janeiro 24, 2007

CARLOS SOUSA BAPTISTA- testemunho

Pertenço ao número de pessoas, talvez já não muito elevado, que foram bafejadas com a sorte de, mais do que uma vez, terem assistido a audições de
Guilhermina Suggia com o seu violoncelo. Não venho, no entanto, fazer considerações sobre a artista e a sua música, pois isso está para além da minha competência.

Venho, apenas, prestar uma modesta contribuição, dando a conhecer
duas situações por mim vividas: uma com o violoncelo sem Guilhermina Suggia e outra com a artista sem o violoncelo.

Na minha qualidade de dirigente municipal colaborei de muito perto com o
então Presidente da Câmara Municipal do Porto, Dr. Fernando Cabral, nos
trabalhos conducentes à aquisição do Teatro Rivoli, em 1989, tendo depois responsabilidades na gestão da casa de espectáculos. Para iniciar a actividade do “Rivoli-Teatro Municipal” foi decidido levar a efeito um sarau e fazer a apresentação pública do violoncelo de Guilhermina Suggia, que se encontrava no Conservatório de Música do Porto, tendo eu sido encarregado das diligências
necessárias para o efeito.
Poucos dias antes da data marcada para o sarau surgiram inesperados problemas na avaliação do precioso instrumento para se concretizar o indispensável seguro antes de transitar para o Rivoli. A surpresa para quem tratou do assunto – e julgo que o será também para boa parte de quem me lê – é que o violoncelo foi avaliado em mais de cem mil contos (meio milhão de euros nos dias de hoje), tendo sido mesmo necessária a participação de duas seguradoras, uma portuguesa e outra estrangeira!

A outra situação – Guilhermina Suggia sem o violoncelo – teve lugar na antiga Faculdade de Medicina, junto ao Hospital de Santo António, num concerto ao qual assistiu Guilhermina Suggia sentada na primeira fila, em cadeira localizada mesmo debaixo do parapeito dum varandim superior, onde eu assistia também ao concerto, mesmo na vertical da referida cadeira.

Nunca mais pude esquecer o que foi observar a forma como GuilherminaSuggia acompanhou passagens da execução musical, movendo-se constantemente, ora com a cabeça, ora com o tronco, chegando mesmo a quási se desequilibrar na cadeira.

O “espectáculo”, visto do local em que me encontrava, chegou a aproximar-se da comicidade, mas cedo compreendi que tinha sido testemunha do fervilhar da
alma da Artista que vivia a Música, na plurilatinidade herdada dos seus ascendentes próximos, com a mistura de sangue português, italiano e espanhol.

Porto, Junho de 2006

(Do Catálogo da exposição "SUGGIA, O VIOLONCELO" a decorrer na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até final de Março)

Publicado por vm em janeiro 24, 2007 12:00 AM
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