maio 15, 2006

FERNANDO LOPES GRAÇA – PERSPECTIVAS DE UMA OBRA -VII SEMANA ABERTA DA ESCOLA DE MÚSICA DO CONSERVATÓRIO NACIONAL - VII SEMANA ABERTA DA ESCOLA DE MÚSICA DO CONSERVATÓRIO NACIONAL

SALÃO NOBRE do CONSERVATÓRIO NACIONAL, 4ª FEIRA, DIA 17 DE MAIO, ÀS 21 HORAS

FERNANDO LOPES GRAÇA PERSPECTIVAS DE UMA OBRA

Variações sobre um tema popular português para piano

Cinco Canções Populares para voz e piano
1. Márcia bela
2. Eu fui à terra do bravo
3. Ó meu bem se tu te fores
4. Rua abaixo, rua acima
5. Leva arriba, nossa gente

In memoriam Bela Bartók - Suite V para piano
1. Prelúdio
2. Vesperal
3. Contradança
4. Barcarola
5. Loa
6. Tocatina

- intervalo -

Catorze anotações para quarteto de arcosCanto de amor e de morte para quarteto de arcos e piano


FICHA ARTÍSTICA

RUI PINHEIRO (piano), RUTE DUTRA (soprano),
QUARTETO DO CONSERVATÓRIO NACIONAL


notas ao programa

A pertinência desta escolha justifica-se em primeiro lugar por estarmos no corrente ano de 2006 a comemorar o centenário do nascimento do compositor, com a proposta de apresentar, neste recital, vários géneros da sua produção: música para piano solo, canto e piano e música de câmara.
Nesta selecção ficam, igualmente, patentes vários ângulos e matizes estéticos da sua obra: o recurso a material de origem folclórica, a vertente pedagógica e uma outra, mais erudita.

É com as Variações sobre um tema popular português, de 1927, que Fernando Lopes-Graça se assume pela primeira vez como compositor. Esta obra foi dada em primeira audição um ano mais tarde num concerto escolar no Salão Nobre do Conservatório Nacional. Constitui o primeiro contacto do compositor com a canção popular portuguesa, deixando antever todo o trabalho de etnomusicologia que iria efectuar e que iria usar de forma exaustiva na sua produção, como disso são um particular exemplo as Cinco canções populares para voz e piano que se seguem neste recital.

Segue-se a Suite V das Oito Suites Progressivas “In memoriam Bela Bártok” que, a par do Álbum do Jovem Pianista e da Música de piano para crianças constitui um interessante legado de obras que reflectem uma consciência da necessidade de obras pedagógicas que remetam para uma linguagem mais contemporânea.

Numa segunda parte do programa apresentamos duas obras magistrais dos anos 60, que reflectem um período de busca de uma linguagem mais apurada e estilizada, baseada na exploração exaustiva de pequenas células melódico-rítmicas, que certamente o coloca a par das correntes vanguardistas: as Catorze anotações(1966) e o Canto de amor e de morte (1961).


Parece-nos relevante a inclusão de alguns comentários sobre estas obras elaborados pelo musicólogo Mário Vieira de Carvalho:

Certo é que, com a superação dessa crise em 1961, se dá uma viragem ou, se quisermos, um reajustamento da sua trajectória artística. Em obras instrumentais volta¬das para a introspecção, para a reflexão existencial, afirma-se então um novo estilo ou um novo tipo de dis¬curso tendente ao atonalismo e baseado numa escrita dita intervalar (isto é, explorando o poder estruturador de cé¬lulas de intervalos, suas inversões, transposições e retro¬gradações). Esta reaproximação a «um expressionismo dramático de linguagem mais ou menos atonal» - nas palavras do próprio compositor - coloca-o de novo mais perto da Escola de Viena, em convergência, aliás, com os compositores portugueses da geração de Jorge Peixi¬nho (n. 1940). É sintomático que este tenha saudado no Canto de Amor e de Morte (1961), «a obra mais conse¬quente e coerente na relação entre os diversos níveis de organização que a música portuguesa, com toda a vero¬similhança, alguma vez terá logrado» (in CARVALHO 1966). Em Para uma criança que vai nascer (1961), Poema de Dezembro, Concertino para violeta e orques¬tra (1962), Quarteto de cortas n.0 1 (1964), Quatro Bos¬quejos (1965), Concerto da camera col violoncello obli¬gato (1965) e Catorze Anotações (1966) consolida-se essa renovação. Quanto ao carácter aforístico desta última obra - uma novidade em Lopes-Graça - é mais produ¬tivo analisá-lo sob o ponto de vista da apropriação de um estilo com precedentes na fase mais radical (atona¬lismo livre) do expressionismo vienense (rondando 1909 a 1912) do que do ponto de vista da composição com doze sons teorizada por Schoenberg a partir de 1923: o que nela pode sobressair então, ao considerar-se, por exemplo, a construção em espelho da 1.ª e 14.ª Anota¬ções, será menos o parentesco com processos estritamente dodecafónicos do que o esboçar de uma tendência à in¬tegração serial (latente na referida fase do expressionismo radical, aprofundada depois sistematicamente por Webern, retornada com novo grau de consciência pela vanguarda europeia dos anos 50).

Publicado por vm em maio 15, 2006 11:23 AM | TrackBack
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