junho 08, 2005

UMA VOCAÇÃO QUE NASCEU E SE REVELOU EM MATOSINHOS, por Carlos Figueiredo - IX

«O violoncelo é para mim — disse-o ela um dia — o instrumento que melhor reproduz o angustiado lamento da voz humana ou a expressão triunfal dum cântico vitorioso de Resgate e de Amor. Para se tocar violoncelo é preciso estreitá-lo num amoroso amplexo — como se fora uma mãe carinhosa embalando um filho bem-amado.

Reparando bem, a posição do violino, na distenção do braço esquerdo, traduz uma atitude de afastamento — contrariamente à do violoncelo, que apenas define confidência, intimidade... Apenas uma vez na vida um violino se comoveu até às lágrimas — quando, numa tarde inesquecível, ouvi o divino Isaÿe interpretar o Concerto de Beethoven. Foi apenas uma vez — e nunca mais...»

A actividade musical de Suggia no nosso país, teve em 1943 o seu ano áureo.
Dele há que revelar o facto do "Círculo de Cultura Musical" ter apresentado, em Janeiro, em cinco memoráveis Concertos, três em Lisboa no Teatro S. Carlos, e dois no Teatro Rivoli, do Porto, a célebre violoncelista com a colaboração da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional sob a regência do notabilíssimo "maestro" britânico sir Malcolm Sargent (1895-1967).

O que foram esses Concertos relativamente, a Guilhermina Suggia, bem se pode avaliar, dando a palavra a Fernando Lopes-Graça:

«Os concertos de S. Carlos foram como que uma espécie de revisão dos grandes triunfos de Suggia: o Concerto de Dvorak, o Concerto de Saint-Saëns, o Concerto de Elgar ficaram novamente devendo muito do seu prestígio à arte consumada da grande violoncelista. Há certos passos melódicos, certos cantabili nestas obras que supomos dificilmente poderem ser dados com mais expressão, requinte, intenção e beleza de sonoridade;
gravam-se-nos para sempre na memória intimamente associados ao nome de Suggia. E no Concerto de Haydn, e nas Variações Sinfónicas de Boëlmann a mesma mestria, o mesmo domínio do instrumento, o mesmo poder de sedução. Ouvir Suggia é experimentar aquele frémito divino que só os artistas excepcionais são capazes de nos comunicar.»

Que de testemunhos da sua personalidade artística não havia ainda a citar verdadeiramente eloquentes — até mesmo à margem da crítica!

Publicado por vm em junho 8, 2005 12:00 AM
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