Depois de ter apresentado Madalena Moreira de Sá e Costa e Aubrey Rainier, violoncelistas admiráveis que os dilettanti do Pôrto e de Lisboa ouviram, já em concertos memoráveis, Guilhermina Suggia vai apresentar, em Maio próximo, um novo prodígio musical. Tendo a rara felicidade de preparar talentos de gema e de abrir a carreira da música a vocações de eleição, a eminente concertista e professora vai projectando a sua glória sobre aqueles a quem o seu grande nome serve, por assim dizer, de arrimo para a difícil jornada. Continuando de posse do supremo título, Guilhermina Suggia orgulha-se, justamente, dos discípulos que apresenta. E, quando a glória, como nos casos citados, os começa a bafejar, a insigne artista tem o direito de se sentir maior, porque a glória dela, será, sempre, um reflexo da sua própria glória.
Desta vez, Guilhermina Suggia, aperfeiçoadora de grandes talentos, vai, por certo, obter um novo triunfo na pessoa duma nova discípula, a quem, sem favor, se pode qualificar, já, de excepcionalmente talentosa. Ouvimo-la, há dias, por indicação amável de quem, no remanso familiar, num lar que é, também, retiro espiritual consagrado à música, a tem podido ouvir, e, depressa, nos convencemos de que a juvenil violoncelista pode enfileirar na galeria dos nossos melhores concertistas e tornar-se, portanto, credora da admiração de todos os musicófilos.
Após o último concerto da Grande Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, o Maestro Pedro de Freitas Branco efectuou, no Teatro Rivoli, no sábado pretérito, de manhã, um ensaio de conjunto com a jovem Maria Alice Ferreira. Algumas pessoas de categoria nos nossos meios social e artístico, poucas, tiveram o prazer espiritual de escutar a discípula de Guilhermina Suggia. E, apesar de se tratar dum ensaio, de faltar o ambiente propício às grandes emoções artísticas, de, volta e meia, a voz do maestro soar para um reparo, uma indicação, uma chamada, de, aqui e acolá, se suspender a execução, de não haver, em suma, carácter de concerto, ao talento da concertista solista não faltou o ensejo de ser posto à prova nem ao pequeno auditório o de observar as faculdades admiráveis daquela.
Quatro obras, das melhores que para violoncelo existem, foram tocadas por Maria Alice Ferreira: o Concerto de Lalo Allegro appassionato, de Saint-Saëns, Kol Nidrei, de Max Bruch, e Tarantelle, de David Popper. Com que superioridade a novel concertista as executou a todas! As páginas difíceis de Lalo, que requerem vigor e agilidade, demonstraram bem do que era capaz a executante. Observando todos os efeitos e salientando-os sem os exagerar, Maria Alice Ferreira provou que sabe dominar o instrumento e fazê-lo vibrar ao sabor do seu temperamento artístico fortemente individuado. Impecável de técnica, manteve, do princípio ao fim do concerto, aquela unidade de execução que aponta a verdadeira artista.
Na verdade, fraseando com uma perfeita limpidez, obtendo do instrumento (não era aquele com que deverá apresentar-se em público) uma sonoridade magnífica, sempre aveludada e pura, fortíssimo ou pianíssimo que toque, e evidenciando uma arcada elegante e nobre, apaixonada e comunicativa se a obra interpretada justifica paixão e comunicatividade, Maria Alice Ferreira revelou o estofo duma grande violoncelista. A emoção com que produziu, por exemplo, os graves lamentosos da peça judaica e a vibratilidade que imprimiu à dança de Popper expuseram nitidamente, as suas facetas de intérprete e executante, fiel à rubrica das páginas que toca mas incapaz de lhe sacrificar a sua radiosa e fogosa individualidade.
E, afinal, quem é a novel artista? — perguntar-se-á no meio musical, onde o nome de Maria Alice Ferreira é, ainda, desconhecido. Filha do conhecido industrial sr. Delfim Ferreira e da sr.a D. Sílvia Gomes Ferreira, uma artista acrisolada, também, a quem se deve, principalmente, o estímulo artístico de que a encantadora Maria Alice está a beneficiar, a juvenil violoncelista, quinze anos apenas de idade, foi aluna de Augusto Suggia, de cujas mãos hábeis e proficientes passou para as de Guilhermina Suggia. Nunca se exibiu em público. Cultiva a música no aconchego do lar e é admirada, tão somente daqueles que o frequentam. Há pouco tempo — e excepcionalmente — tocou numa festa íntima da colónia inglesa no Porto.
Mas os seus admiradores, poucos entretanto, vão ser, em breve, muitos. É que Maria Alice Ferreira, a quem não faltam graças físicas a emoldurar as espirituais e morais, vai apresentar-se, na primeira semana de Maio próximo, como solista, num dos dois novos concertos que a Grande Orquestra Sinfónica Nacional vem realizar nesta cidade.
O Porto musical terá então, na sua presença, uma concertista de mérito admirável, que poderá honrar a cidade e o País a que pertence, dentro e fora dele.
De “O Comércio do Porto” de 21-IV-1937
(Cedido por Luís Sá Pessoa)