fevereiro 14, 2007

CARLOS BEIRES - TESTEMUNHO

Pedem-me um depoimento escrito sobre a grande violoncelista portuense Guilhermina Suggia. Não vou escrever nada que acrescente algo ao valor musical da insigne Artista, glória deste País e desta Cidade, onde nasceu e morreu. Apenas recordações pessoais de alguém que teve a felicidade de a ouvir frequentemente e de a conhecer bem.

1 O meu primeiro contacto com Suggia data de 1934. Eu era aluno de piano do Curso Silva Monteiro e a minha Professora, D. Carolina da Silva Monteiro, juntamente com sua irmã D. Ernestina, apresentavam anualmente alguns dos alunos do Curso numa Audição de Discípulos. Foi num dos ensaios dessas Audições que, pela primeira vez, vi e conheci Suggia. Estou ainda a vê-la chegar à casa do Curso Silva Monteiro, na Av. da Boavista, no seu automóvel, conduzindo ela própria, sem qualquer motorista. Nessa época eram poucas as senhoras que tinham carta de condução e que conduziam sozinhas os seus carros, sem motorista...

2 Depois disso, tive mais um encontro com Suggia, dado que ela tinha uma pequena casa em Leça da Palmeira e os meus Pais costumavam passar os verões nessa praia. Várias vezes acompanhei D. Carolina da Silva Monteiro até à casa de Suggia. Aí a ouvi dizer que gostava muito de tocar em colaboração com esta Senhora. Simplesmente, esta Senhora é que não gostava de tocar em público e daí serem sempre com a colaboração de D. Ernestina os recitais públicos de Suggia.

3 É de 1937 outra recordação de um recital, no Salão Árabe do Palácio da Bolsa, de Suggia com D. Ernestina da Silva Monteiro, recital este integrado, salvo erro, nas comemorações dos 50 anos da criação da Universidade do Porto. Nesse tempo, era raríssimo o Salão Árabe abrir as suas portas para o que quer que fosse. Tenho bem presente ainda o aspecto belíssimo da sala, com todos os assistentes em traje de gala: casacas e vestidos compridos de noite das Senhoras!

4 Suggia tinha dois violoncelos em que tocava normalmente: um Stradivarius e um Montagnana. Como todos os anos dava recitais em Inglaterra costumava, no regresso a Portugal, trazer um deles e deixar o outro em Londres. Aconteceu assim que, quando rebentou a 2a Grande Guerra, em l/Set./1939, tinha consigo, em Portugal, o Stradivarius e foi com este óptimo instrumento que permaneceu e tocou no nosso País durante aqueles longos seis anos.

5 Desse largo período de tempo recordo especialmente os dois recitais no Teatro Rivoli, nesta cidade, com a Orquestra Sinfónica Nacional (Maio/1943, salvo erro), dirigida pelo célebre maestro Sir Malcolm Sargent. Salvo erro, Suggia interpretou os concertos de Dvorak e de Saint-Saëns. Os concertos foram promovidos pelo Círculo de Cultura Musical e recordo o Rivoli completamente cheio de um público entusiasmado, aplaudindo estes concertos. De notar que, nesta época, com a guerra na sua fase mais intensa, os partidarismos políticos (pró-Aliados ou pró-Alemanha) faziam-se sentir com vigor em Portugal.

6 Finda a Guerra, Suggia voltou aos concertos em Inglaterra. Como, em Nov./1948, eu me encontrava em Londres, onde estagiava numa empresa eléctrica, fui ouvi-la ao Albert Hall. Recordarei sempre com grande emoção o meu encontro com a grande Artista. E para se apreciar a consideração com que Suggia era admirada naquele País, veja-se que a II parte do concerto foi ouvida por Suggia no camarote real, onde a Rainha Isabel (a Mãe da actual Rainha Elisabeth II) a tinha convidado!

7 Guardei propositadamente para o fim deste breve depoimento duas referências de carácter mais pessoal.

7 a) Uma delas refere-se às lições que deu a minha irmã Maria, no princípio dos anos 40, sempre por pura simpatia e sem qualquer remuneração. Habitávamos, nessa altura, uma óptima casa situada na Rua Mons. Fonseca Soares, rua que terminava ali mesmo em frente à nossa porta. Escuso de dizer que o local era ideal para fazer música: ausência total de ruídos exteriores. E foi ali que, várias vezes, Suggia se dirigiu e tocou. Achava que minha irmã tinha uma compleição física ideal para o violoncelo. Este convívio apertou mais as nossas relações de Amizade. Até que, em 1943, minha irmã, sentindo uma forte vocação religiosa, tomou a decisão de ingressar na Comunidade das Franciscanas Missionárias de Maria. E a forma como Suggia aceitou essa decisão duma sua aluna muito querida é mais uma característica da personalidade da grande Artista, penso que mal conhecida nesses aspectos mais íntimos da sua maneira de ser.

7 b) A outra refere-se à única ocasião em que colaborei em público com a grande Artista. Foi em Junho/1948 no Centro Universitário do Porto. Convidada para lá se apresentar e dar um pequeno recital, Suggia aceitou uns dias antes, chamou-me a sua casa e disse-me: "O Carlos é que vai acompanhar-me neste recital". Naturalmente aceitei e fiquei-lhe muito grato pela escolha do colaborador. Recordo, entre outras, duas peças que ela tocou com a graça e a perfeição que a caracterizavam: a "Dança Ritual do Fogo" de Manuel de Falla e a "Pièce en Forme de Habanera" de Maurice Ravel.

8 Em Junho/1950 ainda me encontrava em Londres e soube que Suggia estava na London Clinic para onde tinha sido transportada, a fim de ser operada. Fui lá vê-la e logo à entrada encontrei o Prof. Álvaro Rodrigues, que a tinha acompanhado, a seu pedido. Ele logo me informou do que se passava: Suggia tinha um cancro e o cirurgião britânico tinha-se limitado a abrir e a fechar novamente a incisão praticada. Nada havia a fazer!
Dirigi-me então ao quarto de Suggia onde pude emocionadamente despedir-me dela. Ela estava acompanhada por uma das suas amigas britânicas que, até ao fim, não cessaram de a confortar e amparar naquela hora difícil!

9 O fim da vida de Suggia é bem conhecido. Regressada ao Porto no mês seguinte, faleceu na sua casa, em 30/Julho. Está sepultada no Cemitério de Agramonte, desta cidade.
E são estas algumas recordações pessoais da grande Artista, que talvez ajudem a compreender melhor a personalidade de Suggia, glória mundial portuguesa da interpretação musical violoncelística!
Porto, Junho de 2006

do catálogo da exposição "SUGGIA, O VIOLONCELO" que decorre na Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, até final de Março

Publicado por vm em fevereiro 14, 2007 12:00 AM
Comentários

Fico surpreendido como a enorme qualidade da oferta cultural do Porto há décadas atrás. Ou estarei enganado?

Afixado por: Joka em fevereiro 22, 2007 10:39 PM

Não deve estar enganado. Acho.

Afixado por: vm em fevereiro 26, 2007 11:21 PM

Não está enganado, não. O Porto "já foi" cidade de grande cultura.

M.R.L.

Afixado por: em fevereiro 27, 2007 02:35 PM
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