Infelizmente Suggia não gostava de gravar discos. Deixou apenas três e a maior parte do reportório em que era mais conhecida nunca foi gravada.
Em 1988 a EMI lançou uma compilação de gravações antigas, que contudo não representa o melhor de Suggia. Ao que parece, não existem gravações das suas numerosas actuações para a BBC. Dependemos do relato de colegas ou ouvintes dos seus recitais para formarmos uma ideia de como tocava. Estas fontes não deixam dúvidas: a mestria musical de Suggia era soberana. Ao longo da sua carreira, Suggia foi louvada pela sua técnica sem falha, o absoluto controlo do arco, a subtileza do fraseado, a riqueza do timbre, a sensibilidade das interpretações.
Algumas fontes sustentavam que as suas interpretações perdiam em poder pela forma deficiente como manejava o arco. É possível que tal opinião tenha sido posta a circular por Feuermann, que era um seu concorrente assumido e considerava Suggia uma “intérprete de sala de estar”. Mas é desmentida por múltiplos relatos de imprensa sobre os seus concertos. Numa época em que o maior elogio que uma mulher poderia receber era que “tocava como um homem”, não há dúvida de que Suggia tinha capacidade para se afirmar entre intérpretes dos dois sexos. O violoncelista com quem mais vezes foi comparada era Casals.
Suggia tocou a maior parte do reportório popular no seu tempo, incluindo os concertos de Haydn, Dvorak, Saint-Saëns, Lalo, Schumann e Elgar. Quanto a Delius, cedeu-o a Beatrice Harrison. Os seus programas incluíam regularmente sonatas de Sammartini, Brahms, Beethoven, Locatelli, Franck, Rachmaninov e Debussy. Alguns violoncelistas deixaram-se intimidar pelo incontestável.
Domínio das suites de Bach por Casals e não as tocavam por isso, mas Suggia tocou com frequência algumas das suites. Além do Stradivarius, possuía um Montagnana e um Lockey Hill; reconhecidamente ciosa dos seus violoncelos não admitia que colocassem flores no palco onde tocava, com receio de que a humidade pudesse danificar os instrumentos.
Suggia era claramente uma solista; raramente tocava em conjuntos de câmara. Por um curto período, em 1914, integrou um trio com Fanny Davies e Jelly d’Arányi e a irmã desta, Adila Fachiri, e com a violinista e compositora Rebecca Clarke, que lhe dedicou uma peça para violoncelo e piano. O acompanhante musical mais frequente de Suggia foi George Reeves.
Ocasionalmente, participou em recitais com outros artistas como Arthur Rubinstein e Wilhelm Backhaus. Entre os maestros com os quais trabalhou contam-se Hamilton Hardy, Adrian Boult, Henry Wood e Pedro de Freitas Branco, da Orquestra Sinfónica portuguesa. Tinha uma relação de especial proximidade com Malcolm Sargent, que dirigiu a Sinfónica de Londres num concerto memorial, após a sua morte. Zara Nelsova, que tivera um contacto com Suggia e fora muito inspirada por ela, participou também nesse concerto.
É possível que permaneçam para sempre envoltos em mistério alguns aspectos da vida pouco convencional de Suggia, mas isso não é importante. O que, sim, importa é a marca deixada por Suggia na história da música. A atribuição anual do Prémio Suggia é ocasião para evocar a carreira extraordinária de uma grande intérprete e o seu compromisso generoso para com os violoncelistas do futuro.
(ANITA MERCIER está a escrever uma biografia de GUILHERMINA SUGGIA. Se possuir alguma informação relevante, por favor envie-a para o seguinte endereço: amercier@juilliard.edu )
Na verdade existem mais que três gravações deixadas por Suggia.Para além da lista de 78 rpm que se encontra aqui no blogue, no "Geral" de "Categorias", há uma provável gravação de "MOTO PERPETUO op 33 de Paganini" e outras gravações que oportunamente aqui serão divulgadas.
Afixado por: vm em maio 9, 2005 10:22 PM