
O segundo concerto triunfal
Se o concerto inaugural foi um sucesso, maior ainda seria o segundo em que participou a violoncelista portuguesa de renome internacional, Guilhermina Suggia. Mantendo o género feminino, vejamos o que disse Oliva Guerra, a poetisa responsável desde a sua fundação em 1921 pela coluna musical do Diário de Lisboa, onde levou a extremos de deliquescência um estilo de recorte literário e sentimental, e de enfoque social na elegante assistência dos concertos:
«Falar da Arte de Guilhermina Suggia fora o mesmo que tentar modelar no barro tosco da palavra frágil todo o frémito divino que se desprende, como uma chama, das mais altas manifestações do sentimento humano; fora o mesmo que tentar traduzir toda a essência mais vibrante do lirismo da alma, duma alma excepcional que sofre e chora e canta, fazendo do seu sofrimento, da sua voz e do seu canto toda a força esmagadora com que sacode, arrasta e despedaça toda uma multidão de almas, que a escuta de joelhos. Essas milhares de almas viu-as ontem Guilhermina Suggia ali rendidas, amarfanhadas por aquela angústia sufocante que se experimenta em face do que é grande de mais para este mundo, esses milhares de almas sentiram ontem ali aos pés da grande artista esses êxtases supremos e inesquecíveis que ficam a viver eternamente a dentro de quem os sente com todo o domínio absorvente duma visão larga de prodígio.
A Arte de Guilhermina Suggia não se define, é indescritível. Reúne em si tudo o que há de mais intimo, de mais profundo e mysterioso a dentro da alma humana. Domina e arrebata. Como sacerdotisa no seu trono, embriagada de sonho, em atitudes estilisadas de inspirada, Guilhermina Suggia teve momentos de emoção que a levaram para além da vida no voo transfigurador da arcada arrastadora. No seio do seu violoncelo privilegiado vibrou uma alma sublime que gemeu, gritou e se estorceu nos paroxismos da paixão, uma alma imensa, sedenta e desvairada, feita de retalhos de almas, de todas as almas sofredoras que vivem a vida eterna das emoções raras.»
Depois destes excessos verbais, vem a brevíssima referência às obras tocadas que, por sinal, marcam a versatilidade estilística da violoncelista e do maestro, mas não suscitam comentários à cronista (mais literária que musical, está bem de ver):
«Não é possível destacar qualquer trecho ou passagem dos concertos de Haydn [qual?] e de Lalo, que tocou com a orquestra, ou da suite [qual?] de Bach, que tocou a solo, porque em tudo foi igualmente grande inexcedivelmente genial.
Francisco de Lacerda, o grande regente que nos maravilhara há dias com o seu savoir faire inegualável, foi ontem ao lado da divina artista o colaborador insuplantável em todos os números de orquestra, só ou no acompanhamento á ilustre solista, e onde a sua regência cuidada, precisa e elegante, sem gestos inúteis nem teatralidades rebuscadas, soube comunicar como uma chama oculta todo aquele frémito de emoção indefinível, que é a grande vitoria da verdadeira Arte.
As ovações foram também indescritíveis. Nunca assisti a uma apoteose igual.» [1923/06/08].
"ARTE MUSICAL" IV Série, Volume 1, nº5, OUTUBRO DE 1996
Desenho de Francisco de Lacerda de Lydia Balomey, sem data
Excelente! Também nos 20 anos da morte de Jacqueline du Pré (cuja primeira séria referência internacional foi vencer o Prémio Suggia), evocar Guilhermina Suggia é lembrar um justo ícone da arte mundial do séc. XX, cujo relevo na pátria de origem não é, infelizmente, correspondido com a perpectuação da mais viva memória de um músico: os discos. Que difícil é encontrar um registo de Suggia interpretando Saint-Saen ou Bach, - para já não dizer Lallo, Schumann ou Max Bruch, editados no único CD que se encontra e tão dificilmente. E porque não a música de Suggia neste blog?
Afixado por: Antonio Leal Salvado em outubro 16, 2007 03:06 AM