
Já agora, deixem-me meter também a minha colherada. As tosses de que se queixa a Maria da Graça e o desabafo de Sampaio Bruno têm decerto uma raiz comum. E essa raiz comum não será a de estar a gente, no fundo, bem no fundo, nas tintas para a arte e a cultura?
Bem sei que há a febre do ballet. Mas têm a certeza de que muitos não irão lá senão para ver as pernas às bailarinas?
Bem sei que se editam livros como nunca, que se realizam exposições, que os cinemas estão cheios, que os teatros vão vegetando, que os concertos tem um público fiel. Mas têm a certeza de que o vulgar leitor de romances, o espectador das fitas e das peças, procura mais que uma distracção, mais do que saber se o fulaninho sempre casa com a cicraninha? Têm a certeza de que o comum visitante das exposições procura mais que a flagrância dos retratos ou o lindo verde dos campos? Têm a certeza de que o «habitué» dos concertos
procura mais do que um bom sono por dentro, quando não por fora, embalado na harmonia dos sons, ou do que verificar se o concertista "X" produz maior ou menor número de notas por minuto que o concertista "Y"? Sim, andamos todos a fingir cultura, como diz o José Gomes Ferreira, que devia ser ele a escrever este comentário, mas anda com a mania de que cortou a colecta (esperemos que lhe passe).
Mas não acham também que num pequeno país pobre, de oito ou nove milhões de habitantes, tudo isso é compreensível, e que o facto de ainda assim haver concertos, haver exposições, escreverem-se livros, saírem revistas literárias, tem qualquer coisa de milagreiro?
Não acham, com franqueza, que já é fazer muito e que não há, afinal, grandes razões para desânimos ?
JOÃO JOSÉ COCHOFEL
Desenho de JOÃO ABEL MANTA
Da “GAZETA MUSICAL e de Todas as Artes”, ANO X, 2ª Série Nº 112/113 de Julho/Agosto de 1960