
A Espinho iria dar Pablo Casals, catalão e violoncelista, que firmara contrato para aparecer como membro de um septeto, a solo uma vez apenas por semana, no casino local. «Era o Casino de Espinho», lembrará meio século depois, «em realidade, uma casa de jogo.» Contava por então vinte e um anos, em seu dom confiado e em sua sorte, ao braço do instrumento adossando as miúdas feições de pernóstico preceptor. E, por conselho do pai, viria Guilhermina diariamente, de comboio, escutar-lhe a lição. No conceito desse mestre, tão jovem, afinal, mas tão maduro que a variedade dos temperamentos se diria reprovar, evidentemente se tratava, o que bastante temia, de uma futura notável. Essas expedições de solavancos, que do Porto a conduziam à praia apinhada de ociosos, bem didácticas se revelavam da autonomia da genialidade e do dever de a acalentar, da sumária indiferença que é necessário contrapor aos machos mentores, da eternidade do abraço em que ao peito se estreita o luminoso instrumento. Na convicção de estar, de certo modo, dilapidando dotes, assim é que Pablo exemplificaria.
Que poderia esperar de seus recursos a rapariguita esgalgada, sem piedade o olhando numa atonia pascácia? Havia cordas e dedos, já o explicara, uma expectação que tu¬do absorvia. Que poderia, pois, ensinar-lhe? Era como quando vem lastimar-se um amigo, não atinamos com que coisa fazer da ternura, da repulsa que nos resta. Mas era um fio, também, na tessitura geral, que o diálogo distraía. O homem tinha ela, em seu núcleo de brasas, aí onde verdade e engano se entrecruzam, decadência e grandeza. Que poderia fazer, encadeada a um texto que ninguém em definitivo traduzia? A cada instante lhe sussurravam a desistência, inquiriam porquê, da teimosia se riam. Seria isso, a música, um soluço de outra pátria, com sua capital de perfeitas artérias, seus frisos de oiro rebrilhando ao sol? Que tarde que se tornara, que frio, agora que haviam as ondas deixado de bramir. Acamava o violoncelo em seu estojo, avançava aos sacões, apitando, a longa composição.
Do livro “ GUILHERMINA”, de Mário Cláudio, agora reeditado