outubro 17, 2007

AINDA GUILHERMINA SUGGIA NO TEATRO DE SÃO CARLOS COM A FILARMONIA DE LISBOA, dirigida por FRANCISCO DE LACERDA

Paremos um instante para acentuar o reconhecimento dum salto qualitativo na senda da nossa já abundante, mas raras vezes fulgurante, actividade concertística. O panegírico que segue, de Suggia, tal como os acima citados, entoa toda a escala dos superlativos, só que os faz soar, em geral, mais afinados, com os adjectivos ornamentais melhor colocados:
«Não é possível encontrar palavras, não há frases que possam traduzir cabal e capazmente as impressões que Suggia produziu no espírito de todos. Mixto de admiração e de pasmo, fascinação, encantamento, e arroubo por tudo. Sucessivamente, a grandíssima artista nos fez passar, numa gama ascendente, cada vez mais poderosa de domínio.

A sua arcada, a sua técnica, a sua grande alma, a sua mascara traduzindo passo a passo todas as "nuances" dos trechos executados, por forma a convencer-nos que artista e instrumento formam um todo, um bloco, como que completando-se mutuamente.
Independentemente destas qualidades assombrosas, Suggia ainda nos oferece outro prisma por que passamos a admirá-la: a modalidade da sua alma de artista, a sua compreensão nítida das obras executadas, a sua integração nelas. Talvez seja dentre as suas pasmosas qualidades a mais surpreendente! Suggia tocou a solo a celebre "suite" em dó de Bach [agora ficamos a saber qual das suites foi!], e com acompanhamento de orquestra dois concertos em ré, de Haydn e de Lalo.
Pois na execução das 3 obras não houve um só ponto de contacto, não houve um só compasso, uma só nota duma delas que nos podesse fazer lembrar uma nota ou um compasso de outra! Fantástico!»

Depois destas desmedidas hipérboles, Sampaio Ribeiro, reporta os aplausos apoteóticos que já conhecemos, mas acrescenta um pormenor revelador, quanto à qualidade do público, antes de apreciar Lacerda (a quem deixa de chamar sr., mas Maestro - com maiúscula!) e à Filarmonia:
«[...] Há a notar que na assistência havia muito do bom, musicalmente falando, por exemplo Viana da Mota, maestro Fão, Rey Colaço, Freitas Branco [Luís, decerto], José Henrique dos Santos, Rui Coelho, Artur Fão, Costa Reis, Adria¬no Pereia [Mereia, talvez], etc.
A orquestra preencheu o resto do programa, tocando optimamente a Abertura do "D. João", "Fragmentos do 3° acto dos Mestres Cantores" e o nocturno de Duparc "Aux Etoiles".
O Maestro Lacerda felicíssimo e competentissimo quer como regente quer como acompanhador.
E... creio bem que para o outono teremos novamente ensejo de aplaudir este esplendido núcleo sinfónico. Ego»(1923/06/16)

“ARTE MUSICAL” Volume I- IV SÉRIE, nº 5 - Outubro de 1996

Publicado por vm em outubro 17, 2007 08:53 AM
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