outubro 14, 2007

GUILHERMINA SUGGIA TOCA NO TEATRO DE SÃO CARLOS COM A FILARMONIA DE LISBOA, DIRIGIDA POR FRANCISCO LACERDA

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O segundo concerto triunfal
Se o concerto inaugural foi um sucesso, maior ainda seria o segundo em que participou a violoncelista portuguesa de renome internacional, Guilhermina Suggia. Mantendo o género feminino, vejamos o que disse Oliva Guerra, a poetisa responsável desde a sua fundação em 1921 pela coluna musical do Diário de Lisboa, onde levou a extremos de deliquescência um estilo de recorte literário e sentimental, e de enfoque social na elegante assistência dos concertos:

«Falar da Arte de Guilhermina Suggia fora o mesmo que tentar modelar no barro tosco da palavra frágil todo o frémito divino que se desprende, como uma chama, das mais altas manifestações do sentimento humano; fora o mesmo que tentar traduzir toda a essência mais vibrante do lirismo da alma, duma alma excepcional que sofre e chora e canta, fazendo do seu sofrimento, da sua voz e do seu canto toda a força esmagadora com que sacode, arrasta e despedaça toda uma multidão de almas, que a escuta de joelhos. Essas milhares de almas viu-as ontem Guilhermina Suggia ali rendidas, amarfanhadas por aquela angústia sufocante que se experimenta em face do que é grande de mais para este mundo, esses milhares de almas sentiram ontem ali aos pés da grande artista esses êxtases supremos e inesquecíveis que ficam a viver eternamente a dentro de quem os sente com todo o domínio absorvente duma visão larga de prodígio.

A Arte de Guilhermina Suggia não se define, é indescritível. Reúne em si tudo o que há de mais intimo, de mais profundo e mysterioso a dentro da alma humana. Domina e arrebata. Como sacerdotisa no seu trono, embriagada de sonho, em atitudes estilisadas de inspirada, Guilhermina Suggia teve momentos de emoção que a levaram para além da vida no voo transfigurador da arcada arrastadora. No seio do seu violoncelo privilegiado vibrou uma alma sublime que gemeu, gritou e se estorceu nos paroxismos da paixão, uma alma imensa, sedenta e desvairada, feita de retalhos de almas, de todas as almas sofredoras que vivem a vida eterna das emoções raras.»

Depois destes excessos verbais, vem a brevíssima referência às obras tocadas que, por sinal, marcam a versatilidade estilística da violoncelista e do maestro, mas não suscitam comentários à cronista (mais literária que musical, está bem de ver):
«Não é possível destacar qualquer trecho ou passagem dos concertos de Haydn [qual?] e de Lalo, que tocou com a orquestra, ou da suite [qual?] de Bach, que tocou a solo, porque em tudo foi igualmente grande inexcedivelmente genial.

Francisco de Lacerda, o grande regente que nos maravilhara há dias com o seu savoir faire inegualável, foi ontem ao lado da divina artista o colaborador insuplantável em todos os números de orquestra, só ou no acompanhamento á ilustre solista, e onde a sua regência cuidada, precisa e elegante, sem gestos inúteis nem teatralidades rebuscadas, soube comunicar como uma chama oculta todo aquele frémito de emoção indefinível, que é a grande vitoria da verdadeira Arte.
As ovações foram também indescritíveis. Nunca assisti a uma apoteose igual.» [1923/06/08].
"ARTE MUSICAL" IV Série, Volume 1, nº5, OUTUBRO DE 1996
Desenho de Francisco de Lacerda de Lydia Balomey, sem data

Publicado por vm em outubro 14, 2007 10:13 AM
Comentários

Excelente! Também nos 20 anos da morte de Jacqueline du Pré (cuja primeira séria referência internacional foi vencer o Prémio Suggia), evocar Guilhermina Suggia é lembrar um justo ícone da arte mundial do séc. XX, cujo relevo na pátria de origem não é, infelizmente, correspondido com a perpectuação da mais viva memória de um músico: os discos. Que difícil é encontrar um registo de Suggia interpretando Saint-Saen ou Bach, - para já não dizer Lallo, Schumann ou Max Bruch, editados no único CD que se encontra e tão dificilmente. E porque não a música de Suggia neste blog?

Afixado por: Antonio Leal Salvado em outubro 16, 2007 03:06 AM
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