
Guilhermina Suggia, a grande violoncelista portuguesa nasceu no Porto em 1885.
Em 1901 partiu para Leipzig onde foi estudar com Julius Klengel, mas até
essa data estudou violoncelo no Porto com seu Pai, Augusto Suggia, excelente
violoncelista e professor, e música de câmara com Moreira de Sá, personalidade ímpar no meio musical português.
Durante esses dezasseis anos pertenceu ao Quarteto Moreira de Sá e aí toma conhecimento dos quartetos de Beethoven (que virão a ser dados em primeira audição em Portugal) e de muitas outras obras importantes; toca em muitos concertos do "Orpheon Portuense", sociedade de concertos fundada em 1881 por Moreira de Sá com muitas elementos do meio musical portuense.
Esta sociedade que ao longo desses anos da formação de Guilhermina muito acarinhou o seu desenvolvimento, organiza um concerto antes da sua partida para Leipzig, em que toca o 1º andamento do concerto de Lalo, Tarantela de Popper e Variações sobre um tema Rococo de Tschaikovsky.
No dizer de minha Mãe, Leonilda Moreira de Sá Ferreira da Costa, quando
Guilhermina parte, já é uma violoncelista muito feita, muito completa.
Fui sua discípula durante 10 anos. Esse período da nossa convivência e
amizade foi fabuloso. Ouvi-a tocar muitas vezes em ensaios e concertos com
minha Mãe e com meu Pai. Aprendi muito nas suas lições e ouvindo-a em
concertos, com a sua maneira de tocar muito comunicativa e emotiva.
Em 1926, a Sociedade de Concertos de Vigo, convidara Guilhermina e meus
Pais para tocarem numa série de concertos, tocando ela num deles com a
Orquestra Sinfónica de Madrid dirigida pelo famoso maestro Arbós.
Para mim as sonatas de Brahms e a sonata em lá de Beethoven, que tocava
com meu Pai, tiveram uma execução de rara beleza e perfeição que jamais
esquecerei. Guilhermina convidou meu Pai a realizar este programa no Wigmore Hall de Londres em 1929. E minha Mãe a tocar nessa ocasião em concertos em casas particulares de Londres.
Foram relações artísticas e de amizade muito intensas e profundas. Quando
Guilhermina parte para a Alemanha deixa uma sua fotografia com a seguinte dedicatória: "A Moreira de Sá com eterna gratidão". E, com minha Mãe manteve uma correspondência enorme durante muitos anos incluindo cerca de cem postais enviados de muitas cidades e países onde toca. Realiza concertos em muitos países.
Além de Portugal, onde é delirantemente ovacionada e acarinhada, toca em
Espanha, França, Alemanha, Itália, Áustria, Holanda, Dinamarca, Polónia,
Suíça, Rússia, etc. e com Orquestras dirigidas por eminentes maestros como
Artur Nikisch, Mengelberg, Pedro de Freitas Branco, Malcom Sargent.
Deixa em testamento o seu famoso violoncelo Montagnana para ser vendido e,
com o produto daí resultante se instituir um prémio com o seu nome destinado
ao melhor aluno do Conservatório de Música do Porto. Esse prémio foi
distribuído a seis jovens em provas de concerto com orquestra tendo
altamente dignificado esta atribuição.
Deixou ainda o famoso violoncelo Stradivarius à Real Academia de Londres,
Ao Conservatório de Música de Lisboa deixou um outro assim como à
violoncelista Isabel Cerqueira Millet sua discípula; e, a mim, um violoncelo
italiano do século dezoito. Fiquei-lhe eternamente grata também por este seu
gesto.
Versão do capítulo sobre Guilhermina Suggia que integra o livro de
memórias de Madalena Moreira de Sá e Costa em fase de pré-publicação.
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FOTO ACIMA - 1931 com Guilhermina Suggia e Augusto Suggia no final do ensaio
do meu 1º concerto (Teatro Gil Vicente, Palácio de Cristal, Porto).
FOTO 1 ABAIXO - 1901 Quarteto Moreira de Sá: Bernardo Moreira de Sá (1º
violino), Henrique Carneiro (2º violino), Benjamim Gouveia (viola) e
Guilhermina Suggia.
FOTOS 2 ABAIXO - 1929 Programa de concerto no Wigmore Hall