasmo duma manifestação de apoteose — que eu agradeci, de lágrimas nos olhos.
Não mais esqueci esses aplausos e essas aclamações, assim como não esqueci nunca o imprudente e ousado repórter que, tão malevolamente, me colocara, numa situação delicada perante um público que apenas me conhecia de nome.
Desde, então, evitei sempre que uma dessas cenas pudesse vir a repetir-se.
Mas, como vê, a culpa não foi minha...»
(Cedido por João Pedro Santos)