Guilhermina Suggia, a grande violoncelista portuguesa, nasceu no Porto em
1885. Fez uma grande carreira de concertista em muitos países: Portugal – onde foi muito acarinhada e admirada – Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Hungria, Polónia, Rússia, etc., tocando com grandes pianistas e orquestras, sob a direcção de famosos maestros como Artur Nikisch, Mendelberg, Pedro de Freitas Branco, Malcolm Sargent e muitos outros.
Sempre que se apresentava em público era recebida delirantemente, vendo-se
obrigada a tocar inúmeros extra-programa. A sua maneira de tocar tem, para
mim, um cunho muito especial que a diferencia de outros grandes artistas. É
a ligação afectiva às obras que interpreta e a comunicação com o público que
estabelece de um modo muito emotivo.
Do estudo que fiz sobre os seus dezasseis anos de vida no Porto até à sua partida para Leipzig, onde foi estudar com Julius Klengel (refiro-me às datas entre 1885 até 1901), verifico o seguinte: tem como professor de violoncelo o seu pai Augusto Suggia, excelente músico, violoncelista da Orquestra do Teatro
S. João do Porto, que conheci muito bem porque foi o meu primeiro professor
e, como professor de música de câmara, Moreira de Sá, meu avô, como é
de todos sabido, violinista, pedagogo e personalidade ímpar no meio musical
português. Esses dois mestres eram personalidades afectivas que, sem dúvida,
marcaram a maneira de tocar de Guilhermina.
Observando os Anais do Orpheon Portuense, sociedade de concertos fundada
pelo meu avô e onde vieram dar concertos as maiores celebridades musicais
como Heifetz, Ferruccio Busoni, Jelly D’arany (a quem Ravel dedicou a
Zigane), Paderewsky, Rubunstein, Piatigorskyy, Pablo Casals, verifica-se que
Guilhermina pertenceu ao Quarteto Moreira de Sá (conjuntamente com
Henrique Carneiro, 2º violino e Benjamim Gouveia, viola) tomando aí conhecimento - entre outras obras - dos grandes quartetos de Beethoven, dados em primeira audição, em Portugal. Esta formação musical que Guilhermina recebe na Sociedade Orpheon Portuense, tocando em quarteto e trio com diferentes elementos, entre os quais sua irmã Virgínia, minha Mãe e meu Pai e outros elementos, é fundamental para a sua educação. Lembro Irene Fontoura Guedes, Laura Artayet Barbosa, Madureira Guedes, Benjamim Gouveia, Josephine Jones, Amélia Marques Pinto, Henrique Ferraz, Rosália Sousa Monteiro com quem interpretou obras de Beethoven, Tschaikovsky, Haydn, Mendelssohn, Mozart, Ravina, Batta, Dvorak, Brahms. É um período de grande importância no seu desenvolvimento: toca muito dos 12 aos 16 anos em concertos promovidos por aquela Sociedade. Guilhermina vive num ambiente familiar e num ambiente musical de grande afectividade, desenvolve de forma nítida o amor pea música, pelas obras que estuda e vai conhecendo. A meu ver, são os dois primeiros mestres que tem no Porto que marcam a sua maneira de tocar durante a sua vida.
Quando parte para Leipzig, o Orpheon Portuense organiza um concerto de
despedida em que Guilhermina toca o 1º andamento do Concerto de Lalo,
Tarantella de Popper e Variações sobre um tema Rocócó de Tschaikovsky.
Deixa, antes de partir, um retrato com a seguinte dedicatória: “A Moreira de
Sá com eterna gratidão”. O Orpheon Portuense fez uma despedida muito carinhosa, cheia de admiração por Guilhermina. Minha Mãe disse-me sempre que quando ela partiu para Leipzig, já era uma violoncelista muito formada, muito completa. Volta mais tarde a tocar no Orpheon Portuense com minha Mãe e meu Pai e, em 1924, na homenagem a meu Avô aquando do seu falecimento, com o pianista inglês George Reeves. E, ainda mesmo antes disso, quando sabe que Moreira de Sá vive os seus últimos dias de vida, desloca-se a sua casa tocando para ele, no seu quarto, um prelúdio de Bach.
O período da minha vida em que fui sua discípula foi fabuloso. Fiquei-lhe
devedora de uma dedicação, de um amor pelo seu ensino que não posso esquecer.
Sei que as suas lições eram altamente bem pagas. Mas nunca recebeu nada
pelas inúmeras aulas que me dava. Meus Pais é que lhe ofereciam uma lembrança a juntar a palavras de agradecimento. Por isso, o sentimento de gratidão que tenho sentido pela vida fora é imenso e nunca esquecerei. Quando
dei o primeiro concerto no Teatro Gil Vicente do Palácio de Cristal em 1931,
Guilhermina e seu Pai foram assistir ao ensaio geral o que me deu uma grande
satisfação e alegria. Mais tarde em 1939 aquando de um outro meu concerto
ofereceu-me uma belíssima fotografia sua de autoria de Dorothy Wilding.
Esse período das relações de amizade com Guilhermina Suggia em que a ouvi
imensas vezes tocar, em concertos e em privado, nos ensaios com meus Pais,
foi de grande valor para a minha carreira artística assim como as suas lições
preciosas. Ela adorava ensinar e eu recebi esse amor pelo ensino que me acompanhou toda a vida. Os ensaios a que assistia com os meus Pais são para mim inesquecíveis. Com minha Mãe, tocava os concertos de Dvorak, Elgar, Lalo, Variações Sinfónicas de Boelmann, Sonatas de Samartini, Eccles, Locatelli, peças de Popper, Sinigaglia, Camargo, Senallié; e, com meu Pai, eram as duas Sonatas de Brahms e a Sonata em lá de Beethoven. Com este programa convidou meu Pai a tocar em 1929, num recital em Londres, no Wygmor Hall e, minha Mãe em concertos em casas particulares. Os jornais ingleses referem-se elogiosamente ao recital. Jamais voltaria a sentir uma tal perfeição na concepção e interpretação das obras que resultava de um entendimento maravilhoso entre Suggia e meus pais.
Antes, em 1926, a Sociedade Filarmónica de Vigo convidou Guilhermina,
minha Mãe e meu Pai, a realizarem um concerto na série em que colaborou
a Orquestra Sinfónica de Madrid. O primeiro concerto dessa série é unicamente
preenchido com Guilhermina, Leonilda Moreira de Sá e Costa e Luiz
Costa. No terceiro, Guilhermina toca, com a Orquestra, o Concerto em Ré de
Haydn, sendo o 2º e 4º concertos apenas preenchidos com a orquestra dirigida
pelo célebre maestro Arbóz. Guilhermina dizia muitas vezes que eram pianistas
ideais.
Guilhermina deixa, em testamento, o seu famoso violoncelo Montagnana para
ser vendido e, com o produto daí resultante, se instituir um prémio com o seu
nome, destinado a premiar o melhor aluno do Conservatório de Música do
Porto. Foram premiados seis violoncelistas de reconhecido mérito. A mim,
deixou-me em testamento um violoncelo italiano do século dezoito, Cavaleri.
Fiquei comovida e agradecida por se lembrar de mim. É um instrumento com
uma sonoridade linda.
Porto, Largo da Paz, Maio de 2006
do catálogo da exposição "SUGGIA, O Violoncelo" que decorre na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até final de Março
Publicado por vm em fevereiro 2, 2007 08:53 AM