— crise ou não?
— tradição nacional ou não?
— novas técnicas aceitáveis ou não?
A seguir aos romancistas pronunciam-se agora os compositores portugueses sobre alguns daqueles problemas que se nos afiguram de viva actualidade e de importância capital em matéria de criação artística. Sabida a relutância que, de um modo geral, os nossos músicos manifestam cm escrever sobre assuntos da sua arte, e o relativo desinteresse com que se têm alheado de teorizações, ou até da divulgação desses mesmos assuntos, a Gazeta considera como excelente sintoma o acolhimento prestado pelos compositores nacionais a este novo capítulo dos seus Inquéritos.
Como bom sintoma será ainda a concordância quase unânime sobre os problemas fundamentais contidos nas três perguntas do questionário. À excepção de uma, todas as respostas são concordes em que haverá uma crise, sim, mas crise de gestação, crise fecunda, de reajustamento a novas técnicas que vêm abrir novos caminhos à música. E do mesmo modo é unânime a aceitação da realidade irrefutável que hoje em dia representam essas novas técnicas, independentemente dos tons variados em que se dê tal aceitação, seja o da adesão calorosa, ao da prudente expectativa, ou ao da resignação. Finalmente, poucas respostas afirmam haver uma tradição musical portuguesa, e a esmagadora maioria que a dá como inexistente, ou apenas «possível de vir a criar-se», vem pôr o dedo numa das chagas vivas da nossa cultura, precisamente a da falta de escolas e de linhas de continuidade na música portuguesa através dos séculos. Eis as perguntas, e têm a palavra os músicos:
1) Em seu entender a música atravessa um momento de crise?
2) Haverá uma tradição musical portuguesa? Em caso afirmativo, acha que os compositores actuais devem (ou podem) integrar-se nessa tradição?
3) Que perspectivas poderão abrir à música portuguesa as novas técnicas de composição — dodecafonismo, música concreta, música electrónica?
da "GAZETA MUSICAL e DE Todas as Artes" Ano X, 2ª Série , JULHO-AGOSTO de 1960, Nº 112-113