Quando surge uma Artista, tão extraordinária como Guilhermina Suggia,parece-nos que ao evocá-la, toda a atenção deve convergir para os aspectos musicais com ela relacionados. Mas, é para nós gratificante, recordar também a relação entre a nossa família e Guilhermina Suggia. Relação duradoira e absolutamente “cristalina”, que perdurou desde o seu regresso ao Porto até ao seu desaparecimento.
Este relacionamento iniciou-se antes do nosso nascimento e começou por um
amável convite de Guilhermina Suggia a Ofélia Diogo Costa, para cantar em sua casa, quando esta regressou ao Porto, após uma estadia em Paris para trabalhar com a célebre cantora Claire Croiza. Inúmeras vezes, Ofélia Diogo Costa e Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves foram convidadas para fazerem e ouvirem Música, na casa de Guilhermina Suggia.
Não queremos deixar de referir a troca de impressões realizada numa dessas reuniões, sobre a interpretação da notável peça “Après un Rêve” de Fauré, que Guilhermina Suggia tocava admiravelmente e que a nossa Mãe cantava.
Ofélia Diogo Costa foi tão receptiva a esse “encontro”, que muitos anos mais
tarde, numa conferência realizada no Conservatório de Música do Porto, com
o título “Do Público – Do Intérprete – Da Lição” fez as referências que transcrevemos em seguida:
“Contaram-nos esta confissão de um músico, ao ouvir – Après un Rêve – Quando
existe semelhante melodia, as palavras são supérfluas.
Até que ponto corresponde isto à verdade?
A que regiões, poderia levar-nos a Poesia, se a intérprete a erguesse a um plano, onde tudo quanto fosse terrestre desaparecesse?
Elle sollicite l’âme hors la chair… - no dizer do poeta.
Não façamos aqui a diferença do Talento e do Génio.
Baste-nos senti-la em Criadores e Intérpretes.
Guilhermina Suggia é, a meu ver, um Génio de Interpretação. Nela tudo é vivido, humano, sublime.
É uma continuadora da Obra de Arte, rasgando clareiras insondáveis.
É, enfim uma Intérprete rara. A única talvez que transfigurando-se nos canta
“Après un Rêve”. Mas, nesta canção sem palavras, Ela é a própria Poesia.
Num esquisso inesquecível, António Carneyro imortalizou Intérprete, Poesia e
Música:
- Tu m’appelais et je quittais la terre
Pour m’enfuir, avec toi, vers la Lumière »
Guilhermina Suggia foi presença constante em todos os concertos realizados
por Ofélia Diogo Costa e Maria Adelaide Diogo Freitas Gonçalves. A proximidade das nossas residências – nessa altura, vivíamos na Rua Heróis de Chaves, portanto muito próximo da Rua da Alegria, - permitiu que Guilhemina Suggia fosse uma presença importante na nossa infância.
Guilhermina Suggia ficou totalmente seduzida, quando o nosso irmão nasceu
e passou horas junto do seu berço, encantada com tão minúsculo ser. Hoje,
admiramos muito o seu carinho pelas crianças que fomos. Depois, a vida afastou-nos, porque deixamos de viver no Porto, mas não nos separou. A relação continuou com nossa tia Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves.
Quando o Círculo de Cultura Musical iniciou as suas actividades, no Porto,
por iniciativa de Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves, Guilhermina
Suggia foi uma das suas primeiras assinantes. A sua presença, numa friza no
Rivoli, junto da friza da Direcção, era uma “nota” característica dos concertos
desta associação. Presença importante para o público, que seguia as suas
reacções e muito especialmente para os artistas… Recordamos: A admiração
do então jovem violoncelista Gaspar Cassadó ao saber da sua presença na sala
onde actuava e que de imediato, lhe dedicou uma peça; e o espanto do violinista Henryk Szeryng ao ser cumprimentado, no fim do seu concerto, por tão ilustre artista.
O contacto com Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves foi fecundo e
dele resultou a sua actuação, como solista, em dois magníficos concertos, no
Círculo de Cultura Musical, com a Orquestra Nacional sob a direcção, respectivamente, do famoso Maestro Malcolm Sargent e do ilustre Maestro Pedro de Freitas Branco. Guilhermina Suggia tocou ainda em várias outras Delegações do Círculo de Cultura Musical. Citamos um excepcional concerto em Viseu e o seu último concerto em Aveiro, em que foi acompanhada por Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves.
Outras realizações juntaram as vontades de Guilhermina Suggia e Maria
Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves. Quando esta decidiu fundar a Orquestra
Sinfónica do Conservatório de Música do Porto, Guilhermina Suggia apoiou-
-a, inicialmente, em muitas diligências, além de contribuir na orientação do
naipe de violoncelos e levou a sua generosidade a actuar na primeira apresentação desta orquestra ao público sob a direcção do Maestro Karl Achatz.
Se, o Conservatório de Música do Porto foi contemplado no testamento de
Guilhermina Suggia foi devido ao apreço que a ilustre Artista tinha pela Obra
realizada por Maria Adelaide Diogo de Freitas Gonçalves nesse estabelecimento
de ensino.
A fama de um intérprete é, em geral limitada no tempo e são raríssimos os
exemplos que perduram.
Pensamos que os ouvintes de Guilhermina Suggia devem ter a preocupação de
transmitir às gerações futuras, a recordação dos momentos inesquecíveis que
as suas interpretações lhes proporcionaram.
A memória da grande Violoncelista deve permanecer viva e a sua arte perdurar
através dos tempos.
Porto, Maio de 2006
do Catálogo da exposição "SUGGIA, O Violoncelo" que decorre na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto até final de Março
Publicado por vm em janeiro 31, 2007 12:00 AM