Acerca desse Concerto ( 10 de Abril de 1930 no Teatro de S. João) de Guilhermina Suggia, um ilustre cronista dos acontecimentos musicais, traçava em "O Comércio do Porto" os seguintes apontamentos: «Dizer o que foi a execução dos números que ela interpretou, só fazendo das palavras igualmente uma obra de Arte.
Da sala lançaram-se, convergiram sobre essa figura de Mulher predestinada todos os olhares e, com eles, todas as almas. O braço fortemente esculpido de Suggia arranca do violoncelo as primeiras arcadas e o som, partindo, elevando-se, pareceu-me abrir-se no ar por sobre todos, como um tentáculo impalpável e invencível de magia, segurando-nos na sua garra misteriosa de sedução! (...) Alguém num camarote, apoiando a cabeça entre as mãos, chorava convulsamente, sufocadamente, lágrimas de íntima e indizível comoção, lágrimas que lhe matariam a alma, se não pudessem irromper livremente a dizer, umas após outras, o amor quase enlouquecido de um pai e o orgulho bem nobre de um primeiro mestre de violoncelo!"
Augusto Suggia pressentiu certamente que jamais assistiria às ovações de um novo concerto de sua filha... Assim aconteceu. E volvidos dois anos Guilhermina recebia em Londres a infausta notícia da sua morte, sentindo o acerbo espinho da Saudade...
Suggia era uma artista de estilo a um tempo clássico e romântico: clássico, pela força concentradora, romântico, pelo poder expansivo. A estas faculdades naturais desenvolvidas pelo estudo, a um espírito lúcido, a um temperamento rico e voluntarioso, a uma requintada sensibilidade se deveu o seu fascínio, o seu poder de comunicabilidade e sugestão, o seu gosto de exibição, a teatralidade justa e harmoniosa das suas poses.
Se não fora violoncelista, ela teria sido igualmente grande como actriz, qual outra Sara Bernhardt, se à arte de Talma se houvesse consagrado.
Mas como conceber Suggia sem o seu violoncelo? Só com ele se completava: ele era a sua razão de ser — um filho que tivesse de acalentar...
(Cedido por A Cunha e Silva)