
Teve um êxito alem de toda a expectativa a matinée musical que um grupo de artistas e amadores realisou no dia 2 no elegante Salão do Conservatório.
As três obras de musica de câmara que se executaram com instrumentos de sopro e piano, quasi uma novidade em Portugal, mantiveram em constante interesse o selecto publico que enchia litteralmente o Salão agitando-o mesmo por vezes em ímpetos do mais espontâneo enthusiasmo.
Se bem que a personalidade do director d'este jornal tivesse uma parte muito activa na organisação e no desempenho d'este concerto e sejamos portanto forçados a calar considerações que directa ou indirectamente o attinjam, nada impede que alludamos aos trechos em que os outros executantes se salientaram por uma forma brilhante, grangeando uma unanimidade de applausos verdadeiramente lisongeira.
Assim, seguindo a ordem do programma, apontaremos primeiro que tudo o magistral Andante do Quintetto de Beethoven, op. 16, cujo solo do oboé foi sóbria e correctamente desempenhado por Arthur da Fonseca, seguindose-lhe a phrase de fagote, em que João Manoel conseguiu arrancar um
bravo unanime de todas as bocas, pela nobreza e sentimento com que a disse. As duas phrases da trompa, que pouco depois se ouvem, foram um justíssimo successo para Manoel Tavares, cujo som pastoso
e expressivo fizeram o encanto do auditório.
Este Andante foi a nosso ver um dos trechos mais bem réussis de todo o programma, acrescendo que se poderam n'elle evidenciar de uma forma notável três artistas portuguezes do mais alto valor, o que para uma grande parte do auditório foi uma inesperada revelação.
Bom é que n'estas tentativas de tão grande alcance artístico se vá provando que também temos entre nós artistas de excepcional merecimento que nem sempre sabemos aproveitar e nem sempre queremos respeitar, tal é a cegueira inconsciente por tudo o que nos venha lá de fora, com sello mais ou menos authentico de celebridade.
No Caprice de Saint-Saëns temos que felicitar a José Henrique dos Santos, por vários passos de flauta de grande difficuldade, que tocou como mestre que é. E também merece registro o solo de caracter agreste que o oboé detalhou artisticamente, respondendo-lhe o mavioso clarinette de Severo da Silva, n'uma caridosa phrase que o publico sublinhou com mal reprimidos bravos.
No admirável Larghetto do Sextetto de Thuille, novo successo para a trompa na phrase inicial, seguindo todos os outros instrumentos, com grande elevação e sentimento a interpretação d'esta pagina genial, que não hesitamos em classificar como um dos melhores trabalhos que conhecemos na musica de camará moderna. Apoz o o Larghetto, vem uma encantadora Gavotte, cujo motivo principal é apontado primeiro pelo oboé, depois pelo fagote e mais tarde pelo piam; foi um verdadeiro successo d’ensemble, sendo preciso repetil-a para satisfazer as instancias do auditório.
E também como obra d'ensemble veio o Final, n'um animado e original seis por oito, dar a nota enérgica de que se carecia para fechar brilhantemente esta notavel audição.
Ao passo que felicitamos, pelo triumpho obtido, os notáveis artistas (amador e profissionaes) que collaboraram com o nosso director n'esta notável consagração artistica cumpre-nos também agradecer aos nossos respeitáveis collegas do Século, Diário de Noticias, Jornal do Commercio, Vanguarda, Folha da Tarde, Dia, Tempo, Popuiar e Tarde, as palavras altamente lisonjeiras que quizeram dispensar a este concerto.
“A ARTE MUSICAL” ,Anno II, numero 47 de 15 de Dezembro de 1900
Publicado por vm em janeiro 1, 2008 11:12 AM