No Círculo, Guilhermina Suggia e o Quarteto Húngaro. E não resisto a levantar um problema sugerido por tão diversas concepções e realizações como as que estes dois concertos pressupunham. Trata-se de duas atitudes fundamentalmente opostas, quanto ao fenómeno musical e à função da música, como arte e como agente social. De um lado, a concepção virtuosística, em que a música é tomada como puro deleite sensorial e gratuito, de problemática essencialmente técnica. O concertista comporta-se como um mago desencadeador de prodígios. Compreende-se que, nesta ordem de ideias, pouca ou nenhuma importância tenha o que se toca, mas como se toca. A arte suprema do virtuoso nivela as obras da mais variada estatura, tornando-se lícito recorrer indiferentemente às obras-primas da literatura musical, aos arranjos mais medíocres ou discutíveis, às composições mais anódinas. A música converte-se num meio, pelo qual o virtuoso domina o auditório. Este, por sua vez, não precisa de saber, de conhecer, de compreender, o que para ele está sendo executado, mas apenas de admirar o grau de prodígio dessa execução. E o êxito de um virtuoso será tanto maior quanto melhor souber dominar, subjugar, o seu público.
Não há dúvida de que Guilhermina Suggia é um destes leões da música, possuidora do segredo de arrebatar plateias. Daí, o seu justo renome internacional. E quer o programa que apresentou quer o brilho com que o defendeu a colocam entre os mais característicos representantes de uma bem definida mentalidade. Programa ecléctico, com as costumadas peças de efeito, mas que resultou num real prazer, mais sensorial do que intelectual, é certo. Compreenda-se: não era Bach, nem Fauré, nem Ravel, nem Falla que ali íamos escutar: era Guilhermina Suggia! Daqueles, ninguém se lembrou: esta galvanizou a plateia. E toda a gente se esqueceu também da acompanhadora, Berta Alves de Sousa. Mas não era assim que deveria ser, em conformidade com uma concepção eminentemente individualista da música?
O Quarteto Húngaro representa uma concepção diametralmente oposta. Aqui já o executante não é um mago, mas o humilde e devotado servidor da sua arte: o intermediário que se apaga entre esta e o público, e para quem ela, longe de constituir um pretexto para exibições, é antes uma forma acabada de pensamento, portadora de uma mensagem, e para tanto possuidora de meios próprios e específicos, que não de modo algum convencionais e arbitrários. Ao executante impõe-se o escrúpulo da escolha, a fidelidade aos propósitos dos autores e o critério interpretativo, de modo que o público possa receber integralmente a mensagem que lhe é destinada, sem que esta seja iludida ou desvirtuada. Tudo qualidades que em alto grau reúne o Quarteto Húngaro, maravilhoso agrupamento em que não sabemos que mais admirar: se a realização impecável das execuções se a suprema categoria das interpretações. Logo a composição do programa, incluindo um clássico, um romântico e um moderno, revelava um equilíbrio a que não estamos habituados. E Mozart foi gracioso e delicado sem ser fútil; em Schubert, o tema caracteristicamente romântico da luta da donzela com a morte atingiu um dramatismo sem choraminguices; e no Quarteto de Debussy foi criada aquela atmosfera rarefeita c sensual, peculiar ao músico impressionista — e tudo isto com uma economia de meios c uma intencionalidade expressiva só possíveis quando grandes artistas, como o provaram ser Zoltan Székely, Alexandre Moskowsky, Dénes Koromzay e Vilmos Palotai, se subordinam de boa vontade e humildemente à disciplina do conjunto, pondo inteiramente as suas excepcionais qualidades ao serviço da música.
Coimbra, Março de 1947
(Lisboa, Março de 1964.)
Oh, a severidade dos verdes anos! Mereceria de facto a nossa grande violoncelista um tratamento tão duro? Seria de natureza tão superficial o brilho das interpretações de Suggia? Talvez. Mas, tanto quanto me recordo, ardia nelas o fogo sagrado, muito embora o seu virtuosismo nem sempre fosse tão verdadeiro como espectacular. E ainda estou a ver, num intervalo, o Jean-Paul Sarrautte, aos berros, apoplético, pela coxia fora: «Mais elle joue faux comme une cochonne!»
Do livro “Opiniões com data” de João José Cochofel (1919-1982)
(Cedido por Belmiro de Oliveira)