abril 22, 2005

RETRATO DE UMA SENHORA, por ANITA MERCIER -II

A estes factos essenciais contrapõem-se não poucos boatos, mistérios e mitos que dariam para encher um fosso de orquestra. Suggia era uma mulher brilhante, carismática e enigmática. Suscitava as atenções, com um instinto nato de cena.
Era inevitável que se falasse dela, mas a própria nunca se preocupou em corrigir as histórias que corriam.

São muitas as histórias e as afirmações sobre Suggia, que vão do altamente duvidoso ao comprovadamente falso. Dizia-se que hipnotizava os homens “do alto do palco”; que Casals alimentava um ciúme doentio e lhe escondia o violoncelo como castigo pelas atenções que ela prodigalizava a outros homens. Conta-se que terá surpreendido Suggia em flagrante delito com Donald Tovey e o terá expulso de casa sob a ameaça de uma pistola.

Também se conta que Suggia e John mantiveram uma relação, da qual terá nascido a violoncelista Amaryllis Fleming.
Até há pouco tempo, acreditou-se erradamente que Suggia nascera em 1888, mas a escritora portuguesa Fátima Pombo localizou uma cópia da sua certidão de nascimento que indica o ano de 1885.

De todo o modo a vida da violoncelista foi tão extraordinária que dispensa histórias imaginadas.

Desde a juventude que se afirmou como uma mulher livre e determinada, algo raro entre as mulheres do seu tempo. O pai acompanhou-a a Leipzig, mas, após ter deixado o conservatório, passou a viajar sozinha, ou acompanhada pela irmã, nas suas tournées. Aos 18 anos já assumira o estatuto de principal esteio económico da família, dirigindo sempre com firmeza os aspectos económicos da sua vida. Possuidora de uma autoridade natural, raramente deixou que lhe cerceassem a independência, mesmo quando tal significava pôr em causa as convenções.

A relação de Suggia com os homens é o que melhor ilustra esta faceta. Nos primeiros anos do século XX considerava-se natural que as mulheres renunciassem a quaisquer veleidades de carreira após o casamento, mas Suggia determinou a sua carreira e a sua vida amorosa como bem entendeu. Identificava-se a si mesma como “ Guilhermina Suggia-Casals” e, na correspondência com familiares e amigos, os dois referiam-se um ao outro como marido e mulher. O casal tocou frequentemente em duo, tendo-lhes sido dedicadas duas peças para dois violoncelos: um concerto de Emmanuel Móor e uma sonata de Tovey. Mas a associação não foi, afinal, feliz.

A situação de Suggia era particularmente incómoda: Casals era mais velho nove anos, fora seu professor, era colega de profissão e, implicitamente, um concorrente. Ambos tinham uma personalidade forte e dominadora. Era talento e ambição a mais sob o mesmo tecto. Após a ruptura, Casals jamais se referirá em público à relação.
Em privado dirá que fora um dos episódios mais cruéis e infelizes da sua vida. Quanto a Suggia, referia-se a Casals com respeito e deferência, mas negava (sem razão) que ele alguma vez tivesse sido seu professor.

(tradução de Luís Lopes)

Publicado por vm em abril 22, 2005 12:00 AM
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