Como netos de António Lamas (1861-1915), ilustre amador musical e coleccionador de instrumentos antigos, parece-nos oportuno explicar qual a razão por que Guilhermina Suggia manteve com o nosso Avô uma correspondência regular durante oito anos, de 1903 a 1911, correspondência essa representada actualmente por um conjunto de cerca de oitenta postais ilustrados, dos quais vinte se encontram na exposição. Lamentamos a perda de muitas cartas a que os postais se referem, certamente muito mais ricas de conteúdo.
António Lamas foi considerado um brilhante instrumentista de violino, dedicando-se mais tarde à violeta, instrumento que se coadunava mais com o seu temperamento e que na altura tinha poucos adeptos, sendo relegado para um plano secundário. Dedicou-se também ao estudo da viola-de-amor, da qual se pode dizer que foi o único instrumentista do seu tempo no nosso País. Notabilizou-se em qualquer destas modalidades, promovendo e colaborando em inúmeros concertos com grandes figuras musicais tanto nacionais como estrangeiras. Assim, manteve uma regular colaboração como violetista num quarteto com Rúbio, Arbós e Rey Colaço.
Dedicou-se muito especialmente ao estudo e interpretação de música antiga, tendo sido o grande impulsionador e animador dos célebres "Concertos Históricos" que procuraram divulgar a música de câmara anterior a Bach. Fundou, com outros músicos notáveis, a Sociedade de Música de Câmara, que trouxe a Portugal as figuras mais destacadas da época. Fez parte da Real Academia de Música e integrou por diversas vezes júris de exames no Conservatório Nacional, por inerência do cargo nessa Academia.
Grande apaixonado pela música antiga, como atrás se refere, organizou na sua própria casa uma vasta colecção de cerca de uma centena de instrumentos de várias épocas, a que devotou sempre o maior interesse e dedicação. Foi convidado várias vezes a actuar no Paço Real. Condecorado pelo Rei D. Carlos, declinou, por excessiva modéstia, a honraria com que fora distinguido.
António Lamas teve a oportunidade, numa deslocação ao Porto, de ouvir a jovem e talentosa Guilhermina Suggia e a circunstância de ser um assíduo frequentador do Paço permitiu-lhe ter sido uma das pessoas que envidou esforços junto da Família Real para que lhe fosse concedida uma bolsa para prosseguimento dos estudos no estrangeiro. Essa diligência teve resultados positivos, o que lhe permitiu beneficiar dos preciosos ensinamentos do insigne violoncelista e professor Julius Klengel.
Poucos meses depois, com menos de vinte anos, iniciava já uma longa carreira de concertista apresentando-se nas grandes salas das mais prestigiadas cidades europeias: Estrasburgo, Neustadt, Baden Baden, Paris, Bruxelas, Mainz, Heidelberg, Mannheim, Bremen, Dortmund, Haia, Londres, Amsterdam, Bayreuth, Coburg, Karlsbad, Viena, Lemberg, Varsóvia, Munique, Stuttgart, Berlim, Hamburgo, Frankfurt, Ostende, Basileia, Cracóvia, Leipzig, Dresden, Schemnitz, Innsbruck, Estocolmo, Kolozsvar, Kissingen, Scheveningen, Neuchâtel, Düsseldorf, Roma, St. Petersburg, Moscovo, etc. Em várias destas localidades actuou por mais de uma vez e as deslocações, em certos casos muito longas, eram feitas nos comboios da época e em condições muito precárias.
Apresentou-se em vários concertos com outros grandes solistas como o pianista Godowsky, a cantora lida Volti e o célebre violinista Fritz Kreisler, e em diversos locais, em duo, com Pablo Casals, sempre com o maior sucesso.
Actuou ainda como solista com as maiores orquestras da Europa sob a direcção de, entre outros, Eduard Colonne, Fiedler e Martin Spõrr. Durante um certo tempo beneficiou ainda dos conselhos do violoncelista David Popper. É de salientar, que toda esta actividade, que constituiu a sua 1a tournée no estrangeiro, decorreu no curto período de sete anos, entre 1904 e 1911.
Não podemos deixar de referir a gratidão expressa por Guilhermina Suggia ao nosso Avô, ao longo dos seus postais, e a forma carinhosa e familiar como sempre o tratou, o que nos toca profundamente.
ELISA E JOÃO ANTÓNIO LAMAS
Lisboa, Maio de 2006
(do Catálogo da exposição "SUGGIA, O VIOLONCELO", a decorrer na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até 31 de Março p.f.)
desejava saber se há possibilidade de adquirir gravações em c.d. ou d.v.d.e quais os preços. pois seria ppara mim de grande valor possuir uma destas obras?
Afixado por: jose p. mouta em março 21, 2009 10:23 AM