novembro 21, 2007

UM PAIZ MUSICAL É UM PAIZ CONVENIENTEMENTE PREPARADO PARA ACEITAR TODAS AS LICÕES DO PROGRESSO...

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Depois da extinção das ordens religiosas, coube um importante papel ao edificio onde tinham estado os Caetanos, ou Theatinos, clérigos regulares da Divina Providencia, de que já falámos quando percorremos o Bairro Alto. Vinculou-o á restauração a nossa arte dramática o Visconde de Almeida Garrett, quando ali colocou, cheio do seu enthusiasmo de iniciador, o Conservatório Real de Lisboa e a Inspecção Geral dos Theatros, creados por decreto de 15 de Novembro de 1836.

Fundado por El-Rei D. João V em 1713, existira já o Seminário de Musica da Patriarchal de Lisboa, exclusivamente destinado ao ensino da musica própria dos officios divinos, e estabelecido no sitio da Ajuda. Mas depois se reconheceu que não preenchia os fins da sua instituição, apezar de ter um numeroso pessoal artístico, nacional e estrangeiro, e em 1822 foi mandado fechar. No reinado da Senhora D. Maria II foi então creado, por decreto de 5 de Maio de 1835, o Conservatório de Musica, que tinha seis aulas: de preparatórios e rudimentos, de instrumentos de latão, de instrumentos de palheta, de instrumentos de arco, de orchestra, e de canto. Em 1836, sendo Almeida Garrett, depois Visconde, encarregado pelo Ministro do Reino, Manuel da Silva Passos, de elaborar e propor um plano para a fundação e organisação do Theatro Nacional, d'esse plano resultou o decreto que creou a Inspecção Geral dos Theatros e simultaneamente estabelecia o Conservatório Geral da Arte Dramática, ficando incorporado neste estabelecimento o Conservatório de Musica.

O Conservatório ficou então dividido em três escolas: a de declamacão, a de musica, a de dança e mímica. Creou-se também uma bibliotheca, para a qual sairam da Bibliotheca Nacional todos os livros que tratavam de musica provenientes das livrarias dos extinctos conventos. Os estatutos decretados em 1841 diziam: O Conservatório Real de Lisboa tem por objecto restaurar, conservar e aperfeiçoar a literatura dramática e a língua portugueza, a musica, a declamacão e as artes mímicas. E promoverá outro-sim o estudo da archeologia, da historia e de todos os ramos da sciencia, da literatura, e de arte, que podem auxiliar a dramática.»

Assim se levantava uma bella instituição artística, que devia guiar o gosto nacional, educa-lo, formar óptimos professores, afiançar a boa educação dos seus discípulos.

Um paiz musical é um paiz convenientemente preparado para aceitar todas as lições do progresso, para saber sentir e saber vibrar. Um paiz cujo theatro represente a sua verdadeira missão, e seja o livro dos que não teem livros, como o exigia um bello espirito, recebe por este intermédio parte da sua educação moral e cívica. Dos conservatorios, organisados sob um alto pensamento artístico, deviam naturalmente sair os elementos que produzissem a resultante desejada.

Onde o meio é essencialmente artístico, facilmente o artista se educa; onde o não é, mais difficil e cuidada tem de ser a educação, porque se no primeiro caso o publico faz o artista, no segundo é a este que compete educar o publico. A arte é, como a terra, pródiga para quem a cultiva, mas, como a terra também, merece cuidados especiaes para que os seus fructos sejam óptimos. Era necessário que a educação musical do Conservatório correspondesse a uma educação de espirito.

Sem regras não pôde fazer-se o artista, nem este nome lhe cabe; mas cingido apenas ás regras não ha artista na verdadeira acepção da palavra. «A arte musical não pode ser uma profissão; tocar bem um instrumento ou escrever correctamente uma cantata ou uma fuga, não é bastante para ser musico, para ser artista...» diz Vincent d'Indy.

Passando do ensino da musica para a arte dramática propriamente dita, e para a arte dramatico-lyrica, que observávamos? Tínhamos theatro?, tínhamos dramaturgos, tínhamos compositores musicaes, tínhamos publico, tínhamos tudo, só nos faltava a matéria prima — uma escola de actores. Se alguns d'estes se erguiam a grande altura, deviam-no uns a diligencia própria, outros a simples intuição artística.

Do Theatro de D. Maria II afastavam-se alguns auctores dramáticos de mérito reconhecido e alguns dos melhores actores. Attrair áquelle centro artístico e literário uns e outros, reunir ali os primeiros dramaturgos e os primeiros artistas para que uns e outros, fomentada a emulação e destruída a rivalidade, podessem contribuir com o seu talento, e até com o seu patriotismo para o levantamento da arte dramática, era um dever a cumprir. Tínhamos elementos, mas dispersos; bastava anima-los no amor da arte, e reuni-los junto da mesma bandeira para que a victoria fosse certa e o theatro portuguez reaquirisse o brilho que outr'ora teve.

Tínhamos um theatro lyrico, que era dever artístico conservar e quanto possível engrandecer, mas não tínhamos um theatro lyrico nacional, frequentado pela classe média e pela classe popular, que educasse musicalmente o povo, que o ensinasse pouco a pouco a sentir e perceber os segredos da nossa musica, e que animasse também os nossos compositores a estuda-la, a cultiva-la, a arrancar-lhe todas as bellezas que encerra, e que sempre tem encantado o publico nas ligeiras e apertadas tentativas de alguns dos nossos maestros.

Ponto de partida para o resurgimento da arte musical e da arte dramática, teve o Conservatório de soffrer funda remodelação de serviços. Instituiram-se então um Conselho de arte dramática, e um Conselho de arte musical, que ha muito eram exigidos tanto para intervir directamente no ensino d'aquelle instituto, á similhança do que se pratica no Estrangeiro, como para habilitar o Governo com opinião auctorizada, sempre que este tivesse de resolver assumptos dramáticos ou lyricos.

Crearam-se a aula de órgão e a aula de harpa. Só o nosso Conservatório as não tinha, e se a aula de harpa era indispensável elemento imperdoavel se tornava a de não existir a de órgão. O ensino dramático foi restabelecido com o desenvolvimento tendente a produzir o resultado que se procura. Outros serviços foram melhorados, e para se conseguirem elementos de orchestra, para que esta classe e a de musica de camara tomassem o logar que lhes pertence e desempenhassem o papel que lhes cabe, e para que do Conservatório não saissem quasi unicamente pianistas, instituíram-se para os alumnos d'estas classes, e para os de ensino dramático, que também precisavam do máximo auxilio e estimulo, subsídios e vantagens.

Feita a reforma no Conservatório, estava naturalmente indicada pela orientação seguida e pela exposição feita, a creacão de um theatro lyrico portuguez, onde os artistas musicaes, que saiam do Conservatório tenham collocacão e encontrem futuro, se não na totalidade, em grande parte.

Quanto ao Theatro de D. Maria II teve o Governo o mais sincero e vivo empenho de ali reunir os nossos primeiros auctores e artistas dramáticos, pois que, por melhores que sejam as obras da literatura theatral, não podem ter o relevo preciso sem que haja bons artistas que as representem, nem estes podem manifestar todo o seu talento sem que a elle correspondam os papeis que tenham de interpretar e não deve ser principalmente nas peças estrangeiras que se realise este desideratum. Para tal propósito devia servir de valioso subsidio o Conselho de arte dramática que se instituiu na ultima reforma do Conservatório Real de Lisboa.

No relatório que precedeu a publicação d'esta reforma, com a data de 10 de Setembro de 1901, dizia-se: «Fossem outros os recursos do Estado, e a construção do Theatro Lyrico Portuguez por sua conta única havia de correr, mas nas circumstancias actuaes vae-se até ao máximo a que se pôde ir. Por isso á sociedade que no praso de um anno se organisar para a edificação do Theatro Lyrico Portuguez será concedido terreno, serão fornecidas madeiras e outros materiaes que o Estado possua, isentando de direitos todos que haja de importar. Como obrigação principal impõe-se a esta sociedade edificadora a cedência do Theatro á sociedade artística que se constituir nas condições que oportunamente serão decretadas. Para resolver eventualidades, varias restrições se fazem, acautelando-se rigorosamente os interesses do Estado.»
Mas decorreu o praso, e passou, sem que ninguém se aventurasse a secundar os bons desejos o Governo.

“LISBOA ILLUSTRADA” de Alfredo Mesquita- EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL-SOCIEDADE EDITORA-1903

Publicado por vm em novembro 21, 2007 12:05 AM
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