
Cada manhã se punha à porta Julius Klengel, esperando a rapariga que o acaso lhe metera no percurso. Com desembaraço rompia ela, escorraçada das intempéries, logo a toda a volta distribuindo os objectos de seu mester. O aroma de vasta morbidez, de molhadas plantas que decaíam, se lhe ia evaporando dos vestidos. Já, por essa altura, se fixara na indumentária desleixada e heteróclita, com que haveria de caracterizar os anos de apogeu.
E na palma da mão recebia o pachorrento Julius Klengel, acabada de salvar, uma dessas aves cinzentas e reboludas, que costumam remexer nos lodos ribeirinhos. Quando, com a dúvida do apaixonado, o arrebatado desenho lhe corrigia de um portamento, a posição dos dedos lhe reconstituindo, dir-se-ia o tempo petrificado, com os plátanos lá de fora desfocados num extenso borrão verde. Nisso meditaria Julius Klengel, retractando-se daquilo que ensinara, refundindo a prelecção que fizera, debitada agora a maior velocidade. Como poderia Guilhermina obedecer-lhe, retomar o excerto que lhe fora assinalado, sem todavia prescindir de se ser? Essa trepidação agastada, que nem nos deixa carentes nem nos satisfaz, dela padecia o alemão, ante o mistério ostensivo que jamais se atreveria a louvar. E a transmutável beleza se lhe materializava nessa jovem do sul, no fogo que tudo molda em sua consumpção.
Do livro “GUILHERMINA”, de Mário Cláudio, reeditado recentemente