No dia 23 de Abril de 1904 as duas irmãs participam num concerto de beneficência em Lisboa. E ele (o jovem jornalista,primo de Óscar da SilVa) esceve:
“(...) AS IRMÃS SUGGIA – Após uma série de concertos realizados nos principais centros de música, como os da Alemanha e França, onde Guilhermina Suggia e Virgínia Suggia, provaram à evidência a exuberância do seu talento e proclamaram bem alto que este florido cantinho, quase esquecido, possui compleições artísticas de primeira grandeza; depois das gratas e inolvidáveis recordações pela forma aliás merecida e justa por que foram recebidas – elas não se esqueceram, todavia, o prometido que haviam feito de oferecer um concerto em favor das Escolas Móveis; e, fiéis a essa promessa e só para o seu cumprimento, vieram a essa capital.
Essa festa que, como é do domínio público, se realizou em 23 de Abril último, foi mais um triunfo para esses dois entesinhos deliciosos e vagos, essas duas encarnações da Arte!
Além do programa cumprido na totalidade, as ilustres artistas, gratas ao quente acolhimento e entusiásticos aplausos com que o selecto auditório, ávido de lhes prestar mais uma vez inteira justiça, as glorificou, num requinte de gentileza e de bondade, fizeram-se ouvir em outras célebres e difíceis composições, entre elas a poética Sérenade de Herbert e o mavioso Nocturno de Chopin.
Está acima de todo o elogio o precioso desempenho que as duas geniais irmãs deram a todas as peças que executaram; em nossa fraca opinião não há termos que rigorosamente exprimam e definam o estado da nossa alma, que, se desprendem dos instrumentos, quando vibrados pelos dedos fuselados dessas gráceis figuritas, se perde em extasiada em mundos extraordinários e desconhecidos, que só elas têm o magno condão de nos mostrar!
O espírito crítico abate-se num misto de respeito e admiração ante estas duas personificações do mimo, da correcção, do sentimento, da divina arte, enfim! E duplamente lhes agradece a encanadora noite que lhe proporcionou, e mais ainda, ao ver quão bem se casa a arte com a bondade de sentimentos e desinteresse que se albergam nos seus corações juvenis de mulher e de artistas, a manifesta lembrança que tiveram para com aqueles que, sem meios para o obter, carecem de pão para o espírito.
E,quanta mágoa nos causa o vermos que, nesta terra tão fértil em galardoar burguesas enriquecidas, não houvesse ainda quem alvitrasse um galardão digno e Guilhermina Suggia, nem um Director Geral de Instrução, que, escudado nessa alevantada e justa ideia, promovesse a imposição do hábito de S. Tiago.
Aí fica o alvitre que muito folgaremos ver realizado por V. Exa., lembrando-lhe a triste figura que Portuga fará quando qualquer nação estrangeira levada pelo incontestado mérito de Guilhermina Suggia, distinguir esta nossa compatriota!”
Orlando Courrege
Jornal de Matosinhos, 17/1/1997