novembro 04, 2005

AUDIÇÕES - ORPHEON PORTUENSE - GUILHERMINA SUGGIA

Se há momentos na vida que a valem toda, ou mesmo mais que todos os outros banalmente vividos, os de hontem, passados no Orpheon, pertencem ao numero d’esses para quem soube vivel-os.

Guilhermina Suggia tocou! – N’esta affirmação poderíamos condensar toda a notícia, resumir toda a crítica do espectáculo inolvidável. Mas não exprime a gama frívola das phrases feitas, dos logares communs inexpressivos, que outros, á força de poucos nos dizerem, nos obrigarem a repetir-lhes tantas vezes. Mas com SUGGIA o caso è diverso: é Ella quem tudo nos diz com a sua Arte Divina!, emudecendo a nossa palavra, dominando com a sua originalidade a impotente monotonia do commentario.

Guilhermina Suggia tocou! Mas como em geral isto se diz de quem faz vibrar um instrumento, é preciso acrescentar que Suggia se faz vibrar a si mesmo personificando a musica, restituindo-a na vibração de todo um ser, pelo braço elegantíssimo, sob cujo impulso o arco dança cadenciadamente, pelo rosto austero ou sorridente que quasi nos quer fallar, pela mão levíssima, sob cuja imponderável pressão as cordas do violoncello são verdadeiras cordas vocaes, gemendo e cantando ou rindo às gargalhadas como uma voz sem artifício.

Onde descobrir um esforço na sua technica espontânea? – o esforço existiu na persistência de muitos annos de estudo: mas hoje violoncello e Suggia são elementos de uma só alma, exprimindo-se um ao outro tão sincera e verdadeiramente, que ouvir a Artista é possuíl-a por instantes, espiritualmente, na intimidade do nosso coração.

Não houve, pois, não pode haver um concerto de Suggia. Vibra uma sala sob o influxo do seu nervo electrizador – e eis tudo. O violoncello, o arco, as cordas, sem a menor denuncia que revele a sua essência material diluem-se no frenesi da Artista, evaporando-se no calor do seu espírito, e ouvimos mais que musica, o segredo de uma emoção em alvoroço.

O programma…expressamente preparado para nos dar esta formidávil impressão era uma synthese de obras primas escolhidas entre as mais difficeis que o classicismo e o romantismo têem creado.

A primeira parte com a Sonata de Sammartinni, o adágio e o allegro de Boccherini, o minuetto de Haydn e ainda a série em dó de Bach, foi simplesente formidável. Acumularam-se ali, principalmente no ultimo numero, todas as difficuldades da mecânica, todas as mais requintadas expressões da virtuosidade sem excluir um sentimentalismo que só nervos especiaes traduzem.

O publico fascinado fez taes evasões e tantas chamadas á artista – que ela não descançou sem tocar fora do programa o preludio da série em Sol de Bach.

A segunda parte continha obras mais modernas e românticas, mais próximas ainda do nosso coração. Por isso o enthusiasmo recrudesceu com o “Canto da Floresta” de Dvorak, o “Trecho Popular” de Schumann e muito especialmente depois da execução da “Gavota” de Henschel e do “Vito” de Popper, o grande entre os maiores do violoncello.

Perante a ovação do publico, Suggia intercalou n’esta altura, fora do programma a “Allemande” de Sénaillé, terminando, depois de breve intervalo, com a Sonata de Valentini, obra monumental em que os efeitos de duas a três cordas, com trilos de duas e acompanhamento de terceira, as escalas e as cadencias se sucedem n’um imponente cosmorama sonoro.

O publico, perante tanta beleza, não queria deixar a artista retirar-se, a despeito da sua evidente fadiga.

Suggia tocou então…extra-programma, a “Serenata Hespagnola” de Glazunnof e “ Depois de um Sonho” de Fauré.

D. Leonilde Moreira de Sá e Costa, que acompanhou magnificamente ao piano compartilhou dos aplausos a Suggia dirigidos, e esta recebeu ainda muitas flores, o retrato e um brinde de Moreira de Sá, brindes de Teixeira Lopes e do Orpheon, saudações de velhos amigos da infância, muitas senhoras, o camarim sempre cheio, e dois grandes abraços: o de Guilherme Ferraz, primeira pessoa que a apresentou em publico ( foi em Matozinhos, tinha Suggia 7 annos) e o de seu pae, a rever-se no triumpho colossal da filha querida.

Coincidência interessante: fazia hontem 19 annos que Suggia, pela última vez, tinha tocado no Orfeon.

C.S. - Carlos Santos (?)( 20/5/1923)

(Cedido por João Pedro Mendes dos Santos)

Publicado por vm em novembro 4, 2005 12:04 AM | TrackBack
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