abril 20, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER *- I

(O retrato pintado por Augustus John provocou um escândalo - um dos vários suscitados pela carismática violoncelista GUILHERMINA SUGGIA. Anita Mercier escreve sobre a vida de uma intérprete musical nata.)

Todos os anos pelo Outono, são dezenas os jovens músicos que se reúnem no Wigmore Hall de Londres, em competição por um dos galardões mais prestigiosos do mundo do violoncelo, o PRÉMIO SUGGIA.

O prémio tem origem num legado testamentário da violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, falecida em 1950, que instituiu um fundo para bolsas de estudo. Suggia foi uma das instrumentistas mais famosas do seu tempo. Quem foi a mulher que deu o nome ao prémio? A resposta não é simples, já que, no caso de Suggia, vida e lenda se sobrepõem.

Os factos essenciais da vida de Suggia são conhecidos. Nascida em 1885 no Porto, numa família da classe média com gostos musicais (o pai era violoncelista e a irmã mais velha pianista), Suggia começou a tocar violoncelo aos cinco anos. Como criança prodígio, ganhou fama no Porto e estudou algum tempo com Pablo Casals antes de obter, aos 16 anos, uma bolsa de estudo para o Conservatório de Leipzig, onde estudaria com Julius Klengel e teria como condiscípulos, entre outros, Emanuel Feurmann, Gregor Piatigorsky e William Pleeth. Em 1903 tocou com êxito o seu concerto de graduação no Gewendhaus de Leipzig passando os anos seguintes a actuar em toda a Europa até que se estabeleceu em Paris em 1906, com Casals. Os dois passam a viver como marido e mulher, embora nunca se tivessem casado, e acabaram por se separar em 1913.

Em 1914, Suggia trocou Paris por Londres, onde a sua reputação cresceu rapidamente. No início da década de 1920 era já uma figura prestigiada da cena musical britânica, continuando também a tocar em Portugal e Espanha.
Foi em 1923 que Augustus John pintou o seu célebre retrato.
Em 1927, casou-se com o Dr. José Carteado Mena e iniciou uma vida confortável entre o Porto e Londres. Ao longo da década de 1930 continuou a tocar e participar em concertos difundidos pela BBC.
Os anos de guerra retiveram-na em Portugal onde se consagrou sobretudo ao ensino. De 1949 é a sua aparição final no Festival de Edimburgo – um triunfo. Suggia morreu no Porto em 1950.

*ANITA MERCIER é professora na Juilliard School de Nova York e escreve neste momento uma biografia de Guilhermina Suggia

(tradução de Luís Lopes)

Publicado por vm em abril 20, 2005 12:00 AM
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